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Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida – As torres

Ó torres da Cidade, ó grandes torres pardas
Erguidas no esplendor dos ares cristalinos;
Ó ninhos de granito, ó poéticas mansardas,
Sonora habitação das aves e dos sinos!

Ó campanários onde os bronzes cantam e onde
Cantam aves do céu nas madrugadas suaves:
Onde o metal pergunta e o pássaro responde:
Ó Torres de Babel dos sinos e das aves!

Torres cinzentas, ó campanários eternos
Em cuja flecha audaz que o próprio raio afronta
Cantou tão forte o sino e os pássaros tão ternos
Que o galo de metal emudeceu na ponta!

Matusaléns de pedra, ó belas torres altas!
Banha­-as em prata a lua; o velho sol, acaso
namorado, lhe dá beijos de luz; esrnalta­-as
o carmim da alvorada e o vermelhão do acaso.

Altas torres, faróis do som, nobres e alertas;
Gigantes de granito e de fidelidade:
Seus arcos ogivais são pálpebras abertas
velando a vida, a paz, o sono da Cidade.

Parece que os retalhos sujos dos telhados
São páginas de um livro antigo que se estendem
Sob as torres, ou são in­-folios desbotados
Que as torres vivem lendo e que elas só entendem.

Torres sentimentais, ó longas torres boêmias
Que vivem a cantar sob o balcão da lua!
São como elas também, são suas irmãs gêmeas
As almas dos violões que choram pela rua…

Quando, do trem de ferro, acima de um barranco,
Já não vejo senão a torre de uma igreja,
Tenho a doce impressão de que essa flecha seja
O derradeiro adeus do casario branco.

E, quando chego, é sempre, sempre a mesma torre
Que surge no horizonte a dar­-me a boa­-vinda:
E enquanto digo “Já?”, no trem que corre e corre,
A torre, lá de longe, é que responde: “Ainda?”…

 

Guilherme de Almeida, Melhores poemas

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida – Os mostradores

Nas ruas da Cidade, os brancos mostradores
Dos relógios parecem olhos cismadores:
Olhos sem vida, olhos de morto, olhos vidrados,
Rasgados no perfil das torres pensativas,

Na desanimação das longas perspectivas
Na carranca senil das fachadas, rasgados
E na fisionomia extática das praças.
Pupilas que não veem, grandes pupilas baças
Que vivem a chorar, amarga, aborrecida
E interminavelmente, as lágrimas das horas,
As lágrimas de bronze, as lágrimas sonoras
que rolam pela rua e pela nossa vida…

Os mostradores são eternas sentinelas
E os seus ponteiros são eternas baionetas.
“Quem vem lá? Quem vem lá?” – e as grandes pontas pretas

Avançam sempre…

Os mostradores são janelas
Em que o Tempo debruça o busto milenário
Para ver desfilar a procissão humana:
Velho monge de longa barba soberana,
Ele põe­-se a virar as folhas do Breviário
Das horas que se vão, das horas que envelhecem,
E a soluçar sozinho os seus Kyrie Eleisons…

De noite, os mostradores vão­-se iluminando
E, redondos e brancos, no alto, eles parecem
Luas artificiais que vivem derramando
Pela Cidade morta o seu luar de sons…

 

Guilherme de Almeida, Melhores poemas

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida – Na cidade da névoa

Na Cidade da Névoa um triste abril desfolha
Os plátanos da rua. Um tédio longo e lento
Desce numa neblina e friamente molha
A desanimação do pardo calçamento.

O vento anda a arrepiar a pele dos telhados
E a arrastar pelo chão as folhas amarelas,
Deixando, no torpor das ruas paralelas,
Um nervoso ranger de tafetás molhados.

O mês de abril empoa os céus de cinza e pinta
As árvores de cromo. O mês de abril tem trinta
Quartas­-Feiras de Cinzas: e a Cidade desfia
Trinta dias de spleen e de neurastenia.

Cinzento mês de abril, Ó mês tuberculoso!
A Cidade parece o asilo silencioso
Onde tossem, dorida e ininterruptamente,
As torres, o arvoredo e os magros combustores.

Dobram sinos: e os campanários cismadores
Pelas tardes de abril têm acessos de tosse
Que vêm despedaçar o coração da gente.
Nas alamedas passa um ventozinho doce:
E curvando­-se então os plátanos corcundas,
Põem­-se a tossir. E os combustores tossem quando,
Nestas noites de outono escuras e profundas,
Assobiam na rua os contagiosos ventos
E as chuvas outonais escorrem acordando
Nos caixilhos de ferro os vidros sonolentos.

E as neblinas da noite, irmãs de caridade,
Passam sob o adejar do linho dos capuzes.

Redobram de furor, nas ruas da Cidade,
Hemoptises de sons, de folhas e de luzes.

 

Guilherme de Almeida, Melhores poemas

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida – Coração

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

 

Guilherme de Almeida, Melhores Poemas

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida – Felicidade

Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada!”
E eu respondi: “Bom dia, filha morta!”

Entrou: e nunca mais me disse nada…
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada…

Então chamou-me e disse: “Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!”

E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era…
E nunca mais eu me senti feliz!

 

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