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Gastão Cruz

Gastão Cruz

Gastão Cruz – Barco

Vou hoje começar a recordar-te
embora a luz entrando sob o arco
escasso da realidade possa dar-te
a ilusão ainda de que o barco

simplesmente balouça mas não parte
Já partiu afinal do porto parco
onde vieste perceber a arte
de nada ser; no mesmo barco marco

lugar como num ventre: igual escala
é a perda da vida que ganhá-la

Gastão Cruz, Repercussão

Gastão Cruz

Gastão Cruz – Canção primeira

Nem o esforço dos banhos as areias
o pranto as frias dunas as vidraças
o por mim puro inverno já passado
nem maio nem lisboa nem a tarde
o verão de outro ano nem dos banhos
a vidraça o esforço arrefecendo
da água
nem a voz fementida
o ledo esforço poderia alterar

O esforço nestas praias era o
da luz de agosto do amor da
esperança
o inverno traçou
as ruas de vidraças
janelas apagadas
fogo disperso de perdidas falas

E depois que as vidraças se acenderam
da ferida de inverno deste ano
a janela apagada
o esforço em frias dunas empregado
depois que só o claro pão do rio
aquece a treva de hoje as frias ruas
e se matam os homens ao clarão
de lisboa
depois que os banhos são
esta dor pura no calor da pele
nas ruas de lisboa o nosso esforço
arrefece o inverno

Assim lutamos
e se alguém te perguntasse canção
como não rompe
o puro som do pranto nestas praias
podes-lhe responder que porque o esforço
se move sobre as dunas
e hasteia nas vidraças

 

Gastão Cruz, Poesia (1961-1981)