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Bráulio Bessa

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Verdades e mentiras

A mentira é perigosa,
nos transforma em outro ser.
Diz a lenda que mentir
faz nosso nariz crescer.
Sua força é mais voraz,
pois quem mente sempre faz
a confiança encolher.

A confiança que é
alicerce e suporte.
Toda mentira enfraquece.
A verdade nos faz forte
pra suportar qualquer dor
e pra sarar qualquer corte.

A obra da confiança
é pouco a pouco construída.
Passo a passo, gesto a gesto,
demora pra ser erguida.
Se a base não for bem forte,
num sopro ela é demolida.

Palavras, belos discursos
podem conter falsidade,
mas atitudes e gestos
revelam qualquer verdade.
Dizem que a verdade dói,
já a mentira, destrói,
escurece seu olhar,
lhe deixa fraco, inseguro,
e o caminho mais escuro
é o pior de caminhar.

Por isso, pra iluminar
um amor, um sentimento,
seja sempre verdadeiro,
e não só por um momento.
Seja honesto em sua essência,
pois a própria consciência
é seu pior julgamento.

E sempre será assim:
o correto e o errado,
a verdade e a mentira
caminhando lado a lado.
Há quem grite uma verdade,
há quem minta até calado.

Por isso é tão difícil
ter alguém pra confiar.
A verdade e a mentira
teimam sempre em se encontrar
sem hora ou dia marcado,
sem avisar o lugar.

E mesmo assim…

Vale a pena acreditar
até no que não se vê.
Vale a pena confiar
num verso meio clichê:
É confiando em alguém
que alguém confia em você.

É preciso ser honesto
pra cobrar honestidade.
É preciso ser sincero
pra cobrar sinceridade.
E só quem é verdadeiro
pode cobrar a verdade.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O moinho

Vejo o tempo seguindo a correnteza
como um rio que segue seu caminho.
Obedece a lei da natureza
que transforma relógio em moinho.

Mói poder, mói orgulho, mói riqueza,
mói tecido de trapo ou de linho.
Mói a miss lhe roubando a beleza,
mói castelo, mói casebre, mói um ninho.

Mói o riso estampado em nossa face,
mói as pétalas de toda flor que nasce.
Para ser moído basta estar vivendo.

O moinho pouco a pouco nos matando
e o poeta atrevido revidando,
dando vida a um soneto e renascendo.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Coisa de mãe

Vez por outra ela duvida
até do nosso amor,
fazendo drama e falando
como quem sente uma dor:
– “Um dia, quando eu morrer,
é que tu vai aprender
e talvez me dar valor.”

Por mais que exista amor,
por mais que exista afeto,
um fato que deixa a gente
preocupado e inquieto
é quando a mãe pronuncia
sem nenhuma alegria
o nosso nome completo!

Quando a gente quer sair,
bate um receio profundo.
Pede à mãe cheio de medo
e nesse exato segundo
diz que “todo mundo vai”
e a resposta dela sai:
– “Você não é todo mundo!”

Tem outra situação
difícil e muito adversa.
Às vezes no mei da rua
a mãe também é perversa
quando ela aponta o dedinho
e diz assim bem baixinho:
– “Em casa a gente conversa.”

Por mais que a gente estude,
que tenha dedicação,
o boletim todo azul
ela olha com atenção
e fala sem gaguejar:
– “Tem mesmo é que estudar.
Não fez mais que a obrigação!”

Se acaso a gente perder
coisa boba ou coisa rara,
ela ativa um radar
potente que nunca para
e diz: – “Se eu for procurar,
garanto que vou achar
e esfregar na sua cara.”

Quando a gente chega perto,
faz um carinho qualquer,
e diz: – “Mãe, vou te amar
enquanto vida tiver!”
Ela responde ligeiro:
– “Hoje eu não tenho dinheiro.
Diga logo o que tu quer!”

Coisa de mãe é dizer:
– Você vai se machucar.
– Cadê o troco, menino?
– Mais tarde vai esfriar.
– Só vou contar até três!
– Bagunçou, vai arrumar.

– Já pegou o guarda-chuva?
– Eu não sou sua empregada.
– Engole esse choro agora!
– Eu nunca estou enganada.
– Na volta a gente compra.
– Você não ajuda em nada!

Coisa de mãe é ser cura
pra aliviar qualquer dor.
Coisa de mãe é o abraço
mais forte e mais protetor.
Coisa de mãe é cuidar,
coisa de mãe é amor.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O que aprendi chorando

Quando a lágrima escorre
pelas curvas do meu rosto,
na boca sinto seu gosto
enquanto ela me socorre.
Pois de chorar ninguém morre,
ninguém quebra, só inclina.
Todo choro é uma vacina
que pode estar nos salvando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Quando chorei de saudade
foi que pude observar
que ela só vem maltratar
quem foi feliz de verdade.
Tem gente que tem vontade
de fazer uma faxina
na mente que traz a sina
que é viver recordando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Quando me senti sozinho,
sem ter com quem caminhar,
decidi não esperar
e seguir o meu caminho
livre feito um passarinho,
feito um galo de campina,
que canta e não desafina
no mei do mundo voando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Já caí e me quebrei
entre cacos e bagaços,
juntei meus próprios pedaços
e com lágrimas colei.
Me refiz, me levantei
mais forte do que platina,
feito fogo em gasolina
que acende e vai se espalhando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Já me vi cego e perdido,
vagando na escuridão,
em busca de um clarão
que pudesse ser seguido.
Com medo e enfraquecido,
minha fé foi heroína,
pois uma força divina
surgiu me alumiando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Chorei de arrependimento
Já chorei por ter errado
Chorei por ter acertado
Já chorei em casamento
Chorei em meu nascimento
Chorei alto e na surdina
Chorei virando uma esquina
Já chorei até cantando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Perdoei, fui perdoado
Já feri e fui ferido
Esqueci, fui esquecido
Já amei e fui amado
Enganei, fui enganado
Quem chora abre a cortina
A esperança germina
e nasce nos transformando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Ah, se eu pudesse voltar!

Cair e rolar no chão
sem medo de se sujar,
correr no meio da rua,
não ter conta pra pagar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Comer goiaba no pé,
soltar pipa, pedalar,
jogar bola no campinho,
ir pra escola estudar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ir pra casa da vovó
pra comer e engordar.
Ser sincero e verdadeiro
falando o que quer falar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ser o futuro do mundo
e nem se preocupar,
brigar com um amiguinho
e ligeiro perdoar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ter amor em seu sorriso
e bondade em seu olhar,
sonhar e ter a certeza
de que vai realizar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Querer que o relógio corra
fazendo o tempo passar
pra ser grande, ser adulto
e, quando a hora chegar,
dizer repetidamente:
Ah, se eu pudesse voltar!

Bráulio Bessa, Um Carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A arte do tempo

O tempo…

Sempre vivo e indeciso,
ora corre, ora voa,
consegue curar feridas,
no mesmo instante as magoa.
Ninguém escapa do tempo
invisível feito o vento
que toca qualquer pessoa.

O tempo me modelou,
me arrancou do meu ninho,
clareou os meus cabelos,
me bateu, me fez carinho.
O tempo me fez voar,
me ensinou a caminhar,
mas não mostrou o caminho.

Por tanto tempo o tempo
fez papel de diretor,
um roteirista confuso,
ora ódio, ora amor,
gritando silencioso,
tão claro e misterioso
feito o mar pro pescador.

O tempo me fez poeta,
artista, palco e cenário,
me fez imaginação,
aí, encontrou um páreo,
pois, para o tempo, o artista
sempre foi um adversário.

Só o artista segura
e faz parar o ponteiro
que faz o dia ser noite
e último ser primeiro,
e que tem a ousadia
de determinar o dia
que será o derradeiro.

A liberdade da arte
deixa o tempo aprisionado,
faz o relógio da vida
adiantado, atrasado,
e num segundo de paz
toda guerra se desfaz
se o relógio for parado.

Já que o tempo é infinito
e o artista o domina,
ser eterno e ser mortal
talvez seja minha sina,
atuar num espetáculo
que nunca fecha a cortina.

A única previsão
que é certa sobre o tempo
é que ele vai passar.
Por isso cada momento
deve ser aproveitado,
vivido e depois guardado
na caixa do pensamento.

O tempo está sempre vivo
num grande desassossego,
inquieto, inconstante,
é pancada e é chamego,
é solução e problema.
O tempo é só um poema
dizendo: já fui, já chego.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Sobre felicidade

Que mania estranha a nossa
de cobiçar o alheio.
O mundo de alguém ser belo
não faz seu mundo ser feio.
Tem gente que passa fome
com o próprio prato cheio.

Me diga um só fí de Deus
que tem a vida perfeita,
da manhã que se levanta
inté a noite que deita.
Se existe vida assim,
quem escondeu a receita?

Cada um tem o sorriso
e a dor que lhe convém.
Tudo que vai abre espaço
pra tudo aquilo que vem.
Feliz na vida é quem é
feliz com a vida que tem.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Sucesso

O sucesso é um lugar
sem mapa, sem endereço,
sem peso, tamanho e preço,
sem molde pra fabricar.
Cada um vai procurar
em busca do seu progresso.
Eu busco mas não me apresso,
sabendo de uma verdade:
Quem não tem felicidade
não sabe o que é sucesso.

Sucesso é ter consciência
que sucesso é caminhada
e que, no fim, a chegada
é só uma consequência.
O sucesso é paciência,
pois toda vez que tropeço
me levanto e recomeço
com o dobro da vontade.
Quem não tem felicidade
não sabe o que é sucesso.

Sucesso é viver a vida
que é sua e não se empresta,
seja grã-fina ou modesta,
prazerosa ou dolorida,
seja curta ou comprida,
ninguém troca esse ingresso.
Quem nasceu e teve acesso
também tem capacidade.
Quem não tem felicidade
não sabe o que é sucesso.

Sucesso é passar pra frente
sem passar perna em ninguém.
É subir, chegar ao topo
sem pisar em outro alguém.

Sucesso não é hotel
pra pagar e se hospedar.
Sucesso é casa de amigo
que lhe hospeda sem cobrar.

Sucesso não é troféu
pra enfeitar sua estante.
Sucesso é saber perder
e seguir sempre adiante.

Sucesso não é diploma
que o tempo pode estragar.
Sucesso é conhecimento,
é ter algo pra ensinar.

Sucesso não é o carro
parado lá na garagem.
Sucesso é pegar a estrada
e aproveitar a viagem.

Sucesso não é dinheiro,
é ter tempo pra gastar.
Nem contar nota de cem
sem ter alguém pra contar.

Sucesso não é a fama,
sucesso vai muito além.
É ser fã de você mesmo
por ter feito sempre o bem.

Sucesso não tem a ver
com o que se tem agora.
Sucesso é o que não se acaba
quando a gente vai embora.

Minhas palavras são simples,
é assim que me expresso,
e sei que a simplicidade
fez parte desse processo
pra escrever a verdade:
Quem não tem felicidade
não sabe o que é sucesso.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Abrace sua tristeza

Quando a dor bater na porta
pode deixar ela entrar.
Converse, faça perguntas,
deixe ela perguntar.
Afinal para vencer
é preciso conhecer
o que se vai enfrentar.

Abrace seu sofrimento,
conheça sua tristeza.
A dúvida nunca cura,
o que cura é a certeza.
O sal que tempera o choro
se mistura com o soro
transparente da clareza.


Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Sua voz

Quando a vida lhe cobrar
uma grande decisão,
escute um conselho amigo,
aceite uma opinião,
mas antes de decidir
decida também ouvir
a voz do seu coração.

Pois quando o coração fala,
o próprio coração sente.
E essa voz bem baixinha
que sai do peito da gente
às vezes nem é ouvida,
mesmo sendo mais sabida
do que os gritos da mente.

Escute mais sua voz
e menos a voz do mundo.
Afinal você conhece
o que há de mais profundo
no seu verdadeiro eu,
do momento em que nasceu
ao derradeiro segundo.

É nesse breve intervalo
do nascimento à morte
que ouvimos tantas vozes:
a fé, a dúvida, a sorte,
a tristeza, a esperança.
Mas, se botar na balança,
sua voz é a mais forte.

Escute sua risada
sem medo de incomodar.
Procure no peito tudo
que já lhe fez gargalhar.
Você vai poder se ouvir
e perceber que sorrir
é um jeito de falar.

Escute sua tristeza,
escute sua amargura.
Escutar as próprias dores
nunca foi autotortura.
Na medicina da vida
conhecer cada ferida
é o começo da cura.

Converse consigo mesmo,
comece a se questionar:
pra onde você quer ir,
até onde quer chegar.
Pergunte por que seguir.
Quando a resposta surgir,
se aprende a não parar.

Não parar de se ouvir,
não parar de se amar,
não parar de se sentir,
não parar de duvidar
daquilo que o mundo diz
pra lhe fazer infeliz
na busca de lhe parar.

Não parar de escutar
o que sua alma grita,
não parar de acreditar
que a vida é mais bonita
pra quem se escuta e vive
acreditando inclusive
no que ninguém acredita.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Sempre haverá um alguém

Se por acaso você
não conseguir caminhar,
se seus pés enfraquecerem,
se a estrada se alongar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe carregar.

Se por acaso você
sentir a alma sangrar,
e se a alma ferida
fizer seu corpo chorar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe consolar.

Se por acaso você
sentir o mundo escapar,
se tudo for só silêncio,
se a solidão maltratar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe abraçar.

Se por acaso você
não conseguir se enxergar,
perdido dentro de si,
vendo tudo se apagar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe encontrar.

Se por acaso você
sentir a vida açoitar,
e na hora da agonia
você se desesperar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe acalmar.

Se por acaso você
vir tudo se apressar,
se todo mundo correr,
se o tempo acelerar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe esperar.

Se por acaso você
deixar de acreditar,
se a própria humanidade
decidir lhe enganar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe inspirar.

Se por acaso você
sentir medo de amar,
se achar que não é mais
possível se apaixonar,
Sempre haverá um alguém
capaz de lhe conquistar.

Sempre haverá amor,
sempre haverá o bem,
numa via de mão dupla
com a força de um trem.
Alguém ajuda você
e você ajuda alguém.

Já que sempre haverá
alguém pra lhe entender,
lhe carregar, acalmar,
abraçar quando doer,
alguém pra lhe confortar
quando o mundo lhe bater.

Já que sempre haverá
alguém pra lhe socorrer,
só é preciso ser justo
e grato pra perceber
que sempre haverá alguém
precisando de você.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Ensinar pra aprender

A cada filho que nasce,
nasce uma nova lição.
Os pais aprendem que amor
não combina com razão.
Não tem regra a ser seguida,
não tem peso nem medida.
Tá na essência do ser,
de apenas ser amor.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

Tão pequeno eu ensinei
o dom de se agigantar.
Vi mãe dobrar de tamanho,
vi pai se multiplicar.
Multiplicar coração,
multiplicar nosso pão.
E aprendi pra também ser
um bom multiplicador.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

Foi quando fiquei doente
que ensinei a medicina
que nenhuma faculdade
desse mundo nos ensina.
Meus pais munidos do dom
de fazer eu ficar bom
e poder compreender
a cura através do amor.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

Foi quando triste chorei
por não ganhar um presente
que ensinei a meus pais
a me ensinar diferente.
Aprendi nesse estudo
que não podia ter tudo,
e que pra poder colher
tem que ser um plantador.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

E quando sonhei tão alto
que não podia alcançar,
vi meus pais criando asas
pra me ensinar a voar.
Aprenderam a abrir mão
da segurança do chão,
ajudando a acender
a chama de um sonhador.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

Ensinei e aprendi
quando segui meu caminho
que mesmo distante e só
eu nunca estive sozinho.
Mesmo sem a tal presença,
de longe eu pedia a bença
pra mode me proteger
de todo perigo e dor.
Todo filho é um professor
que ensina pra aprender.

Seja pai, mãe, seja filho,
não é difícil entender:
o que importa é a troca
de sentimento e saber,
e na escola do amor
qualquer um pode aprender.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Solidariedade no frio

Costurei um agasalho,
com tecido de amor,
a linha da caridade
foi o frio condutor.
Agulhas de compaixão,
estampas de gratidão.
Fiz um bolso aqui no peito
e enchi ele de bondade,
pra vestir a humanidade
que no fundo ainda tem jeito.

Tem jeito pra se ajeitar,
basta ser mais solidário.
Pra fazer um mundo novo,
transformando esse cenário
olhe além da sua porta,
pra vê se você suporta
assistir indiferente
quem dorme no meio da rua,
cobertos só pela lua
sem ter um teto decente.

Tem jeito pra se ajeitar,
sendo menos egoísta.
Enxergando quem precisa
sem um olhar elitista,
sem se achar superior
a um irmão sofredor
sem casa, sem endereço,
que mesmo sem ser culpado,
a vida pega pesado
e lhe cobra um alto preço.

Tem jeito pra se ajeitar,
basta tu compreender
que quando se ajuda alguém
o ajudado é você.
É você quem ganha paz,
é você quem ganha mais,
mais amor, mais gratidão.
Doando um cobertor,
derretendo o frio da dor
e aquecendo um coração.

Bráulio Bessa, Poesia com rapadura

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Mãos

Um poeta agarra um lápis
e escreve uma poesia,
um palhaço pinta o rosto
pra espalhar alegria,
o pintor pinta uma tela
de uma paisagem tão bela,
e a Ana faz um fuxico
usando o poder das mãos
e o amor do coração
faz-se até luxo no lixo.

um tronco velho de pau
se transforma em escultura.
A arte brota na vida,
a vida brota cultura,
a cultura brota o novo
esculpindo o próprio povo
que se enxerga em toda parte.
Cada calo em sua mão,
fortalece o artesão,
mantém viva sua arte.

A mão que faz um carinho,
que aperta firme e forte,
a mão que abençoa um filho,
a mão que nos dá suporte,
a mão que diz “venha cá”,
a mão que diz “volto já”,
a mão que faz oração.
Hoje eu falei pra você,
da magia e do poder
de tudo o que é feito à mão.

Bráulio Bessa, Poesia com rapadura

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A palmada da mãe não dói metade das palmadas que a vida dá na gente

Os mais sábios conselhos ela me deu
Sem tirar nem botar acertou tudo
É doutora da vida sem estudo,
Foi vivendo que ensinou e que aprendeu,
Com as pancadas dessa vida mãe sofreu
E mostrou até de forma inconsciente,
Que seus filhos precisavam ser descentes
E viver sempre com honestidade.
A palmada da mãe não dói metade
Das palmadas que a vida dá na gente.

Se a carne era pouca e o caldo ralo,
O pirão do amor tinha sustança
E as panelas todas cheias de esperança,
Nossa fé nunca sofreu nenhum abalo.
Mãe dizia filho escuta o que eu te falo,
Nessa vida seja sempre paciente
Cada um tem destino diferente;
Lute, cresça e nunca perca a humildade.
A palmada da mãe não dói metade
Das palmadas que a vida dá na gente.

Se um presente mais bonito eu lhe pedia,
Mãe dizia que não podia comprar.
Me zangava e começava a chorar,
Sem saber que muito mais nela doía.
Sem dinheiro pra fazer minha alegria,
Arranjava uma maneira diferente
E dizia que um dia mais na frente
Meu trabalho mataria essa vontade.
A palmada da mãe não dói metade
das palmadas que a vida dá na gente.

Até hoje quando eu dou um cheiro nela
Agradeça a Deus por ter minha mainha;
Mas para quem já perdeu sua rainha
Não se sinta só nem distante dela.
Entre a terra e o céu há uma janela
Com um vaso onde Deus planta a semente
Do amor que a mãe da gente sente
E é essa rosa que lhe protege da maldade.
A palmada da mãe não dói metade
das palmadas que a vida dá na gente.

Bráulio Bessa, Poesia com rapadura