Navegando pela Categoria

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – A um velho poeta

Caminhas pelo campo de Castela
e quase não o vês. Um intrincado
versículo de João é teu cuidado
e mal percebes a luz amarela

do pôr do sol. A vaga luz delira
e nos confins do Leste se dilata
essa lua de escárnio e de escarlata
que talvez seja o espelho da Ira.

O olhar elevas e a contemplas. Uma
memória de algo que foi teu começa
e se dissipa. A pálida cabeça

curvas e segues caminhando triste,
sem recordar o verso que escreveste:
seu epitáfio a sangrenta lua.

Jorge Luis Borges, Antologia pessoal

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – New England, 1967

Transformaram-se as formas de meu sonho;
são hoje o casario rubro e inclinado,
são o bronze das folhas, delicado,
e o casto inverno e o piedoso lenho.
Como no dia sétimo, é a terra
propícia. Nos crepúsculos persiste
algo que é quase nada, ousado e triste,
um antigo rumor de Bíblia e guerra.
Não demora a chegar (dizem) a neve
e a América me espera em cada esquina,
mas sinto nessa tarde que declina
o hoje tão lento e o ontem muito breve.
Buenos Aires, eu sigo caminhando
por tuas esquinas, sem por que nem quando.

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Um livro

Apenas uma coisa entre as coisas
Mas também uma arma. Foi forjada
Na Inglaterra, em 1604,
E carregada com um sonho. Encerra
Som e fúria e noite e escarlate.
Minha palma a sopesa. Quem diria
Que contém o inferno: as barbadas
Bruxas que são as parcas, os punhais
Que executam as leis da sombra,
E o ar delicado do castelo
Que vai ver-te morrer, a delicada
Mão capaz de ensangüentar os oceanos,
A espada e o clamor de uma batalha.

Esse tumulto silencioso dorme
No espaço de um daqueles livros
Da sossegada estante. Dorme e espera.

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Ao espelho

Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro…

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Poema da quantidade

Penso nesse parco céu puritano
De solitárias e perdidas luzes
Que Emerson olharia tantas noites
Em meio à neve e ao rigor de Concord.
Aqui são excessivas as estrelas.
O homem é excessivo. As gerações
Inúmeras de aves e de insetos,
Do jaguar constelado e da serpente,
De galhos que se tecem e entretecem,
Do café, da areia e das folhas
Oprimem as manhãs e nos prodigam
Seu minucioso labirinto inútil.
Talvez cada formiga que pisamos
Seja única ante Deus, que a define
Para a execução das regulares
Leis que regem Seu curioso mundo.
Não fosse assim, o universo inteiro
Seria um erro e um oneroso caos.
Os espelhos do ébano e da água,
O espelho inventivo de um sonho,
Os liquens e os peixes, as madréporas,
Tartarugas alinhadas no tempo,
Os vaga-lumes de uma única tarde,
As araucárias e suas dinastias,
As perfiladas letras de um volume
Que a noite não apaga são sem dúvida
Não menos pessoais e enigmáticas
Que eu, que as confundo. Não me atrevo
A julgar nem a lepra nem Calígula.

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – A rosa

a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da mais ténue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa de Ariosto ou a dos Persas,
a que está sempre só,
aquela que é sempre a rosa das rosas,
a jovem flor platônica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inatingível.

Jorge Luis Borges,Obra Poética Vol. 1

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – A praça San Martín

À procura da tarde
fui perscrutando inutilmente as ruas.
Os saguões já estavam entrevados de sombra.
Com fino polimento de mogno
a tarde inteira remansara-se na praça,
serena e sazonada,
benfazeja e sutil como uma lâmpada,
clara como uma fronte,
grave como o gesto de um homem enlutado.
Todo sentir se aquieta
sob a absolvição das árvores
— jacarandás, acácias —
cujas curvas piedosas
amenizam a rigidez da impossível estátua
e em cuja rede se enaltece
a glória das luzes equidistantes
do leve azul, da terra avermelhada.
Que bela vê-se a tarde
do singelo sossego de seus bancos!
Lá embaixo
o porto almeja latitudes distantes
e a profunda praça igualadora de almas
abre-se como a morte, como o sonho.

 

Jorge Luis Borges, Primeira poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Rua desconhecida

De penumbra da pomba
chamaram os hebreus a iniciação da tarde,
quando a sombra não entorpece os passos
e o anoitecer é percebido
como uma música esperada e antiga,
como um grato declive.
Nessa hora em que a luz
tem a finura da areia,
dei com uma rua ignorada,
nobre em sua largura de terraço,
cujas cornijas e paredes mostravam
cores suaves como o próprio céu
que comovia o fundo.
Tudo — a mediania das casas,
as modestas balaustradas e aldravas,
talvez uma esperança de menina nas sacadas —
entrou em meu inútil coração
com limpidez de lágrima.
Talvez essa hora da tarde prateada
concedesse à rua sua ternura,
tornando-a tão real quanto um verso
esquecido e resgatado.
Só depois ponderei
que aquela rua ignorava a tarde,
que toda casa é um candelabro
onde as vidas dos homens ardem
como velas isoladas,
que todo impensado passo nosso
caminha sobre Gólgotas.

 

Jorge Luis Borges, Primeira poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Uma oração

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada.

Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam os olhos seria uma loucura; sei de milhares de pessoas que veem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias.

O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que sem rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre.

Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase nada afeta.

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo.

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore.

Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

 

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Despedida

Entre meu amor e mim hão de se levantar
trezentas noites como trezentos muros
e o mar será magia entre nós.

Não haverá senão recordações.
Oh tardes merecidas pela dor,
noites esperançosas de te olhar,
campos de meu caminho, firmamento
que estou vendo e perdendo…
Definitiva como um mármore
a tua ausência fará tristes outras tardes.

 

Jorge Luis Borges, Primeira Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – A sentinela

Entra a luz e eu me lembro; está ali.
Começa por dizer-me seu nome, que é (logo se entende)
o meu.
Volto à escravidão que durou mais de sete vezes dez anos.
Impõe-me sua memória.
Impõe-me as misérias de cada dia, a condição humana.
Sou seu velho enfermeiro; obriga-me a lavar os seus pés.
Espreita-me nos espelhos, no mogno, nos vidros das lojas.
Uma ou outra mulher o rejeitou e devo compartilhar sua
angústia.
Dita-me agora este poema, que não me agrada.
Exige-me o nebuloso aprendizado do duro anglo-saxão.
Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com os
quais talvez não pudesse trocar uma única palavra.
No último lanço de escada sinto que está a meu lado.
Está em meus passos, em minha voz.
Minuciosamente o odeio.
Percebo com prazer que quase não vê.
Estou em uma cela circular e a infinita parede se estreita.
Nenhum dos dois engana o outro, mas nós dois mentimos.
Conhecemo-nos demais, inseparável irmão.
Bebes a água de meu copo e devoras meu pão.
A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam que
na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me esperando.

Jorge Luis Borges, Poesia

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Nuvens I

Não haverá uma só coisa que não dê ideia
de uma nuvem. O são as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o templo renderá. O é a Odisseia,
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de teu rosto já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que está perdido.

Jorge Luis Borges, Os Conjurados 

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Do inferno e do céu

O Inferno de Deus não necessita
o resplendor do fogo. Quando o Juízo
Universal retumbar nas trombetas,
a terra tornar públicas as vísceras,
do pó ressuscitarem as nações
para acatar a Boca inapelável,
os olhos não verão os nove círculos
da montanha invertida; nem os pálidos
prados e seus asfódelos perenes
onde a sombra do arqueiro então persegue,
eternamente, a sombra ágil da corça;
nem a loba de fogo que no ínfimo
pavimento do inferno muçulmano
é anterior a Adão e aos castigos;
nem violentos metais e nem sequer
mesmo a visível treva de John Milton.
Não pesará odiado labirinto
de triplo ferro e fogo doloroso
sobre as almas atônitas dos réprobos.

Nem o fundo dos anos também guarda
um remoto jardim. Deus não requer,
para alegrar os méritos do justo,
orbes de luz, concêntricas teorias
de tronos, potestades, querubins,
nem o espelho ilusório de uma música
nem as profundidades de uma rosa
nem o fulgor aziago de um somente
de Seus tigres, tampouco o delicado
de um ocaso amarelo no deserto,
nem o sabor natal, antigo da água.
Em Sua misericórdia, nem jardins
nem luz de uma esperança ou de lembrança.

No cristal de um sonho eu vislumbrei
o Céu e o Inferno todo prometidos:
ao retumbar o Juízo nas trombetas
últimas e o planeta milenário
for esquecido e bruscas já cessarem
ó Tempo! tuas efêmeras pirâmides,
teu colorido e linhas do passado
definirão na treva um rosto imóvel,
adormecido, fiel, inalterável
(o da amada talvez, quiçá o teu)
e a contemplação desse incorruptível
rosto contíguo, intacto e incessante
há de ser, para os réprobos, Inferno,
porém para os eleitos, Paraíso.

1942.

Jorge Luis Borges, O outro, o mesmo

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – A noite cíclica

A Sylvina Bullrich

Sabiam-no os árduos alunos de Pitágoras:
As estrelas e os homens voltam ciclicamente;
Os átomos fatais repetirão a urgente
Afrodite de ouro e os tebanos e as ágoras.

Em idades futuras oprimirá o centauro
O coração do lápita ao solípede casco;
Quando Roma for pó, na infinda noite, com asco
Gemerá, no palácio fétido, o minotauro.

Toda a noite em minúcias insone há de volver.
A mão que isto redige renascerá do igual
Ventre. Férreas armadas erguerão o abissal.
(David Hume de Edimburgo o mesmo quis dizer.)

Não sei se voltaremos em um ciclo segundo,
Como voltam as cifras de uma fração periódica;
Sei, porém, que uma obscura rotação pitagórica
Noite após noite deixa-me em um lugar do mundo.

Que pertence aos bairros. Uma esquina esquecida
Que pode ser do norte, do sul, talvez do oeste,
Que apresenta, porém, sempre uma taipa celeste,
A figueira sombria e uma vereda rompida.

Aí está Buenos Aires. O tempo, presenteando
Com ouro ou amor os homens, a mim apenas deixa
Esta rosa apagada ou esta inútil madeixa
De ruas que ecoam nomes mortos, evocando

Em meu sangue: Laprida, Cabrera, Soler, Suárez…
Nomes em que retumbam (já secretas) as dianas,
Repúblicas, cavalos garbosos, as campanas
Das felizes vitórias, as mortes militares.

As praças demarcadas na noite sem senhor
São os profundos pátios de um árido palácio
E suas ruas unânimes que engendram o espaço,
Corredores de sonho e de confuso temor.

Volta a noite côncava que decifra Anaxágoras;
Volta-me à carne humana a eternidade constante
E a lembrança, o projeto? de um poema incessante:
“Sabiam-no os árduos alunos de Pitágoras…”

1940.

Jorge Luis Borges, O outro, o mesmo

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges – Insônia

De ferro,
de encurvadas vigas de enorme ferro tem de ser a noite,
para que não a rebentem e a desenraízem
as muitas coisas que meus abarrotados olhos viram,
as duras coisas que insuportavelmente a povoam.

Meu corpo fatigou os níveis, as temperaturas, as luzes:
em vagões de extensos trilhos,
em um banquete de homens que se detestam,
no fio rompido dos subúrbios,
em uma quinta quente de estátuas úmidas,
na noite repleta onde abundam o cavalo e o homem.

O universo desta noite contém a vastidão
do esquecimento e a precisão da febre.

Quero em vão distrair-me do corpo
e do desvelar de um espelho incessante
que o prodigalize e que o espreite
e da casa que repete seus pátios
e do mundo que segue até um despedaçado subúrbio
de becos onde o vento se cansa e de barro torpe.

Em vão espero
as desintegrações e os símbolos que precedem o sonho.

Segue a história universal:
os rumos minuciosos da morte nas cáries dentárias,
a circulação de meu sangue e dos planetas.

(Odiei a água crapulosa de um charco,
detestei, ao entardecer, o canto do pássaro.)

As fatigadas léguas incessantes do subúrbio do Sul,
léguas de pampa lixeira e obscena, léguas de execração
não querem abandonar a memória.

Lotes pantanosos, ranchos amontoados como cães, charcos de prata fétida:
sou a detestável sentinela dessas colocações imóveis.
Arame, terraplenos, papéis mortos, sobras de Buenos Aires.

Creio esta noite na terrível imortalidade:
nenhum homem morreu no tempo, nem mulher, nenhum morto,
porque esta inevitável realidade de ferro e de barro
tem de atravessar a indiferença de quantos estejam adormecidos ou mortos
— ainda que se ocultem na corrupção e nos séculos –
e condená-los à vigília espantosa.

Toscas nuvens cor de borra de vinho infamarão o céu;
há de amanhecer em minhas pálpebras apertadas.
Adrogué, 1936.

Jorge Luis Borges, O outro, o mesmo