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Carlos Nejar

Carlos Nejar

Carlos Nejar – Humano peso

Os sonhos não os têm só que navega
ou tenta navegar no vento aceso,
mas quem por abismos fica ileso
como se flutuasse numa verga

e as âncoras baixassem na tristeza
ou tristes conduzíssemos o peso,
mais a desolução da carne, a intensa
gravidade das coisas, homem preso

ao mínimo das águas, desatento
aos astros, aos planetas e se alterna
mas é somente febre disparada.

O sonho, o frágil corpo, os elementos
navegam as mudanças subalternas
e os nadas de espuma, em puro nada.

Carlos Nejar, Amar, a mais alta constelação

Carlos Nejar

Carlos Nejar – Aqui ficam as coisas

I
Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir.Ir com os rios,
onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.

E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros

II
Aqui ficam as coisas.
Amar é a mais alta constelação.
Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

É a mais alta constelação.

Carlos Nejar, melhores poemas

Carlos Nejar

Carlos Nejar – Amar na luz

Amar na luz ou à sombra de um cometa,
com o tempo fugível, fugitivo.
O barulho das ondas afugenta
o que restou de mim sob o rochedo.

Amar com as horas todas, aturdindo
os corpo nus, as almas, os sentidos.
E perceber que a amada está fluindo
até o som, e aos peixes perseguindo.

E é por isso que neles vou descendo
e não sei se é amor, que já me invade,
ou por ele que morro em toda a parte.

Ou terei de morrer, se já me fogem
as vagas de um viver, que à vida solvem,

apenas por estar com o amor fluindo.

Carlos Nejar, Amar, a mais alta constelação

Carlos Nejar

Carlos Nejar – Formigas

As formigas não nos enxergam,
não nos querem enxergar.
Não querem ir além de sua viseira
ou das lapidadas órbitas.

Endurecem, endurecem a cerviz
e carregam o tempo
maior do que elas.
Ver seria fugir do círculo.
Mas vivem circulares.
Cumprem fainas, cilíndricos
horários. Trancadas entre si.

Maquinam a nação separatista,
longe da plebe. Ou dissidentes,
se alistam nas fileiras
da república.

Um segredo exercitam, sob
a toca. Seria o próprio
e inevitável círculo?
O trabalho, linguagem cifrada,
inaudita. Conversam as formigas
(escutamos) o senso tenro
do milho e os pés viveiros.
Circulam, funcionárias
junto às repartições de terra
antiga e os capins álgidos.

Não nos enxergam, não
nos querem conhecer.
Cabalam a noite e depois,
sisudas, empedernidas,
cabalam o amanhecer.

De casta superior aos pobres
e nocivos homens, não
cumprimentam. Não
cumprimentarão nunca.
Guardam o segredo
de nossas perguntas.

Guardam o que elas,
as formigas, só
as formigas sabem.

 

Carlos Nejar, Os viventes

Carlos Nejar

Carlos Nejar – Abandonei-me ao vento

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

 

Carlos Nejar, Amar, a mais alta constelação