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Bráulio Bessa

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Um sorriso no rosto contagia

bráulio Bessa

Um sorriso no rosto contagia,
E enfeita muito mais que maquiagem
que depois de usar vem a lavagem
e a beleza se escorre pela pia.
Diferente da verdadeira alegria
que é obra de Deus, esse pintor
que enfeita nossa alma de amor,
muitas vezes paro, penso e analiso:
se o tempero pra vida ter mais sabor.

Charlie Chaplin, nosso gênio adorado
disse algo para o mundo refletir:
que um dia vivido sem sorrir
é de fato um dia desperdiçado.
Não precisa ficar mal-humorado,
Enfrentando um desafio ou uma dor,
o sorriso é sempre superior.
Como Chaplin, também deixo o meu aviso:
Se o tempero da vida é o sorriso,
Vou sorrindo pra vida ter mais sabor.

Sorrir tem um gosto bom,
sorrir é bom e faz bem.
Adoça e tempera a vida,
e a receita a gente tem:
é simples de começar,
basta você temperar
a sua vida também.

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A lição que a morte deu

bráulio Bessa

Na fazenda Ave Maria
no ano de oitenta e três,
deu-se um fato muito triste
que hoje conto a vocês.
Duas mortes repentinas.
Fecharam-se as cortinas
da vida de dois viventes:
Zé Vaqueiro, o peão,
Doutor Cesar, o patrão,
dois seres tão diferentes.

Diferentes na carcaça
e também no interior.
O patrão cheio de ódio,
o peão cheio de amor.
Cada qual com seus valores,
seus sorrisos, suas dores
e suas convicções.
Enquanto isso no céu,
Deus anota num papel
seus gestos, suas ações.

O patrão, muito egoísta,
jamais repartia o pão.
Nasceu em berço de ouro,
nunca passou precisão,
não acudia indigente,
nem ajudava um doente
prostrado num hospital.
Cheio de hipocrisia
pedia à Virgem Maria:
– “Livrai-me de todo mal.”

Porém, missas e novenas
Doutor Cesar não perdia.
Batizou sua fazenda
em homenagem a Maria
por quem tinha devoção
e toda convicção
de que a santa preparava
o lugar dele no céu
sem taxa, sem aluguel,
na rua que ela morava.

Já Zé Vaqueiro era bom,
tinha uns quatro corações.
Deixava isso bem claro
na pureza das ações.
Ocupado na peleja,
nem ia tanto à igreja
mas só praticava o bem.
Era justo e generoso,
muitas vezes caridoso,
mesmo sem ter um vintém.

Tirava do próprio prato
mode dar a quem tem fome.
Ajudava a qualquer um
sem perguntar nem o nome.
Era muito judiado,
quase sempre injustiçado,
porém nunca reclamava.
Dizia que o sofrimento
era um teste, um treinamento
que Deus sempre lhe mandava.

Num dia comum da vida,
no Açude Juremal,
Doutor Cesar se banhava
e de repente passou mal.
– “Tô morrendo afogado!”,
gritou ele, agoniado,
na hora da precisão.
Zé correu pra lhe salvar
mesmo sem saber nadar.
Morreram Zé e o patrão.

E a morte sem critérios
deu seu golpe derradeiro,
roubou a vida de Zé
e a do cruel fazendeiro.
Ninguém foge do destino,
seja simples, seja fino,
seja o limpo ou o imundo,
esse encontro é garantido
e por mais bem escondido
ela encontra todo mundo.

No outro dia ocorreu
o cortejo do patrão.
Mais de dez quilos de flor
perfumando o caixão
de madeiras trabalhadas
com quatro alças douradas
pro defunto ostentar.
Ao redor, vinte babões
que trocavam empurrões
brigando pra carregar.

Mais de cem motos na frente,
cinquenta carros atrás…
gente a pé, gente a cavalo,
coroa, faixa e cartaz
prestigiando o doutor
que nunca espalhou amor,
mas juntou um mar de gente.
Se fosse um pobre lascado,
posso até tá enganado,
seria bem diferente.

No mesmo dia avistei
o fim de uma vida dura,
num caixão de compensado
doado na Prefeitura.
Pouca gente acompanhando,
dez vaqueiros aboiando
e a mãe rezando um terço.
O derradeiro momento
da vida de sofrimento
de Zé, que nasceu sem berço.

Num mundo tão desigual
inté na hora da morte
o bolso deixa bem claro
qual dos dois teve mais sorte.
A verdade é nua e crua:
o vil metal continua
mandando e desmandando.
Essa conta eu fiz ligeiro:
o que tinha mais dinheiro
deixou mais gente chorando.

Depois da viagem feita
pro mundo espiritual,
o lugar que deixa claro
quem é do bem ou do mal,
fica tudo evidente,
a justiça é transparente
e nunca é manipulada.
É a hora da verdade
em que toda a humanidade
um dia será testada.

Doutor Cesar acordou mal,
pingando suor na testa.
Já foi logo reclamando:
– “Eita calor da moléstia!
Devo estar no quarto errado,
não tem ar-condicionado,
nem TV, nem frigobar.
Cadê a Virgem Maria
pra mudar minha estadia
e me reposicionar?”

Nisso entrou um galegão,
jeitoso, de olho azul.
E disse: – “Prazer, doutor!
Eu me chamo Belzebu.
Eu que fiz o seu check-in,
pode reclamar de mim,
se tiver mais algum susto.
Aproveite a estadia
regada de agonia,
afinal, o cão é justo.”

O doutor, inconformado
por ir morar com o cão,
perguntou a Belzebu:
– “E cadê o meu peão?
Infeliz, nem me salvou,
nem pra isso ele prestou,
deve estar ardendo em brasa.
Me responda o que precisa
pra eu ir dar-lhe uma pisa.
Onde fica sua casa?”

O cão disse: – “Cabra burro,
morreu, mas não aprendeu
que Zé tinha um coração
bem diferente do seu.
Lá onde ele foi morar
a gente não pode entrar,
mas lhe mostro do portão
que vai dar pra você ver
e de longe conhecer
a casa do seu peão.”

A rua estava enfeitada
pois à noite tinha show,
e esse era especial
pois foi Deus que organizou.
O palco todo montado,
a luz e o som testado
pra grande apresentação.
O encontro de dois reis
tava marcado pras seis:
Elvis Presley e Gonzagão.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Lá em casa

bráulio Bessa

Lá em casa tinha um pote
com água sempre gelada,
as cadeiras na calçada
e o rádio tocando xote.
Galinha, pato, capote,
vizinho, amigo e parente.
Tinha a vista do nascente
com sua beleza rara.
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Todo ano pai pintava
a fachada duma cor
sem precisar de pintor,
pois eu também ajudava.
Pai de tudo me ensinava,
matuto, mas consciente,
dizia insistentemente:
“A vida é quem lhe prepara.”
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Quadro de Frei Damião,
estátua de Padim Ciço,
um cachorrinho mestiço
que nunca comeu ração.
A chama de um lampião
que brilhava reluzente
de seis da tarde pra frente
deixando a noite mais clara.
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Mãe guardava na despensa
farinha, milho, feijão,
rapadura, macarrão,
a lista era muito extensa.
Cada fí pedia a bença
a seus pais diariamente.
Se hoje eu ficar doente
a bença ainda me sara.
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Lá não tinha celular
pra navegar pela rede.
Tinha rede na parede
pra deitar e balançar,
um quintal pra nós brincar
na chuva e no sol quente,
pois ser criança é urgente
já que o tempo nunca para.
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Meus carrinhos de madeira
espalhados pelo chão,
peteca, bila, pião,
bola, pipa e roladeira.
Hoje a tela virou feira
e o brinquedo é diferente.
Por mais que o tablet tente,
garanto: nem se compara.
A casa não era cara
mas era a cara da gente.

Bráulio Bessa, Um Carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O drama do tamborete

bráulio Bessa

Eu nunca enfeitei castelos
na corte da realeza,
tenho pouco acabamento,
sem detalhe, sem chiqueza,
sou entroncado e baixinho,
meu inventor foi mesquinho
e não caprichou em mim.
Nunca vou me conformar
e sempre vou perguntar:
por que me fizeram assim?

Quatro pernas bem fornidas,
assento de pau, de couro,
de tecido trabalhado,
compensado cor de ouro,
assento bem assentado,
pregado, bem martelado,
mas pra riba nem um braço.
Resta a mim ser paciente,
sou móvel deficiente,
não posso dar um abraço.

Em mim ninguém se escora,
porque senão cai pra trás,
não se espicha, não se deita,
não tira um cochilo em paz.
Se eu fosse uma preguiçosa,
macia, grande e formosa
de tecidinho xadrez.
Ah, se um dia o carpinteiro
me desmanchasse inteiro
e eu nascesse outra vez.

Nascesse cama, poltrona,
nascesse talvez cadeira.
É triste ser tamborete,
o mais barato da feira.
Não sirvo pra balançar,
muito menos pra enfeitar
a sala de uma casa.
Tô sempre aqui na cozinha
escondido, só na minha,
feito um pássaro sem asa.

O povo se trepa em mim
pra ir onde não alcança.
Às vezes sou esquecido
no caminhão da mudança.
Quando é dia de calor
carrego um ventilador
e o vento nem bate “neu”,
refresca o criado-mudo,
fí duma égua sortudo
desde o dia em que nasceu.

Vou aguentando bufa,
peido xoxo, peido azedo,
peido alto, peido baixo.
Digo e não peço segredo
que é triste o meu lamento,
vivendo nesse tormento
será trágico o meu fim.
Peido vai e peido vem,
não demora pra alguém
cagar em cima de mim.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O cachorro, o doutor e o matuto

bráulio Bessa

Outro dia escutei
de um doutor muito astuto
que há milhares de anos
o homem foi bicho bruto,
mas que já evoluiu.
E a dúvida surgiu
em meu quengo de matuto.

Se a ciência tá certa,
se o doutor tem razão,
por que é que meu cachorro
me dá aulas de perdão,
de amor, de amizade,
de ternura, lealdade,
paciência e gratidão?

Seu Doutor, diga pra mim,
já que tu é tão sabido:
se o bicho tem ensinado
e o homem tem aprendido,
me responda aí, apois:
afinal, qual de nós dois
é o mais evoluído?


Bráulio Bessa, Um Carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – As três letras de mãe

bráulio Bessa

Ela tem o poder de carregar
toneladas de amor e de ternura,
uma infinidade de bravura
e uma luz que jamais vai se apagar,
pois seu brilho é capaz de iluminar
o caminho que vamos percorrer.
Se arrisca pra poder nos proteger
Não importa por onde a gente for.
Nas três letras de mãe tem tanto amor
que não há quem consiga descrever.

O que ela consegue ensinar
não há curso ou escola que consiga.
A maior professora e grande amiga
com milhões de conselhos pra lhe dar.
Uma fonte impossível de secar
do mais puro e genuíno saber.
Já vi mãe que nem aprendeu a ler
mas consegue dar aula a um doutor.
Nas três letras de mãe tem tanto amor
que não há quem consiga descrever.

Tem o dom de somar pra expandir
a fartura que alegra o coração.
Mas se acaso for pouco o nosso pão
entra em cena seu dom de repartir.
Uma mestra capaz de dividir
uma gota de água pra beber,
um grãozinho de arroz para comer.
Nessa hora é que o pouco tem sabor.
Nas três letras de mãe tem tanto amor
que não há quem consiga descrever.

Sei que a alma da mãe é uma janela
que não tem cadeado nem ferrolho.
Basta olhar lá no fundo do seu olho
que a gente pula lá pra dentro dela.
Nessa hora tanta coisa se revela,
fica tudo mais fácil de entender
que até antes mesmo de nascer
você já tinha um anjo protetor.
Nas três letras de mãe tem tanto amor
que não há quem consiga descrever.

Ah, se Deus desse à mãe eternidade.
Ah, se houvesse um farelo de esperança.
Mas o hoje já já vira lembrança
e a lembrança já já vira saudade.
O relógio em alta velocidade
deixa claro que não vai retroceder.
Não espere sofrer pra perceber.
Não espere perder pra dar valor.
Nas três letras de mãe tem tanto amor
que não há quem consiga descrever.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Saudade de quem se foi

bráulio Bessa

Balançando na rede da lembrança,
enrolado no lençol da solidão,
segurando seu retrato em minha mão,
minha alma não cochila nem descansa.
Serei grato ao tempo que não cansa
e viaja sem perder velocidade
pra num dia qualquer da eternidade
colocar nossas almas frente a frente.
Não há dor que maltrate mais a gente
que o corte da navalha da saudade.

Ter paciência é um dom.
Ser impaciente também!

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Os cabelos prateados dos meus pais

bráulio Bessa

Pelas vezes em que pude aprender
as lições que nenhuma escola ensina.
Pelas curas sem usar de medicina,
pelo pão que me deram pra comer.
Pelas vezes em que, mesmo sem saber,
fui guiado seguindo seus sinais,
enfrentando meus medos mais brutais
com o escudo do metal da proteção.
Vou pintar com a cor da gratidão
os cabelos prateados dos meus pais.

Pelas aulas de vida que ganhei
de quem mais entendia da matéria.
Por aquela “cara feia”, firme, séria
que eu vi quase sempre que errei.
Pelos sonhos que já realizei,
inclusive os mais loucos, irreais,
impossíveis, talvez irracionais,
aprendi a voar de pés no chão.
Vou pintar com a cor da gratidão
os cabelos prateados dos meus pais.

Pelas vezes em que não me senti só
mesmo estando só eu e minha dor.
Nessas horas eu sentia esse amor
me abraçando e apertando feito nó.
De repente essa dor virava pó
e as feridas que pra mim eram fatais
como um corte feito por vários punhais
um abraço transformava em arranhão.
Vou pintar com a cor da gratidão
os cabelos prateados dos meus pais.

Quando o tempo feroz acelerar
desviando da nossa juventude,
não há nada a fazer para que mude,
não há freio no mundo pra frear.
O ponteiro insiste em não parar,
pro relógio todos nós somos iguais.
Pai e mãe são eternos, mas mortais,
é saudade que se torna oração.
Vou pintar com a cor da gratidão
os cabelos prateados dos meus pais.

Feliz de quem aprendeu
e hoje pode ensinar.
É correr sem esquecer
quem lhe ensinou a andar.
Feliz de quem dá amor
pra quem só fez lhe amar.

Feliz de quem pode ter
companheiros tão leais.
Feliz de quem agradece
com sentimentos iguais.
Feliz do filho que vira,
um dia, pai de seus pais.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O lugar em que nasci e fui criado

bráulio Bessa

Viajei em meu carro de madeira
na estrada que o tempo projetou.
O menino aqui dentro me guiou
e a saudade foi a minha passageira.
De repente avistei uma porteira
com a placa: Bem-vindo a seu passado.
Nessa hora o meu peito acelerado
pisou forte no freio da lembrança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Eu corria descalço nesse chão
que fervia na quentura do sol quente.
Não ficava cansado nem doente,
não tomava comprimido ou injeção.
Brincadeiras de polícia e ladrão
sem ninguém precisar andar armado,
com cipó o bandido era algemado
e um grito da mãe era a fiança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Num cavalo de pau eu galopava
levantando a poeira do terreiro.
Não comprava brinquedos com dinheiro,
porém tinha o que o dinheiro não comprava.
Um centavo sequer ninguém pagava
pra ser livre e correr por todo lado.
O boleto por Deus era quitado,
incluindo liberdade e segurança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

São João tinha milho na fogueira
temperado com a nossa tradição.
Eu garanto, a comida do sertão
é melhor que comida estrangeira.
Vó dizia: – “Menino, vá na feira!”
Eu corria feliz e avexado.
Não sabia o que seria preparado,
mas sabia que mais tarde enchia a pança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Se chovia, corria pra biqueira,
tomar banho com toda a meninada.
Namorava sentado na calçada,
encostando cadeira com cadeira.
Tinha fé no poder da rezadeira
que curava quebranto e mau-olhado.
Um forró pé de serra bem tocado
garantia o sorriso e muita dança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Mesmo tendo fruta lá na geladeira,
inventava de roubar seriguela.
De repente um gritava: – “Lá vem ela!”
Era grande o pinote e a carreira.
No pescoço carregava a baladeira
e o bornó de retalho pendurado.
Ah, se o tempo pudesse ser domado,
mas é bicho feroz que não se amansa.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Tantos banhos de rio e de açude,
tanta coisa carrego aqui comigo.
Cada canto, cada dia, cada amigo,
cada história da minha juventude.
Quer saber quem é rico em plenitude?
Observe o extrato retirado.
Se no cofre da alma está guardado
pelo menos um pedaço dessa herança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Verdades e mentiras

bráulio Bessa

A mentira é perigosa,
nos transforma em outro ser.
Diz a lenda que mentir
faz nosso nariz crescer.
Sua força é mais voraz,
pois quem mente sempre faz
a confiança encolher.

A confiança que é
alicerce e suporte.
Toda mentira enfraquece.
A verdade nos faz forte
pra suportar qualquer dor
e pra sarar qualquer corte.

A obra da confiança
é pouco a pouco construída.
Passo a passo, gesto a gesto,
demora pra ser erguida.
Se a base não for bem forte,
num sopro ela é demolida.

Palavras, belos discursos
podem conter falsidade,
mas atitudes e gestos
revelam qualquer verdade.
Dizem que a verdade dói,
já a mentira, destrói,
escurece seu olhar,
lhe deixa fraco, inseguro,
e o caminho mais escuro
é o pior de caminhar.

Por isso, pra iluminar
um amor, um sentimento,
seja sempre verdadeiro,
e não só por um momento.
Seja honesto em sua essência,
pois a própria consciência
é seu pior julgamento.

E sempre será assim:
o correto e o errado,
a verdade e a mentira
caminhando lado a lado.
Há quem grite uma verdade,
há quem minta até calado.

Por isso é tão difícil
ter alguém pra confiar.
A verdade e a mentira
teimam sempre em se encontrar
sem hora ou dia marcado,
sem avisar o lugar.

E mesmo assim…

Vale a pena acreditar
até no que não se vê.
Vale a pena confiar
num verso meio clichê:
É confiando em alguém
que alguém confia em você.

É preciso ser honesto
pra cobrar honestidade.
É preciso ser sincero
pra cobrar sinceridade.
E só quem é verdadeiro
pode cobrar a verdade.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O moinho

bráulio Bessa

Vejo o tempo seguindo a correnteza
como um rio que segue seu caminho.
Obedece a lei da natureza
que transforma relógio em moinho.

Mói poder, mói orgulho, mói riqueza,
mói tecido de trapo ou de linho.
Mói a miss lhe roubando a beleza,
mói castelo, mói casebre, mói um ninho.

Mói o riso estampado em nossa face,
mói as pétalas de toda flor que nasce.
Para ser moído basta estar vivendo.

O moinho pouco a pouco nos matando
e o poeta atrevido revidando,
dando vida a um soneto e renascendo.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Coisa de mãe

bráulio Bessa

Vez por outra ela duvida
até do nosso amor,
fazendo drama e falando
como quem sente uma dor:
– “Um dia, quando eu morrer,
é que tu vai aprender
e talvez me dar valor.”

Por mais que exista amor,
por mais que exista afeto,
um fato que deixa a gente
preocupado e inquieto
é quando a mãe pronuncia
sem nenhuma alegria
o nosso nome completo!

Quando a gente quer sair,
bate um receio profundo.
Pede à mãe cheio de medo
e nesse exato segundo
diz que “todo mundo vai”
e a resposta dela sai:
– “Você não é todo mundo!”

Tem outra situação
difícil e muito adversa.
Às vezes no mei da rua
a mãe também é perversa
quando ela aponta o dedinho
e diz assim bem baixinho:
– “Em casa a gente conversa.”

Por mais que a gente estude,
que tenha dedicação,
o boletim todo azul
ela olha com atenção
e fala sem gaguejar:
– “Tem mesmo é que estudar.
Não fez mais que a obrigação!”

Se acaso a gente perder
coisa boba ou coisa rara,
ela ativa um radar
potente que nunca para
e diz: – “Se eu for procurar,
garanto que vou achar
e esfregar na sua cara.”

Quando a gente chega perto,
faz um carinho qualquer,
e diz: – “Mãe, vou te amar
enquanto vida tiver!”
Ela responde ligeiro:
– “Hoje eu não tenho dinheiro.
Diga logo o que tu quer!”

Coisa de mãe é dizer:
– Você vai se machucar.
– Cadê o troco, menino?
– Mais tarde vai esfriar.
– Só vou contar até três!
– Bagunçou, vai arrumar.

– Já pegou o guarda-chuva?
– Eu não sou sua empregada.
– Engole esse choro agora!
– Eu nunca estou enganada.
– Na volta a gente compra.
– Você não ajuda em nada!

Coisa de mãe é ser cura
pra aliviar qualquer dor.
Coisa de mãe é o abraço
mais forte e mais protetor.
Coisa de mãe é cuidar,
coisa de mãe é amor.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O que aprendi chorando

bráulio Bessa

Quando a lágrima escorre
pelas curvas do meu rosto,
na boca sinto seu gosto
enquanto ela me socorre.
Pois de chorar ninguém morre,
ninguém quebra, só inclina.
Todo choro é uma vacina
que pode estar nos salvando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Quando chorei de saudade
foi que pude observar
que ela só vem maltratar
quem foi feliz de verdade.
Tem gente que tem vontade
de fazer uma faxina
na mente que traz a sina
que é viver recordando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Quando me senti sozinho,
sem ter com quem caminhar,
decidi não esperar
e seguir o meu caminho
livre feito um passarinho,
feito um galo de campina,
que canta e não desafina
no mei do mundo voando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Já caí e me quebrei
entre cacos e bagaços,
juntei meus próprios pedaços
e com lágrimas colei.
Me refiz, me levantei
mais forte do que platina,
feito fogo em gasolina
que acende e vai se espalhando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Já me vi cego e perdido,
vagando na escuridão,
em busca de um clarão
que pudesse ser seguido.
Com medo e enfraquecido,
minha fé foi heroína,
pois uma força divina
surgiu me alumiando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Chorei de arrependimento
Já chorei por ter errado
Chorei por ter acertado
Já chorei em casamento
Chorei em meu nascimento
Chorei alto e na surdina
Chorei virando uma esquina
Já chorei até cantando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Perdoei, fui perdoado
Já feri e fui ferido
Esqueci, fui esquecido
Já amei e fui amado
Enganei, fui enganado
Quem chora abre a cortina
A esperança germina
e nasce nos transformando.
O que aprendi chorando
sorriso nenhum ensina.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Ah, se eu pudesse voltar!

bráulio Bessa

Cair e rolar no chão
sem medo de se sujar,
correr no meio da rua,
não ter conta pra pagar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Comer goiaba no pé,
soltar pipa, pedalar,
jogar bola no campinho,
ir pra escola estudar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ir pra casa da vovó
pra comer e engordar.
Ser sincero e verdadeiro
falando o que quer falar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ser o futuro do mundo
e nem se preocupar,
brigar com um amiguinho
e ligeiro perdoar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Ter amor em seu sorriso
e bondade em seu olhar,
sonhar e ter a certeza
de que vai realizar.
Como era bom ser criança.
Ah, se eu pudesse voltar!

Querer que o relógio corra
fazendo o tempo passar
pra ser grande, ser adulto
e, quando a hora chegar,
dizer repetidamente:
Ah, se eu pudesse voltar!

Bráulio Bessa, Um Carinho na alma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A arte do tempo

bráulio Bessa

O tempo…

Sempre vivo e indeciso,
ora corre, ora voa,
consegue curar feridas,
no mesmo instante as magoa.
Ninguém escapa do tempo
invisível feito o vento
que toca qualquer pessoa.

O tempo me modelou,
me arrancou do meu ninho,
clareou os meus cabelos,
me bateu, me fez carinho.
O tempo me fez voar,
me ensinou a caminhar,
mas não mostrou o caminho.

Por tanto tempo o tempo
fez papel de diretor,
um roteirista confuso,
ora ódio, ora amor,
gritando silencioso,
tão claro e misterioso
feito o mar pro pescador.

O tempo me fez poeta,
artista, palco e cenário,
me fez imaginação,
aí, encontrou um páreo,
pois, para o tempo, o artista
sempre foi um adversário.

Só o artista segura
e faz parar o ponteiro
que faz o dia ser noite
e último ser primeiro,
e que tem a ousadia
de determinar o dia
que será o derradeiro.

A liberdade da arte
deixa o tempo aprisionado,
faz o relógio da vida
adiantado, atrasado,
e num segundo de paz
toda guerra se desfaz
se o relógio for parado.

Já que o tempo é infinito
e o artista o domina,
ser eterno e ser mortal
talvez seja minha sina,
atuar num espetáculo
que nunca fecha a cortina.

A única previsão
que é certa sobre o tempo
é que ele vai passar.
Por isso cada momento
deve ser aproveitado,
vivido e depois guardado
na caixa do pensamento.

O tempo está sempre vivo
num grande desassossego,
inquieto, inconstante,
é pancada e é chamego,
é solução e problema.
O tempo é só um poema
dizendo: já fui, já chego.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma