Adélia Prado

Adélia Prado – Tulha

Ontem de noite a tentação me tentou, no centro da casa escura, no meio da noite escura. A noite dura seu tempo, mas a barra do dia barra, espanca a soberba das trevas. O que trêmulo e choroso vagou nos cômodos quietos encontra os pardais palrando, mulheres com suas trouxas reverberando no sol. Declaro que …

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Adélia Prado

Adélia Prado – Bulha

Às vezes levanto de madrugada, com sede, flocos de sonho pegados na minha roupa, vou olhar os meninos nas suas camas. O que nessas horas mais sei é: morre-se. Incomoda-me não ter inventado este dizer lindíssimo: ‘Ao amiudar dos galos.’ Os meninos ressonam. Com nitidez perfeita, os fragmentos: as mãos do morto cruzadas, a pequena …

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Adélia Prado

Adélia Prado – Ruim

Me apanho composta: as vísceras, o espírito, meu ânima em dispneia. Nem uma seta consigo pintar na estrada. Ô tristeza, eu digo olhando meu livro. Ô bobagem. Ô merda, polivalentemente, eu digo. De que me adiantou pegar na mão do poeta e mandar pra frente da batalha feminista a mulher do meu amado, se o …

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Adélia Prado

Adélia Prado – Limites

Uma noite me dei conta de que possuía uma história, contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim. E de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes, modos de voz e gesto repetindo-se. Até os dons, um certo comum apelo ao religioso e que tudo pesava. E desejei ser outro. Minha mãe não …

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Adélia Prado

Adélia Prado – O alfabeto no parque

Eu sei escrever. Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras, composição escolar narrando o belo passeio à fazenda de vovó que nunca existiu porque ela era pobre como Jó. Mas escrevo também coisas inexplicáveis: quero ser feliz, isto é amarelo. E não consigo, isto é dor. Vai-te de mim, tristeza, sino gago, pessoas dizendo entre soluços: …

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