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Paulo Leminski

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Paulo Leminski – Desmontando o frevo

paulo leminski

desmontando
o brinquedo
eu descobri
que o frevo
tem muito a ver
com certo
jeito mestiço de ser
um jeito misto
de querer
isto e aquilo
sem nunca estar tranquilo
com aquilo
nem com isto
de ser meio
e meio ser
sem deixar
de ser inteiro
e nem por isso
desistir
de ser completo
mistério
eu quero
ser o janeiro
a chegar
em fevereiro
fazendo o frevo
que eu quero
chegar na frente
em primeiro

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Segundo consta

paulo leminski

O mundo acabando,
podem ficar tranquilos.
Acaba voltando
tudo aquilo.
Reconstruam tudo
segundo a planta dos meus versos.
Vento, eu disse como.
Nuvem, eu disse quando.
Sol, casa, rua,
reinos, ruínas, anos,
disse como éramos.
Amor, eu disse como.
E como era mesmo?
peguei as cinco estrelas
do céu uma a uma
elas estrelas não vieram
mas na minha mão
todas elas
ainda me perfuma

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Ler pelo não

paulo leminski

Ler pelo não, quem dera!
Em cada ausência, sentir o cheiro forte
do corpo que se foi,
a coisa que se espera.
Ler pelo não, além da letra,
ver, em cada rima vera, a prima pedra,
onde a forma perdida
procura seus etcéteras.
Desler, tresler, contraler,
enlear-se nos ritmos da matéria,
no fora, ver o dentro e, no dentro, o fora,
navegar em direção às Índias
e descobrir a América.

Paulo Leminski, Distraídos venceremos

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Invernáculo

paulo leminski

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Desencontrários

paulo leminski

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Ai daqueles…

paulo leminski
ai daqueles 
que se amaram sem nenhuma briga 
aqueles que deixaram 
que a mágoa nova 
virasse a chaga antiga 
 
ai daqueles que se amaram 
sem saber que amar é pão feito em casa 
e que a pedra só não voa 
porque não quer 
não porque não tem asa
 
 

Paulo Leminski, Distraído venceremos

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Sintonia para pressa e presságio

paulo leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

 

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – O atraso pontual

paulo leminski

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser no tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bênçãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Ais ou menos

paulo leminski

Senhor,
peço poderes sobre o sono,
esse sol em que me ponho
a sofrer meus ais ou menos,
sombra, quem sabe, dentro de um sonho.
Quero forças para o salto
do abismo onde me encontro
ao hiato onde me falto.
Por dentro de mim, a pedra,
e, aos pés da pedra,
essa sombra, pedra que se esfalfa.
Pedra, letra, estrela à solta,
sim, quero viver sem fé,
levar a vida que falta
sem nunca saber quem é.

 

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Paulo Leminski

Paulo Leminski – O par que me parece

paulo leminski

Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
aquela língua sem fim
feita de ais e de aquis.
Era uma língua bonita,
música, mais que palavra,
alguma coisa de hitita,
praia do mar de Java.
Um idioma perfeito,
quase não tinha objeto.
Pronomes do caso reto,
nunca acabavam sujeitos.
Tudo era seu múltiplo,
verbo, triplo, prolixo.
Gritos eram os únicos,
o resto, ia pro lixo.
Dois leos em cada pardo,
dois saltos em cada pulo,
eu que só via a metade,
silêncio, está tudo duplo.

 

Paulo Leminski, Distraídos venceremos

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Não se esqueça de parecer comigo

paulo leminski

isso não estava aqui ontem
ontem era um dia pobre, metade,
mendigando ouro
à mísera eternidade
hoje é um dia rico
um mundo cheio de luz e lágrima
força flor milagre e risco
o dia de hoje se olha no espelho
e só parece ontem
a mesma brisa a bruma idêntica
e essa neblina intensa
que nos obriga a fechar os olhos
e ler nas entrelinhas
os abismos de nós mesmos
hoje, sim, é maravilha,
hoje, finalmente, eu não sei

 

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Suprassumos da quintessência

paulo leminski

O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrassentido
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu inframistério.
Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço?
você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo
nem fale em amor
que amor é isto

 

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – Amar você é coisa de minutos…

paulo leminski

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

 

Paulo Leminski, Toda poesia

Paulo Leminski

Paulo Leminski – A lua no cinema

paulo leminski

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!

 

Paulo Leminski, Distraídos venceremos