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Sylvia Plath

Sylvia Plath

Sylvia Plath – O caçador de coelhos

Era um lugar de força –
O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos,
Arrancando minha voz, e o mar
Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos
Se desenrolando nele, se espalhando como óleo.

Provei a perversidade da urze,
Seus espinhos negros,
A extrema-unção de suas flores, velas amarelas.
Tinham eficiência, uma beleza imensa,
E eram extravagantes, feito a tortura.

Só havia um lugar para se chegar.
Fervendo, perfumadas,
As trilhas se estreitavam no vale.
E as armadilhas quase se apagavam –
Zeros, fechando-se no nada,

Bem perto, como contrações de parto.
A ausência de gritos
Abriu uma cratera no dia quente, um vazio.
A luz vítrea era uma parede clara,
Moitas quietas.

Senti um movimento calmo, uma intenção.
Senti mãos em volta de uma caneca de chá, torpes, gumes cegos,
Tocando a porcelana branca.
Como esperaram por ele, aquelas pequenas mortes!
Esperaram como namoradas. O excitaram.

E nós, também, tivemos uma relação –
Arames tesos entre nós,
Estacas profundas demais para se arrancar, e a mente como um anel
Deslizando fechado sobre algo fugaz,
A pressão me matando também.

Sylvia Plath, Ariel

Sylvia Plath

Sylvia Plath – Um segredo

Um segredo! Um segredo!
Que superior.
Você é azul e grande, um guarda de trânsito,
Erguendo a palma da mão –

A diferença entre nós?
Eu tenho um olho, você tem dois.
O segredo estampado em sua cara,
Desbotada, ondulante marca-d’água.

Vai aparecer no detector negro?
Virá
Vacilante, indelével, verdadeiro
Através da girafa africana em suas folhagens edênicas,

O hipopótamo marroquino?
Olham de um tufo duro e quadrado.
São tipo exportação,
Um é tolo, o outro também.

Um segredo! Um dedo extra
De amarelo conhaque
Pousando e arrulhando “Tu, tu”
Atrás de olhos que nada mais fazem que refletir macacos.

Uma faca que pode ser usada
Para aparar unhas,
Levantar a sujeira.
“Não vai doer nada.”

Bebê ilegítimo –
Aquela cabeça imensa e azul!
Como respira na gaveta da cômoda.
“É lingerie, querida?”

Sylvia Plath, Ariel

Sylvia Plath

Sylvia Plath – Os mensageiros

Palavra de lesma em prato de folha?
Não é minha. Não a aceite.

Ácido acético em lata selada?
Não o aceite. Não é genuíno.

Anel de ouro e nele o sol?
Mentiras. Mentiras e uma dor.

Geada numa folha, o imaculado
Caldeirão, estalando e falando

Sozinho no topo de cada um
Dos nove Alpes negros,

Um distúrbio nos espelhos,
O mar estilhaçando seu cinza –

Amor, amor, minha estação.

Sylvia Plath, Ariel

Sylvia Plath

Sylvia Plath – Canção da manhã

O amor faz você funcionar como redondo relógio de ouro.
A parteira bateu em seus pés, e seu grito nu
Tomou lugar entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, exaltando sua chegada. Estátua nova
Num museu arejado, sua nudez
Assombra nossa segurança. Ficamos ao redor, brancos como paredes.

Sou sua mãe
Tanto quanto a nuvem que destila um espelho que reflete seu lento
Desaparecimento na mão do vento.

À noite toda seu hálito de mariposa
Flutua entre rosas lisas. Acordo e ouço:
Longe, um mar se move em meu ouvido.

Um grito, e cambaleio para fora da cama, vaca obesa e florida
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A janela

Embranquece e engole suas estrelas torpes. E agora você ensaia
Seu punhado de notas;
As vogais claras sobem como balões.

Sylvia Plath, Ariel

Sylvia Plath

Sylvia Plath – Brasília

Será que eles vão intervir,
Essas pessoas com torsos de aço
Cotovelos alados e buracos por onde espreitar

Multidões que esperam
Nuvens que lhes deem expressão,
Essas super-pessoas! —

E meu bebê um pouco
Acelerado, acelerado.
Ele guincha dentro de sua gordura,

Ossos bisbilhotando as distâncias.
E eu, quase extinta,
Seus três dentes cortando

A si mesmos em meu polegar —
E a estrela,
A velha história.

Na estrada me cruzo com ovelhas e carroças,
Terra vermelha, sangue materno.
Ó, Tu que comes

Pessoas como raios de luz, deixa
Este
Espelho a salvo, sem redenção

Pela aniquilação da pomba,
A glória
O poder, a glória.

 

Sylvia Plath, Desenhos

Sylvia Plath

Sylvia Plath – Papai

Você não serve, você não serve,
Não serve mais, sapato negro
Em que eu vivi como um pé
Por trinta anos, branca e pobre,
Mal me atrevendo a um espirro sequer.

Eu tive de matar você, papai.
Você morreu antes que eu pudesse
– Peso de mármore, saco repleto de Deus,
Estátua medonha com um dedão gris
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça onde o estranho Atlântico
Derrama o verde-vagem sobre o azul
Nas águas da magnífica Nauset.
Eu rezava para recuperá-lo
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polonesa
Aterradas pelo rolo-compressor
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é comum.
Diz meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde você
Fincou seus pés, suas raízes,
Com você nunca pude falar.
A língua presa no maxilar.

Arapuca de arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em todo alemão vi você.
E a linguagem obscena

Uma locomotiva, uma locomotiva
Em vapores me leva como Judia.
Uma Judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Passei a falar como uma Judia.
Acho que bem posso ser Judia.

A neve do Tirol, a cerveja clara de Viena
Não são lá muito puras ou genuínas
Com minha ancestral cigana, minha estranha sina
E meu baralho de tarô, meu baralho de tarô
Eu devo ser um pouco Judia.

Você sempre me meteu medo,
Com sua Luftwaffe, seu papo furado.
E o seu bigode asseado
O olho ariano, bem azulado.
Homem-panzer, homem-panzer, oh Você

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu vara.
Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Coração de um bruto da sua laia.

Você está de pé na lousa, papai,
Na imagem que levo comigo,
Em vez do pé, o queixo fendido,
Mas não menos diabo por isso, oh não
Não menos que o homem que em dois

Partiu meu belo e rubro coração.
Eu tinha dez anos quando o enterraram.
Aos vinte, eu tentei morrer
E voltar, voltar pra você.
Achei que mesmo os ossos serviram.

Mas me puxaram saco afora,
Juntaram meus pedaços com cola.
E aí eu soube o que fazer.
Eu fiz um modelo de você,
Homem de negro, Meinkampf no jeito

À tortura e ao torniquete afeito.
E eu disse aceito, aceito
Então, papai, finalmente acabei.
Arranquei o telefone negro da raiz,
As vozes já não rastejam até aqui.

Se matei um homem, matei dois
– O vampiro que me disse ser você
E sugou meu sangue por um ano afora,
Sete anos, se quiser saber
Papai pode voltar a se deitar agora.

Há uma estaca em seu coração negro
E os homens da vila jamais gostaram de você.
Estão espezinhando, dançando sobre você.
Eles sempre souberam que era você.
Papai, papai, seu canalha, acabei.

 

Retirados do artigo “Sylvia Plath: quatro “poemas-porrada”, de Marina Della Valle