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Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini – A um filho não nascido

No fundo daquela ponte branca e nova sobre o Tibre
terminada por católicos pra não contrariar os fascistas
entre frisos, coluninhas, falsos fragmentos, falsas ruínas,
um grupo de mulheres esperava os clientes ao sol.
Entre elas estava Franca, chegada de Viterbo,
uma menina ainda, e já mãe, que foi a mais esperta:
correu à porta de meu carro, aos gritos,
tão segura de si que não pude decepcioná-la;
entrou, se acomodou, alegre feito um moleque,
e me levou à Via Cássia; passamos um cruzamento,
corremos por uma estrada abandonada ao sol
entre minas de gesso e barracos tripolitanos
e chegamos ao local dela; era um campinho
sob uma elevação salpicada de musgos e grutas.
Um velho cavalo marrom, ao fundo, na relva úmida,
um automóvel vazio em meio aos arbustos e
não longe, aqui e ali, alegres ecos de disparos:
tudo ao redor lotado de casais, jovens e pobres.
Naqueles dias minha vida e meu trabalho eram plenos,
nenhum desequilíbrio, nenhum medo me ameaçava:
tinha seguido em frente por anos, antes por graça física
–brandura, saúde e entusiasmo que tive de nascença –,
depois por uma luz de pensamento, embora ainda incerto
–amor, força e consciência que conquistei vivendo.
No entanto, primeiro e único filho não nascido, não sinto dor
por você jamais poder estar aqui, neste mundo.

Pier Paolo Pasolini,Poesia

Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini – Ao príncipe

Se torna o sol, se o crepúsculo baixa,
se a noite tem gosto de noites futuras,
se uma tarde de chuva parece voltar
de tempos muito amados e jamais possuídos de todo,
eu não sou mais feliz, nem disso extraio prazer ou pena:
não sinto mais, diante de mim, toda a vida…
Para ser poeta é preciso ter tempo de sobra:
horas e horas de solidão são o único meio
de se formar algo, que é força, abandono,
vício, liberdade, de dar estilo ao caos.
Tempo hoje tenho pouco: por culpa da morte
que vem e avança, no ocaso da juventude.
Mas também por culpa de nosso mundo humano,
que aos pobres tira o pão, aos poetas, a paz.

 

Pier Paolo Pasolini, Poesia

Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini – A melhor juventude

Senhor, estamos sós,    já não nos chamas mais!

Não nos escutas mais    ano a ano, dia a dia!
Pra cá, nossos escuros    pra lá, só Tua luz,
não tens por nossos males    nem ira nem piedade.
Passaram trinta séculos,    nada, nada mudou,
todo o povo se uniu    se uniu para o combate,
mas nossas trevas são    trevas de todos nós
e apartar luz e treva    só Tu mesmo é que sabes!
Dias de lida! Dias mortos!    Já desponta a carroça
no rumo na estação    pela praça quieta
e se detém na frente    da escadaria nova,
chiando no cascalho    que o pobre sol escalda.
Portões estão fechados,    dois caminhões esperam
parados entre escombros,    entre secas acácias,
e uma velhinha empurra    o carrinho apertando
ansiosa uma ponta    do lenço com os dentes.
O rapaz com a gaita    salta fora tocando
e o outro, mais novinho,    chicote na cintura,
dá forragem ao cavalo    e então entra dançando
bem diante dos outros,    vaidosos no balcão.
Cantam um pouco bêbados    bem cedo de manhã
com seus lenços vermelhos    em volta da garganta,
pedindo com voz rouca    quatro litros de vinho
e café para as moças    que já choram caladas.
Venham, trens, e carreguem    esses jovens que cantam
com seus blusões ingleses    e camisetas brancas.
Venham, trens, e carreguem    pra longe a juventude
a buscar pelo mundo    o que aqui se perdeu.
Levem, trens, pelo mundo    a não rir nunca mais
estes jovens alegres    enxotados da aldeia.

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas