Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A lição que a morte deu

bráulio Bessa

Na fazenda Ave Maria
no ano de oitenta e três,
deu-se um fato muito triste
que hoje conto a vocês.
Duas mortes repentinas.
Fecharam-se as cortinas
da vida de dois viventes:
Zé Vaqueiro, o peão,
Doutor Cesar, o patrão,
dois seres tão diferentes.

Diferentes na carcaça
e também no interior.
O patrão cheio de ódio,
o peão cheio de amor.
Cada qual com seus valores,
seus sorrisos, suas dores
e suas convicções.
Enquanto isso no céu,
Deus anota num papel
seus gestos, suas ações.

O patrão, muito egoísta,
jamais repartia o pão.
Nasceu em berço de ouro,
nunca passou precisão,
não acudia indigente,
nem ajudava um doente
prostrado num hospital.
Cheio de hipocrisia
pedia à Virgem Maria:
– “Livrai-me de todo mal.”

Porém, missas e novenas
Doutor Cesar não perdia.
Batizou sua fazenda
em homenagem a Maria
por quem tinha devoção
e toda convicção
de que a santa preparava
o lugar dele no céu
sem taxa, sem aluguel,
na rua que ela morava.

Já Zé Vaqueiro era bom,
tinha uns quatro corações.
Deixava isso bem claro
na pureza das ações.
Ocupado na peleja,
nem ia tanto à igreja
mas só praticava o bem.
Era justo e generoso,
muitas vezes caridoso,
mesmo sem ter um vintém.

Tirava do próprio prato
mode dar a quem tem fome.
Ajudava a qualquer um
sem perguntar nem o nome.
Era muito judiado,
quase sempre injustiçado,
porém nunca reclamava.
Dizia que o sofrimento
era um teste, um treinamento
que Deus sempre lhe mandava.

Num dia comum da vida,
no Açude Juremal,
Doutor Cesar se banhava
e de repente passou mal.
– “Tô morrendo afogado!”,
gritou ele, agoniado,
na hora da precisão.
Zé correu pra lhe salvar
mesmo sem saber nadar.
Morreram Zé e o patrão.

E a morte sem critérios
deu seu golpe derradeiro,
roubou a vida de Zé
e a do cruel fazendeiro.
Ninguém foge do destino,
seja simples, seja fino,
seja o limpo ou o imundo,
esse encontro é garantido
e por mais bem escondido
ela encontra todo mundo.

No outro dia ocorreu
o cortejo do patrão.
Mais de dez quilos de flor
perfumando o caixão
de madeiras trabalhadas
com quatro alças douradas
pro defunto ostentar.
Ao redor, vinte babões
que trocavam empurrões
brigando pra carregar.

Mais de cem motos na frente,
cinquenta carros atrás…
gente a pé, gente a cavalo,
coroa, faixa e cartaz
prestigiando o doutor
que nunca espalhou amor,
mas juntou um mar de gente.
Se fosse um pobre lascado,
posso até tá enganado,
seria bem diferente.

No mesmo dia avistei
o fim de uma vida dura,
num caixão de compensado
doado na Prefeitura.
Pouca gente acompanhando,
dez vaqueiros aboiando
e a mãe rezando um terço.
O derradeiro momento
da vida de sofrimento
de Zé, que nasceu sem berço.

Num mundo tão desigual
inté na hora da morte
o bolso deixa bem claro
qual dos dois teve mais sorte.
A verdade é nua e crua:
o vil metal continua
mandando e desmandando.
Essa conta eu fiz ligeiro:
o que tinha mais dinheiro
deixou mais gente chorando.

Depois da viagem feita
pro mundo espiritual,
o lugar que deixa claro
quem é do bem ou do mal,
fica tudo evidente,
a justiça é transparente
e nunca é manipulada.
É a hora da verdade
em que toda a humanidade
um dia será testada.

Doutor Cesar acordou mal,
pingando suor na testa.
Já foi logo reclamando:
– “Eita calor da moléstia!
Devo estar no quarto errado,
não tem ar-condicionado,
nem TV, nem frigobar.
Cadê a Virgem Maria
pra mudar minha estadia
e me reposicionar?”

Nisso entrou um galegão,
jeitoso, de olho azul.
E disse: – “Prazer, doutor!
Eu me chamo Belzebu.
Eu que fiz o seu check-in,
pode reclamar de mim,
se tiver mais algum susto.
Aproveite a estadia
regada de agonia,
afinal, o cão é justo.”

O doutor, inconformado
por ir morar com o cão,
perguntou a Belzebu:
– “E cadê o meu peão?
Infeliz, nem me salvou,
nem pra isso ele prestou,
deve estar ardendo em brasa.
Me responda o que precisa
pra eu ir dar-lhe uma pisa.
Onde fica sua casa?”

O cão disse: – “Cabra burro,
morreu, mas não aprendeu
que Zé tinha um coração
bem diferente do seu.
Lá onde ele foi morar
a gente não pode entrar,
mas lhe mostro do portão
que vai dar pra você ver
e de longe conhecer
a casa do seu peão.”

A rua estava enfeitada
pois à noite tinha show,
e esse era especial
pois foi Deus que organizou.
O palco todo montado,
a luz e o som testado
pra grande apresentação.
O encontro de dois reis
tava marcado pras seis:
Elvis Presley e Gonzagão.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

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