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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – A verdade e a mentira…

Foi a verdade e a mentira
Nascida no mesmo dia,
A verdade, no chão duro
Porque nada possuía
E a mentira por ser rica
Nascer na cama macia
E por causa disto mesmo
Criou logo antipatia,
Não gostava da verdade,
Temendo a sua energia,
Pois onde a mentira fosse
A verdade também ia
O que a mentira apoiava
A verdade não queria
O que a mentira formava
A verdade desfazia,
O segredo da mentira
A verdade descobria,
E a mentira esmorecendo
Vendo que não resistia
Patativa do Assaré – Foto: (…)
Chamou depressa o dinhêro
Para sua companhia,
Levou o dinhêro com ele
A inveja, a hipocrisia,
A ambição, a calúnia,
O orgulho, o crime e a ironia,
A soberba e a vaidade
Que são da mesma famia
E fizeo um tal fofó
Um ingôdo, uma ingrizia
Que a verdade pelejava
Pra desmanchá e não podia
E a mentira aposentou-se
Com esta grande quadria.
Depois, casou-se o dinherô
Com a sua prima anarquia
E com quatro ou cinco mês
Dela nasceu uma fia,
Caçaro logo os padrinho
Mas no mundo não havia
Satanaz com a mãe dele
Lhe apresentaro na pia
E com todo atrevimento
Com toda demagogia
Caçaro um nome bonito
Na sua infernal cartia
E dissero: essa menina
Se Chama democracia,
Tudo se danou de quente
E a verdade ficou fria.

Patativa do Assaré, Ispinho e Fulô. (Organização Antônio Gonçalves da Silva)

Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Um grande poeta

Carregou da miséria o grande fardo,
Foi a pobreza sua companhia,
Esta andrajosa mãe da poesia
Nunca negou-lhe da tortura o dardo.

E assim de olhar pedinte e passo tardo
Fora do mundo a lamentar vivia.
Hoje repousa sob a terra fria,
Já ninguém fala do indigente bardo.

Eu, que na vida não gozei de nada,
Vou palmilhando aquela mesma estrada
Tendo por ele um sentimento nobre.

Foi meu colega, foi meu grande amigo,
Autor do livro, Cantos de um mendingo,
Foi tão poeta que morreu de pobre.

 

Patativa de Assaré, Melhores poemas

Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Morrer sem morrer deveras

Do meu fúnebre caixão,
Sem soluços nem gemidos,
Eu subi para a Mansão
Da Pátria dos Escolhidos,
Alegre me receberam
E uma festa promoveram,
Eu fiquei muito feliz,
Vivo a recordar ainda,
Foi a viagem mais linda
Que na minha vida eu fiz.

Disseram vendo o troféu
Que a natureza me deu:
Vamos ter festa no céu,
O Patativa morreu!
São Pedro Muito Sapeca
Foi trazer sua rabeca
E no arco passando breu,
Cantou com voz compassiva:
Viva, viva o Patativa,
Ele é um colega meu.

Na recepção imensa
De rabeca e cantoria,
Chegou em nossa presença
Castro Alves da Bahia,
Com muita satisfação
Apertou a minha mão
E me disse com amor:
Sei tudo que aconteceu,
Lá na Terra onde viveu
Foi poeta e professor.

Lá na Terra de Iracema
Com a sua poesia,
Abordou o mesmo tema
Que eu abordei na Bahia,
Foi grande amigo do povo
Preto, branco, velho e novo,
Com sextilhas e sonetos
E num esforço varonil
Foi defensor do Brasil
Dos pobres, brancos e pretos.
Com este mesmo ideal
Eu cantei, cantei, cantei,
Lá na Terra de Cabral
O maior exemplo dei,
Porém hoje eu vejo tudo,
Quer tenha ou não tenha estudo,
Ou de maneira qualquer,
Naquele país distante
Por mais que o poeta cante,
Não alcança o que ele quer.

Com esta declaração
A qual eu não conhecia
Dei um aperto de mão
No poeta da Bahia,
Mas vi que tudo aquilo era
O que chamamos quimera
Ou ilusão do sentido,
No sono fui bem-ditoso,
Mas despertei desgostoso
Porque não tinha morrido.

 

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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – A ligeira do ão

Ai, dão, dão,

Tem a ligeira do a,
Tem a ligeira do ão,
A do ão foi eu quem fiz,
Ninguém que diga que não.

Ai, dão, dão,

A pior coisa do mundo
Que causa admiração,
É uma velha e uma moça
Dizendo malcriação.

Ai, dão, dão,

Como Narcisa e Toinha
Na beira do cacimbão,
Quando uma dizia sim,
A outra dizia não.

Ai, dão, dão,

Apontava com o dedo
E batia o pé no chão,
Pra ser um frango e um galo
Só faltava o esporão.

Ai, dão, dão,

Saiu tanto nome feio
Da caderneta do cão
Que até minhas laranjeiras
Ouvindo a esculhambação.

Ai, dão, dão,

Balançaram suas galhas
Caiu laranja no chão
Valha-me Nossa Senhora
Mãe de Deus da Conceição
Ai dão, dão,
Quando eu for ao Juazeiro
Rezar a minha oração
Vou trazer uma estátua
Do Padre Cícero Romão.

Ai, dão, dão,

E botar na minha baixa
Pegado no seu bastão
Para ver se essas mulheres
Respeitam meu cacimbão.
Ai, dão, dão,
Tenha de mim piedade
Mulher do meu coração,
Peço até por caridade
eu não mereço isto não!

Ai, dão, dão.

 

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Patativa do Assaré

Patativa de Assaré – Pai Luiz e o preguiçoso

Ninguém dirá ao contrário
Do que estou dizendo aqui,
Pai Luiz é imaginário
Como a Caipora e o Saci,
Pelo inverno ele parece,
Aparece e permanece
Bem sisudo e curioso
Com o fim de se arranchar
E ao mesmo tempo morar
Na roça do preguiçoso.
O preguiçoso vadio
Depois da roça plantada
Abandona o seu plantio
Sem nunca pegar na enxada,
Pai Luiz chega e se apossa,
Fica por dentro da roça
Sem cansaço e sem fadiga,
Pra ele é grande a vantagem,
O feijão não vinga vagem
E o milho não bota espiga.
Vai semana e vem semana
E o preguiçoso a brincar,
Jogando e bebendo cana
Andando de bar em bar,
Com pilhéria e com lambança
Já não tem mais nem lembrança
O preguiçoso gaiato
Do plantio no abandono
E Pai Luiz é o dono
Da plantação e do mato.
Com seu jeito sisudo,
Cumprindo a sua missão,
Fica por dentro de tudo,
Do mato e da plantação
E o vagabundo na rua
Com a malandragem sua
Vaidoso sempre vaidoso
E Pai Luiz aproveita
Para não haver colheita
E o milho não bota espiga.
Vai semana e vem semana
E o preguiçoso a brincar,
Jogando e bebendo cana
Andando de bar em bar,
Com pilhéria e com lambança
Já não tem mais nem lembrança
O preguiçoso gaiato
Do plantio no abandono
E Pai Luiz é o dono
Da plantação e do mato.
Com seu jeito sisudo,
Cumprindo a sua missão,
Fica por dentro de tudo,
Do mato e da plantação
E o vagabundo na rua
Com a malandragem sua
Vaidoso sempre vaidoso
E Pai Luiz aproveita
Para não haver colheita
Na roça do preguiçoso.

 

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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Minha idade e minha poesia

Completei noventa anos
É idade bem comum,
Vou seguindo novos planos
Para os meus noventa e um,
Chegando aos noventa e dois
Procuro logo depois
O meu regime mudar,
Mudarei de refeição
Comendo feijão com pão
Para a saúde aumentar.

Quando mudar de comida,
Eu mudarei de atitude
Vou levando minha vida
Com poesia e saúde,
Sem faltar inspiração
Conhecendo com razão
Que o mundo foi Deus quem fez
E a vida não é sentença
Com a divina licença
Recito aos noventa e três.

Se a nossa vida é um drama
E este mundo é um teatro,
Conduzindo a mesma fama
Recito aos noventa e quatro,
Para mostrar o meu dom
Como sou poeta bom,
Com a poesia brinco
E mesmo neste absurdo
Cachingando, cego e surdo
Recito aos noventa e cinco.

Canto a Terra e o Infinito
Neste simples português,
Compondo verso bonito
Recito aos noventa e seis,
Cortando como gilete
Passo por noventa e sete
E vou aos noventa e oito,
Não há quem me desaprove
Que no meus noventa e nove
Rimo afoito com biscoito.

Mas quando completar cem,
Aí é dura a parada,
Não dou bolas pra ninguém
Nem quero saber de nada,
Vou todo cheio de ruga
Igualmente a tartaruga,
Com o pensamento fraco
Caducando lá num canto
Rimando diabo com santo
E careta com macaco.

Veja amigo esta verdade
Cheia de filosofia,
Isto aí é minha idade
Com a minha poesia.

Responda com brevidade
Dizendo se recebeu
A nossa velha amizade
Eu acho que não morreu.

 

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Patativa do Assaré

Patativa de Assaré – Ciúme

Tal qual a ave noturna quando agoura
Que até faz a criança apavorar,
O ciúme lhe fez não me entregar
O soneto que eu fiz à professora.

É bem livre e liberta a nossa loura
Como o pássaro que voa pelo ar,
Para a mesma prender e dominar
Tua força não é superiora.

Ciumento, egoísta, tenha calma
E não queira perder a sua alma,
É preciso saber que existe Deus.

Se, com manhas, trapaças ou enredos,
Eu não quero saber dos teus segredos,
Não procure também saber dos meus.

 

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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – O que é folclore?

Posso lhe afirmá também:
Folclore é superstição,
O medo que você tem
Do canto do corujão.
Folclore é aquele instrumento
Para o seu divertimento
Que chamamos berimbau;
E também a brincadeira
Ritmada e prazenteira
Chamada Maneiro-Pau.

Folclore, meu camarada,
Ouvimos a toda hora,
É históra de alma penada,
De lobisome e caipora.
Preste atenção e decore,
Pois, com certeza, folclore
Ainda posso dizer
Que é aquele búzio de osso
Que você põe no pescoço
Do filho pra não morrer.

É o aboio magoado
Do vaqueiro na amplidão.
É o festejo animado
Da debulha do feijão,
Carro de boi e gaiola
E desafio, à viola,
Do cantador popular
E também a toadinha
Da Ciranda-Cirandinha
Vamos todos cirandar.

Eu e você que vivemos
No nosso pobre sertão
Muitas coisas inda temos
Da popular tradição:
Além de outras, o girau
E a carrocinha de pau,
Em vez de bonito carro.
Que prazer, satisfação,
A gente comer pirão
Mexido em prato de barro!

E agora, prezado irmão,
Estes versos lhe dedico.
Lhe dei alguma noção
Do nosso folclore rico.
Não posso continuar,
Pois nada pude estudar,
De dentro do tema saio.
O resto lhe dirá tudo
Romão Filgueira Sampaio,
Mainá e Câmara Cascudo.

De conservar o folclore
Todos têm obrigação,
Para que nunca descore
A popular tradição.
Os homens de grande estudo,
Como Mainá e Cascudo,
Guardam sempre nos arquivo
Populares tradições,
Cantigas, superstições
E costumes primitivos.

Você, caboclo, que cresce,
Sem instrução nem saber,
Escuta, mas não conhece
Folclore o que quer dizer:
O folclore é um pilão,
É um bodoque, um pião,
Garanto que também é
Uma grosseira cangalha,
Aparelhada de palha
De palmeira ou catolé.

 

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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Ciúme

Tal qual a ave noturna quando agoura
Que até faz a criança apavorar,
O ciúme lhe fez não me entregar
O soneto que eu fiz à professora.

É bem livre e liberta a nossa loura
Como o pássaro que voa pelo ar,
Para a mesma prender e dominar
Tua força não é superiora.

Ciumento, egoísta, tenha calma
E não queira perder a sua alma,
É preciso saber que existe Deus.

Se, com manhas, trapaças ou enredos,
Eu não quero saber dos teus segredos,
Não procure também saber dos meus.

 

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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Nanã

É triste a flor que desabrocha sem carinho
E sem carícia do sereno da manhã…
Assim nasceu, lá no sertão, minha Nanã,
Sem uma luz que iluminasse o seu caminho.

Com o pobre pai a morar num tosco ninho,
A desventura foi a sua negra irmã,
Enquanto a sorte protegia a cortesã,
A desdita lhe dava um pão magro e mesquinho.

Depois veio a seca cruel e assoladora,
Contra aquela linda florzinha encantadora
E a coitada morreu, mirrada pela fome.

Hoje, um poeta chora triste esta saudade
E as aves cantam a chamar na solidão:
Nanã! Nanã! Nanã! seu doce e belo nome.

 

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