Para dizer certas coisas são precisas palavras outras novas palavras nunca ditas antes ou nunca antes postas lado a lado. São precisas palavras que inventaram seu percurso e cantam sobre...
Marina Colasanti
Naveguei até uma ilha que só existe na miragem, onde uma tribo selvagem tornou-se minha família. Em meio a tanta amizade com casa, cama e fogão nem deu pra sentir...
Ganhei um anel pequenino que não cabe no meu dedo, quem me deu foi um menino que me sorri desde cedo. O anel seguirá pequeno parecendo de brinquedo, há de...
Marina Colasanti – Novo, de novo
O gato dorso curvado se espreguiça no telhado. O galo canto maduro abre o bico no alto muro. O homem abre a janela, a mulher, a geladeira, e lá vem...
Deve ser erro meu querer jardim lá onde a natureza só pretende selva. Gramados, convenhamos, são coisas de europeu com galgos, gamos e um castelo ao fundo erva aparada em...
Um homem corre que corre leva a vida em desatino quase morre pra ganhar qualquer instante. Que tempo ganho que nada o futuro é sempre adiante e o camarada só...
O trem avança no trilho o trilho corre no chão as horas são estribilho e o tempo não passa em vão. Giram as pás do moinho caem as folhas do...
Marina Colasanti – Cena amena
Da cartola sai o pombo da cabeça, o pensamento do tempo sai o momento do descuido faz-se o tombo. De uma coisa, coisa nasce pinto, do ovo velho, do novo,...
Da camélia breve é a vida, mas como dizer breve de uma vida bem vivida? Qual é do tempo a medida? Se a flor hoje desabrocha e amanhã já está...
Que ruído aconchegante se espalha pela casa e alcança o meu ouvido. É louça contra louça uma tampa que canta na beira da panela o talher que reclama caindo no...
Marina Colasanti – A Centopeia
Quem foi que primeiro teve a ideia de contar um por um os pés da centopeia? Se uma pata você arranca será que a bichinha manca? E responda antes que...
Estranho lugar é o mar. Tem cavalos que não trotam, não relincham, não galopam, não andam pelos caminhos, são marinhos. Tem estrelas que não brilham, não iluminam o mundo, nadam...
Marina Colasanti – Mesmo parada
O que se move na noite escura? Cupim roendo madeira dura, gambá na toca, pingo de chuva, pata que cava, unha que fura, sombra entrevista pela fissura. Na noite muda,...
Bem debaixo da sombrinha da moça novidadeira busca abrigo uma andorinha vinda de terra estrangeira. No topete arrepiado do menino moderninho vai procurar aliado um valente porco-espinho. Atrás da locomotiva...
Há no forro do meu teto um movimento secreto não sei se de pata ou asa mas de alguém que ali fez casa. Esse inquilino abusado não toma o menor...

