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Antero de Quental

Antero de Quental

Antero de Quental – Entre Sombras

Vem às vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas —
Vem ter comigo, às horas duvidosas,
Uma visão, com asas de cetim…

Pousa de leve a delicada mão
— Rescende aroma a noite sossegada —
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visão compadecida
— Há suspiros no espaço vaporoso —
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem comigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda há um silêncio santo —
Num sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a região distante
— A noite exala uma doçura infinda —
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás comigo
— Palpita a noite num clarão que ofusca —
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alívio, pobre amigo…

Assim me fala essa visão nocturna
— No vago espaço há vozes dolorosas —
São as suas palavras carinhosas
Água correndo em cristalina urna…

Mas eu escuto-a imóvel, sonolento
— A noite verte um desconsolo imenso —
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento…

Fito-a, num pasmo doloroso absorto
— A noite é erma como campa enorme —
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental, Sonetos completos

Antero de Quental

Antero de Quental – Salmo

Esperemos em Deus! Ele há tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da matéria impotente e, num só dia,
Luz, movimento, acção, tudo lhe há dado.

Ele, ao mais pobre de alma, há tributado
Desvelo e amor: ele conduz à via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a ele, a mim, que o amo,
Que anseio por mais vida e maior brilho,
Há-de negar-me o termo deste anseio?

Buscou quem o não quis; e a mim, que o chamo,
Há-de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pai e abrigo! espero!… eu creio!

Antero de Quental, Sonetos Completos

Antero de Quental

Antero de Quental – Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos
Sem prazer e sem dor, e até parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece…
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minh’alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira…

Porém do pressentir dá-me a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

Antero de Quental, Sonetos completos

Antero de Quental

Antero de Quental – As fadas

“As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se enquanto é dia,
Saem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…”

 

Antero de Quental, As fadas

Antero de Quental

Antero de Quental – Aparição

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!),
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo…

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao trêmulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo…

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E aflitos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos…

– “Ouve! espera!” – Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-ei no ar!

 

Antero de Quental, Cinco séculos de sonetos Portugueses

Antero de Quental

Antero de Quental – Amor vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida…
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma douda cabeça escandecida…

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser — e não só beijos
Dados no ar — delírios e desejos —
Mas amor… dos amores que têm vida…

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia…

Nem murchará do sol à chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores… se têm vida?

 

Antero de Quental, Sonetos Completos

Antero de Quental

Antero de Quental – Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades, 
Sem amor, sem anseios, sem carinhos, 
Livre de angústias e felicidades, 
Deixando pelo chão rosas e espinhos; 

Poder viver em todas as idades; 
Poder andar por todos os caminhos; 
Indiferente ao bem e às falsidades, 
Confundindo chacais e passarinhos; 

Passear pela terra, e achar tristonho 
Tudo que em torno se vê, nela espalhado; 
A vida olhar como através de um sonho; 

Chegar onde eu cheguei, subir à altura 
Onde agora me encontro – é ter chegado 
Aos extremos da Paz e da Ventura! 

Antero de Quental, Sonetos 

Antero de Quental

Antero de Quental – Panteísmo

I

Aspiração… desejo aberto todo
Numa ânsia insofrida e misteriosa…
A isto chamo eu vida: e, d’este modo,

Que mais importa a forma? Silenciosa
Uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
Em homem igualmente e astro e rosa!

A própria fera, cujo incerto passo
Lá vaga nos algares da deveza,
Por certo entrevê Deus – seu olho baço

Foi feito para ver brilho e beleza…
E se ruge, é que a agita surdamente
Tia alma turva, ó grande natureza!

Sim, no rugido há uma vida ardente,
Uma energia íntima, tão santa
Como a que faz trinar ave inocente…

Há um desejo intenso, que alevanta
Ao mesmo tempo o coração ferino,
E o do ingênuo cantor que nos encanta…

Impulso universal! forte e divino,
Aonde quer que irrompa! e belo e augusto.
Quer se equilibre em paz no mudo hino

Dos astros imortais, quer no robusto
Seio do mar tumultuando brade,
Com um furor que se domina a custo;

Quer durma na fatal obscuridade
Da massa inerte, quer na mente humana
Sereno ascenda à luz da liberdade…

É sempre eterna vida, que dimana
Do centro universal, do foco intenso,
Que ora brilha sem véus, ora se empana…

É sempre o eterno gérmen, que suspenso
No oceano do Ser, em turbilhões
De ardor e luz, evolve, ínfimo e imenso!

Através de mil formas, mil visões,
O universal espírito palpita
Subindo na espiral das criações!

Ó formas! vidas! misteriosa escrita
Do poema indecifrável que na Terra
Faz de sombras e luz a Alma infinita!

Surgi, por céu, por mar, por vale e serra!
Rolai, ondas sem praia, confundindo
A paz eterna com a eterna guerra!

Rasgando o seio imenso, ide saindo
Do fundo tenebroso do Possível,
Onde as formas do Ser se estão fundindo…

Abre teu cálix, rosa imarcescícel!
Rocha, deixa banhar-te a onda clara!
Ergue tu, águia, o vôo inacesssível!

Ide! crescei sem medo! Não e avara
A alma eterna que em vós anda e palpita…
Onda, que vai e vem e nunca pára!

Em toda a forma o Espírito se agita!
O imóvel é um deus, que está sonhando
Com não sei que visão vaga, infinita…

Semeador de mundos, vai andando
E a cada passo uma seara basta
De vidas sob os pés lhe vem brotando!

Essência tenebrosa e pura… casta
E todavia ardente… eterno alento!
Teu sopro é que fecunda a esfera vasta…
Choras na voz do mar… cantas no vento…

II

Porque o vento, sabei-o, é pregador 
Que através dos soidões vai missionando 
A eterna Lei do universal Amor.

Ouve-o rugir por essas praias, quando, 
Feito tufão, se atira das montanhas, 
Como um negro Titã, e vem bradando…

Que imensa voz! que prédicas estranhas! 
E como freme com terrível vida 
A asa que o livra cm extensões tamanhas!

Ah! quando em pé no monte, e a face erguida 
Para a banda do mar, escuto o vento 
Que passa sobre mim a toda a brida,

Como o entendo então! e como atento 
Lhe escuto o largo canto! e, sob o canto, 
Que profundo e sublime pensamento!

Ei-lo, o Ancião-dos-dias! ei-lo, o Santo, 
Que já na solidão passava orando, 
Quando inda o mundo era negrume e espanto!

Quando as formas o orbe tenteando 
Mal se sustinha e, incerto, se inclinava 
Para o lado do abismo, vacilando;

Quando a Força, indecisa, se enroscava 
Às espirais do Caos, longamente, 
Da confusão primeira ainda escrava;

Já ele era então livre! e rijamente 
Sacudia o Universo, que acordasse… 
Já dominava o espaço, omnipotente!

Ele viu o Princípio. A quanto nasce 
Sabe o segredo, o germe misterioso. 
Encarou o Inconsciente face a face, 
Quando a Luz fecundou o Tenebroso.

III

Fecundou!… Se eu nas mãos tomo um punhado 
Da poeira do chão, da triste areia, 
E interrogo os arcanos do seu fado,

O pó cresce em mim… engrossa… alteia… 
E, com pasmo, nas mãos vejo que tenho 
Um espírito! o pó tornou-se ideia!

Ó profunda visão! mistério estranho! 
Há quem habita ali, e mudo e quedo 
Invisível está… sendo tamanho!

Espera a hora de surgir sem medo, 
Quando o deus encoberto se revele 
Com a palavra do imortal segredo!

Surgir! surgir! – é a ânsia que os impele 
A quantos vão na estrada do infinito 
Erguendo a pasmosíssima Babel!

Surgir! ser astro e flor! onda e granito! 
Luz e sombra! atração e pensamento! 
Um mesmo nome em tudo está escrito…
…………………………………….

Eis quanto me ensinou a voz do vento.

Antero de Quental, Antologia

Antero de Quental

Antero de Quental – Na mão de deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

 

Antero de Quental, Sonetos