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Liu Xiaobo

Liu Xiaobo

Liu Xiaobo – Olhando Jesus

Você me reconhece, Jesus?
Um chinês com pele amarela
sou da terra onde se subornam deuses com pãezinhos
de sangue humano
aqui reza-se apenas para perturbar os deuses
nossos deuses são dourados
imperadores, santos, guerreiros, virgens
inúmeras pessoas foram deuses para nós
pedimos por bênçãos, mas sem arrependimento
mesmo na urina vemos deuses refletidos

Não o conheço Jesus
seu corpo é macilento
pode-se ver cada osso
na imagem miserável pregada na cruz
cada nervo torturado
cabeça levemente para o lado
o pescoço com as veias saltadas
as mãos pendem sem forças
os cinco dedos soltos
como galhos murchos no fogo

Os pecados da humanidade são pesados
e seus ombros são estreitos
você consegue levar o que
lhe impuseram como cruz?
Sangue pinga nos veios da madeira
torna-se o vinho que alimenta a humanidade
acho que você é um bastardo
o Deus terrível rasga o hímen em dois
força você à morte
mas dificilmente para
anunciar o amor de Deus?

Crentes que leem o Velho Testamento
temem a sintaxe dos mandamentos
temem o Deus iracundo
nenhum se e nenhum mas
nenhum fundamento
acreditam ou não, obedecem ou não
criam o querido e o feito
destroem o querido e o Dilúvio
Deus não tem imagem
mas semeia o ódio

O Gênesis, um lindo passatempo
mas ele criou o Mal sem precedentes
o primeiro homem, a árvore do conhecimento,
a serpente
é o fluxo controlado por Deus
desde o dia no qual ele baniu o homem
Deus era um cinzeiro sem fundo
contudo, Jesus, como
você ainda não estava na Terra

Da manjedoura dos camponeses até Deus crucificado
uma pobre criança
torna o Deus do ódio em essência de seu amor
confissão e penitência, sem fim
amor
sem fim e sem fronteiras
como a escuridão pré-histórica

 

Liu Xiaobo, Não tenho inimigos, desconheço o ódio 

Liu Xiaobo

Liu Xiaobo – Sou seu prisioneiro, por toda a vida

Amor, sou seu prisioneiro, por toda a vida
com gosto para sempre em sua escuridão
viver das escórias de seu sangue
pensar em seus hormônios

Cada dia o ritmo das batidas do seu coração
como flocos de neve de um riacho montanhoso
sou uma pedra de mil anos
mas você não ouve dia e noite
gota a gota que penetra em mim

Estou em você
apenas tateante na escuridão
com o vinho que você bebe
escrevendo versos, que buscam você
meu implorar é o implorar de um surdo pelo som
que do amor a dança e seu ventre me inebriam

No momento sinto
seus pulmões a abrir e fechar quando fuma
o ritmo que cresce, que cai, me surpreende
o veneno que você cospe vem do meu corpo
o que sugo é vento fresco, alimento da alma

Amor, sou seu prisioneiro, por toda a vida
como um bebê que não quer ir ao mundo
agarro-me ao calor de seu ventre
Respirar é respirar por você
Acalmar é acalmar por você

Oh! Ser prisioneiro como um bebê
no fundo de sua vida
álcool ou nicotina, não tenho medo
de que seu ser solitário me envenene
preciso muito de seu veneno, muito

Talvez, como teu prisioneiro
nunca veja a luz do dia
mas acredito
que meu destino é escuridão
enquanto eu estiver em você
tudo estará bem

Lá fora o mundo é brilhante, colorido
isso me dá medo
isso me cansa
meus olhares sentem apenas
em sua escuridão –
pura e indivisível

 

Liu Xiaobo, Não tenho inimigos, desconheço o ódio