Estou tão velha, corte-me as unhas. Estou tão velha, escove-me os dentes. Cubra-me, temo estar despida. Cansada já, aos quinze minutos do segundo mistério. Cochila e deixa cair o terço...
Adélia Prado
Adélia Prado – A invenção de um modo
Entre paciência e fama quero as duas, pra envelhecer vergada de motivos. Imito o andar das velhas de cadeiras duras e se me surpreendem, explico cheia de verdade: tô ensaiando....
Adélia Prado – O sonho
O reconheci na fração do meu nome, me chamou como em vida, a partir da tônica: ‘Délia, vem cá’. Peguei nos pés do catre, onde jazia sã sua cara doente,...
Adélia Prado – Rebrinco
As primas vinham ensaboar as de missa. Enchiam a bacia de espuma, Tialzi cuspia dentro, Ai que nojo. Mesmo assim, tão bonito! As calcinhas de Tialzi amarelavam no fundo, dois,...
Adélia Prado – Canícula
Ao meio-dia, deságua o amor, os sonhos mais frescos e intrigantes; estou onde estão as torrentes. Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas, tomado de bananeiras, só...
Adélia Prado – Antes do Nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira. Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás», o «o», o «porém»...
Eu amava o amor e esperava-o sob árvores, virgem entre lírios. Não prevariquei. Hoje percebo em que fogueira equívoca padeci meus tormentos. A mesma em que padeceram as mulheres duras...
Adélia Prado – Um sonho
Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer, por isso o escrevo tal qual se deu: era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar. O...
Adélia Prado – Fraternidade
Um dia um padre que fazia milagres deu sua bênção pro povo: mulheres de cabacinha de ouro na orelha, homens de camisa cor-de-rosa, menino de todo jeito e de terninho....
Adélia Prado – Ausência da poesia
Aquele que me fez me tirou da abastança, há quarenta dias me oprime no deserto. O político morreu, coitado. Quis ser presidente e não foi. Meu pai queria comer. Minha...
Adélia Prado – Sensorial
Obturação, é da amarela que eu ponho. Pimenta e cravo, mastigo à boca nua e me regalo. Amor, tem que falar meu bem, me dar caixa de música de presente,...
São eternos esta oficina mecânica, estes carros, a luz branca do sol. este momento, especialmente neste, a morte não ameaça, pois não existe. Ainda que se mova, tudo é parado...
Seo Raul tem uma calça azul-pavão e atravessa a rua de manhã pra dar risada com o vizinho. Negro bom. O azul da calça de seo Raul parece foi pintado...
Adélia Prado – Pontuação
Pus um ponto final no poema e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo. Pensamentos estranhos me tomaram: numa bandeja de prata uma comida de areia, um livro com meu...
Adélia Prado – Inconcluso
O dia em sua metade e o calor do corpo ainda não me deixou. Ele estava em minha casa e ia comer conosco. Enquanto a mãe cozinhava, esgueirou-se e disse...

