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Jorge de Lima

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Jorge de Lima – A morte do artista

jorge de lima

É morto o Artista, o torturado Artista…
Ei-lo sem vida, como um cristo louro…
Dizem que foi sua maior conquista
Polir o verso do seu estro de ouro!

Paira por tudo a viuvez e o agouro…
Não há talvez quem neste mundo exista
Que ao vê-lo morto para sempre, em choro
Não sinta logo anuviar-se a vista…

Mas o martírio que se renovava!
Quando quiseram transportá-lo, fora
Cobriu-se tudo de um celeste brilho:

Nossa Senhora soluçando estava…
Tanto chorara por Jesus outrora,
Quanto chorava pelo novo filho!

Jorge de Lima, Melhores poemas

Jorge de Lima

Jorge de Lima – Nordeste

jorge de lima

Nordeste, terra de São Sol!
Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor,
que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos
para os comer.
São Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor!
Pajeú! Pajeú!
Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos,
com o sangue de mil meninos, amém!
D. Sebastião ressuscitou!
S. Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor.
Terra de Deus! Terra de minha bisavó
que dançou uma valsa com D. Pedro II.
São Tomé passou por aqui?
Tranca a porta, gente, Cabeleira aí vem!
Sertão! Pedra Bonita!
Tragam uma virgem para D. Lampião!

 

Jorge de Lima, Poemas negros

Jorge de Lima

Jorge de Lima – Ave!

jorge de lima

Ave! jequitibás, sapopembas imensas,
gameleiras, jucás, canafístulas paus-
-brasis – absalões de cabelos suspensos,
iguais àqueles que aos outros
vencem com a força, ensombrando o destino da gente.
A teus pés há tanta planta bonita,
há tanta flor namorada,
há tanta seiva emotiva,
nos caules adolescentes,
na promessa das sementes…
Há tanta sombra bucólica,
há tanta flor namorada,
há tanto pólen cativo
nas flores rubras,
e que vós jequitibás,
sapopembas, gameleiras,
e vós jucás venerandos
do passado brasileiro,
nunca havereis de oferecer ao sol!

 

Jorge de Lima, Melhores poemas

Jorge de Lima

Jorge de Lima – Caminhos da minha terra

jorge de lima

Caminhos inventados por quem não tem pressa
de ir-se embora.
Pelos que vão à escola.
Pelos que vão à vila trabalhar.
Pelos que vão ao eito.
Pelos que deixam a terra como eu deixei um dia…
Pelos que levam quem se despede da vida que é tão bela…

À minha terra ninguém chega: ela é tão pobre…
Dizem que tem bons ares para os tísicos –
mas os tísicos não vão lá: é tão difícil de ir-se lá…

Caminhos de minha terra onde perdi
os olhos e os passos da meditação…
Caminhos em que ceguinhos e aleijados podem
ir sem olhos e sem pernas: eles não atropelam
os pobrezinhos.
Alguém quer partir e eles dizem:
– não vás: toma lá uma goiaba madura,
uma pitanga, uma ingá e dão como
as mãos dos missionários que dão tudo,
cajus, pitombas, araçás a todos os meninos do lugar.
Caminhos que ainda têm orvalhos e sonâmbulos bacuraus,
e têm ninhos suspensos nas ramadas.

Ali perto, na Curva do Encantado
onde mataram de emboscada um cangaceiro,
há uma cruz de pitombeira…
Quem passa joga uma pedra,
reza baixinho: Padre nosso que estais no céu
santificado seja o vosso nome
venha a nós…
Aquela cruz do cangaceiro é milagrosa,
já me curou dum puxado que
eu peguei na escola da professora –
minha tia Bárbara de Olivedo Cunha Lima –

Mundaú! – soube depois
que quer dizer rio torto.
Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras
seminuas,
dos meus pescadores de traíras? –
Mundaú! – rio torto – caminho de curvas,
por onde eu vim para a cidade
onde ninguém sabe o que é caminho.

 

Jorge de Lima, Melhores Poemas