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Adrilles Jorge

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Proximidade

adrilles jorge

Por muito próximo não se vê
o que se esconde
no espectro que turva
ou reinventa uma verdade palpável

Por dentro se percebe
o planeta como centro
que ao longe se descobre
poeira no universo

Por muito próximo
não se toca
a contemplação do todo
no corpo do desejo
da plenitude da obra
que se esconde no detalhe

Por muito perto se sente
a mão que acalenta
a pele da vontade
na carne da escultura
e por incerta distância se sente
a lâmina que esfaqueia a tentativa
empunhada pela mesma mão
que golpeia a projeção
e retalha a intenção

Por dentro, não nos vemos
Por fora, da visão do outro
nos atalhamos e nos criamos

Por invisível se esconde
a distância que conceberia
a arte do juízo
que se quebra
por se espreitar sempre próximo
o medo de ser só
distante da ilusão
que nos aproxima
de nossa fraterna colisão.

Adrilles Jorge, Antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Aqui

adrilles jorge

Para onde, por onde mira o desejo?
Que rosto, todo, detalhe,
que esboço, ato ou adejo,
que fim finaliza seu talhe?

Por que fim se esboça o princípio
que formula a intenção?
Por que todo se corta o início
que esboça uma ação?

Por onde responde
a queda do anseio
que encerra ao meio
o que de si e em si se esconde?

Por onde me venço e formulo meu pleito?
A que qualquer coisa estou sujeito?
De que tudo nada é feito?

Adrilles Jorge, Antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – O ódio me sustenta

adrilles jorge

O ódio me sustenta
alicerça
o contrapeso de querer o que me esmaga
e concebe e não me sabe
O ódio precisa a exata necessidade
do que não preciso
e me dilapida, consumindo meu vazio
Como um calmo rancor
que embala a fome do toque
como o afeto da mãe que aleita o filho morto,
o ódio presta subversiva homenagem ao que amo.

Adrilles Jorge, Antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Declaração de amor

adrilles jorge

Prazer em receber teus beijos estéreis, tuas mentiras escamadas
teus lugares-comuns que revelam verdades viáveis
que duram pela brevidade eterna da tua presença
teus esboços de certezas concretas
que delineiam teu, o nosso caráter sutil e desencorpado

Prazer em abrir corpo e ouvidos para as tuas ordens
infantis de adulta mimada, general que impõe as estratégias de
uma criança
que conquistou sua autoridade pelos caprichos do corpo,
pela curva dos quadris
pela angulação torta do pensamento
por descaminhos reveladores de tua superfície mais oculta
abonadora de tuas virtudes disfarçadas de vícios cativantes

Na melodia das dissonâncias da tua voz, o prazer imediato da
curva que
não te define, da linha oblíqua que oferece o caminho torto que
não te alcança
e que deslumbra os transeuntes que topam com tua natureza
morta,
sempre ressuscitada pela autópsia de corpos retos, elementares,
mortos pelas tuas tangências.

Adrilles Jorge, Antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – O que se busca

adrilles jorge

O que se busca
é algo a se buscar
algo que desvie
do caminho para parte alguma

Do que se foge
é tudo onde repousa
toda a paz que pesa
sobre o horizonte estéril

O que se faz
é a invenção desmedida da rota
ainda que o que se ache
seja a chegada de outra volta

O que se busca
é a bússola que norteia o rumo da queda
onde, por perdido,
quem se busca é algo a ser buscado.

 

Adrilles Jorge, Antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Declaração

adrilles jorge

Eu te amo aos pedaços, fatiada
ao acre tempero da ilusão
entranhada no desgosto do nada
desejada nos desvios do não

Amo em ti a negativa atávica
atada ao meu reflexo martirizado
Amo tua sombra previamente trágica
fossilizando meu futuro macerado

Amo o desvelo dos descaminhos cruzados
percorrendo a pele ilícita do teu corpo etéreo
Amo a tortura do tempo nos olhos varados
ressoando nas vísceras de um feto funéreo

Amo a frágil inconsistência de um fracasso
realizado às margens de um toque consumado
Amo, qual Cristo, crucificar-me em quase abraço
a revelar a insânia de um amor crucificado.

 

Adrilles Jorge, antijogo

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Amor

adrilles jorge

Lembro-me de você
não como era,
de como o momento a pintava:

no esboço da memória inacabada
sempre presente
mesmo no instante ausente
no ideal que me faltava

Lembro-me do meu traço
que lhe acariciava
e criava
para que eu pudesse me esquecer
de um dia poder perder
sua imagem fabricada

Lembro-me sempre agora
de refazer seu desenho
em todos os amanhãs

para que o esquecimento
se esqueça de si
a todo momento
e não resista
à sua presença
eternamente recriada.

 

Adrilles Jorge, Antijogo