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Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

Paulo Henrique Britto – Lorem ipsum

“Venham”, diz ele, “que eu lhes ofereço
sinéreses, cesuras, hemistíquios
e muito mais, e em troca só lhes peço
sofríveis simulacros de sentido.

Venham, que a noite é sólida e solícita,
e aguarda apenas o momento exato
de nos servir a suprema delícia,
como um garçom anódino e hierático.”

Porém apelos tantos, tão melífluos,
atraem tão só máscaras sem rosto,
cascas vazias e rabiscos pífios.

Tudo resulta apenas neste dístico:
Ninguém busca a dor, e sim seu oposto,
e todo consolo é metalinguístico

Paulo Henrique Britto, Formas do nada

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto – Balancete

Antes quis ser normal.
Como todo mundo, quis ser todo mundo.
Até a estupidez alheia me era santa,
por ser raiz dessa felicidade besta
de quem só sabe ser feliz.

Nisso fracassei, como tantos outros.
Fabriquei outros projetos, bebi de um trago só
o esterco do ridículo, e constatei
que o gosto era de mel.

O mel enjoa. Hoje sou quase puro,
quase honesto, competente, estúpido
como toda gente, o espelho exato
do que não quis, ou pude, ou soube ser.
Falhei até no fracasso. Agora o jeito
é me encarar de frente
e me reconhecer.

 

Paulo Henriques Britto, Minima lírica 

Paulo Henriques Britto

Paulo Henrique Britto – Scherzo

Ontem à noite, eu e você,
em plena cumplicidade
em vez de fechar as janelas
como todo mundo faz
deixamos as nossas abertas
só pra ver o que ia dar.

Deu nisso:
varreu as ruas um vento
saído de nossas janelas,
de dentro de nossas gavetas
onde nós há tanto tempo
guardávamos tempestades
pra algum dia especial
(que acabou sendo ontem).
O vento levou pedaços
de céu que atravancavam
nossos sóbrios conjugados;
enormes nuvens incômodas
rolaram janela afora
feito lerdos paquidermes
e se esparramaram a valer.
O ar fresco inesperado
de nossos apartamentos
causou transtornos na rua:
os transeuntes, coitados,
tossiam intoxicados
por excesso de oxigênio;
cambaleavam às tontas
pelas calçadas vazias.

Fui eu o primeiro a jogar
em baldes pela janela
a água clara que jorrava
de fontes desconhecidas
em áreas inexploradas
sob a cama e atrás do armário,
mas foi você quem soltou
do alto do oitavo andar
as primeiras plantas aquáticas,
os peixes, répteis e aves;
eu, porém, instituí
o pelo e o viviparismo
dos mamíferos essenciais.

E como as ruas já estavam
inteiramente povoadas,
e como já os postes da Light
todos tinham evoluído
em árvores colossais,
e como ainda não eram
nem três horas da manhã
e já estava terminado
o grosso da Criação,
descemos até a rua
em busca de um bar aberto.
No primeiro que encontramos
nossos milagres caseiros
eram o assunto geral;
e nós, sedentos e incógnitos,
pedimos duas cervejas
e ficamos contemplando
sem espanto nem orgulho
a grama tenra e miúda
que brotava a nossos pés.

 

Paulo Henrique Britto, Mínima lírica

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto – Persistência do sonho

Entre o momento e o ato
que preenche esse momento
há no entanto um intervalo
— hiato entre o estar e o tempo —
domínio branco e exato
do que jamais vem a ser.
Nesse espaço sem medida
— ou tempo incomensurável —
o que de ser chegou perto
sem chegar a ser de fato
se cristaliza na forma
desconsolada do nunca
porém — por obra do quase —
permanece aquém do nada.

E quando se fixa para sempre
o inevitável das coisas
— história única do real —
a inexistência precisa
e insistente do possível
privada de espaço e tempo
penetra nos poros dos seres
permeia o ato e o momento
— névoa densa e teimosa
que não há sol que dissolva.

Paulo Henriques Britto, Mínima Lírica

Paulo Henriques Britto

Paulo Henrique Britto – Canção

Havendo necessidade,
claro que é sempre possível
desfazer o nunca feito,
desdizer o jamais dito.

Fingir não é nada difícil
quando a própria realidade
é, de todas as hipóteses,
a que é mais indesejada.

Não se vexe de negar
uma simples negativa:
menos com menos dá mais.
Há coisas piores na vida.

Paulo Henrique Britto, Formas do Nada