O deus a quem um homem da linhagem de Atreu capturou numa praia que o mormaço lacera, transformou-se em leão, em dragão, em pantera, numa árvore e em água. Porque...
Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges – O labirinto
Nem Zeus desataria essas redes de pedra que me cercam. Olvidado dos homens que antes fui, sigo o odiado caminho de monótonas paredes que é meu destino. Retas galerias encurvando-se...
Fitar o rio feito de tempo e água e recordar que o tempo é outro rio, saber que nos perdemos como o rio E que os rostos passam como a...
A memória dos dias onde está dos que na terra foram teus, tecendo dor e alegria e foram para ti o universo? O rio numerável desses anos já os perdeu;...
Jorge Luis Borges – O sul
De um de teus pátios ter olhado as antigas estrelas, de um banco na sombra ter olhado essas luzes dispersas, que minha ignorância não aprendeu a nomear nem a ordenar...
Jorge Luis Borges – As ruas
As ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas. Não as ávidas ruas, incômodas de gente e de bulício, mas as ruas indolentes do bairro, quase invisíveis de tão usuais,...
Jorge Luis Borges – O passado
Tudo era fácil, nos parece agora, Naquele plástico ontem irrevogável: Sócrates, que, apurada a cicuta, Discorre sobre a alma e seu caminho, Enquanto a morte azul lhe vai subindo Pelos...
Caminhas pelo campo de Castela e quase não o vês. Um intrincado versículo de João é teu cuidado e mal percebes a luz amarela do pôr do sol. A vaga...
Transformaram-se as formas de meu sonho; são hoje o casario rubro e inclinado, são o bronze das folhas, delicado, e o casto inverno e o piedoso lenho. Como no dia...
Jorge Luis Borges – Um livro
Apenas uma coisa entre as coisas Mas também uma arma. Foi forjada Na Inglaterra, em 1604, E carregada com um sonho. Encerra Som e fúria e noite e escarlate. Minha...
Jorge Luis Borges – Ao espelho
Por que persistes, incessante espelho? Por que repetes, misterioso irmão, O menor movimento de minha mão? Por que na sombra o súbito reflexo? És o outro eu sobre o qual...
Penso nesse parco céu puritano De solitárias e perdidas luzes Que Emerson olharia tantas noites Em meio à neve e ao rigor de Concord. Aqui são excessivas as estrelas. O...
Jorge Luis Borges – A rosa
a imarcescível rosa que não canto, a que é peso e fragrância, a do negro jardim na alta noite, a de qualquer jardim e qualquer tarde, a rosa que ressurge...
À procura da tarde fui perscrutando inutilmente as ruas. Os saguões já estavam entrevados de sombra. Com fino polimento de mogno a tarde inteira remansara-se na praça, serena e sazonada,...
De penumbra da pomba chamaram os hebreus a iniciação da tarde, quando a sombra não entorpece os passos e o anoitecer é percebido como uma música esperada e antiga, como...

