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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – O engenheiro

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

João Cabral de Melo Neto, Melhores Poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Marinha

Os homens e as mulheres
adormecidos na praia
que nuvens procuram
agarrar?

No sono das mulheres
cavalos passam correndo
em ruas que soam
como tambores.

Os homens têm espelhos de bolso
onde os gestos das amadas
(as amadas demoradas
se repetem).

Vi apenas que no céu do sonho
a lua morta já não mexia mais.

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Ponto de desintoxicação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Pirandello II

Sei que há milhares de homens
se confundindo neste momento.
O diretor apoderou-se de todas as consciências
num saco de víspora.
Fez depois uma multiplicação
que não era bem uma multiplicação de pães
de um por dez por quarenta mil.
Tinha um gesto de quem distribui flores.
A mim me coube um frade
um pianista e um carroceiro.
Eu era um artista fracassado
que correra todos os bastidores
vivia cansado como os cavalos dos que não são heróis
serei um frade
um carroceiro e um pianista
e terei de me enforcar três vezes.

João Cabral de Melo Neto, Selected poetry

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Pirandello I

A paisagem parece um cenário de teatro.
É uma paisagem arrumada.
Os homens passam tranquilamente
com a consciência de que estão representando.
Todos passam indiferentes
como se fosse a vida ela mesma.
O cachorro que atravessa a rua
e que deveria ser faminto
tem um ar calmo de sesta.
A vida ela própria não parece representada:
as nuvens correm no céu
mas eu estou certo de que a paisagem é artificial
eu que conheço a ordem do diretor:
—Não olhem para a objetiva!
e sei que os homens são grandes artistas
o cachorro é um grande artista.

João Cabral de Melo Neto, Selected Poetry

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – A bailarina

A bailarina feita
de borracha e pássaro
dança no pavimento
anterior do sonho.

A três horas de sono,
mais além dos sonhos,
nas secretas câmaras
que a morte revela.

Entre monstros feitos
a tinta de escrever,
a bailarina feita
de borracha e pássaro.

Da diária e lenta
borracha que mastigo.
Do inseto ou pássaro
que não sei caçar.

 

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Na cidade do Porto

Numa dessas tardes vazias,
em que só se está, não se vive,
da janela que dá para a rua,
comercial, consular e triste,

vi passar, entre as que passavam,
uma mulher de andar sevilha:
o esbelto pisar decidido
que carrega a cabeça erguida,

cabeça que é, soberana,
de quando a espiga mais se espiga,
que carrega como uma chama
negra, e apesar disso acendida,

que a mulher dali não conhece:
que é a da mulher da calle Feria,
que é onde as mulheres da plebe
passam com porte de duquesas.

 

João Cabral de Melo Neto, A literatura como turismo

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – As nuvens

As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos
da cantora muda;

são estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
e países de vento;

são o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;

são a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados;
a medicina, branca!
nossos dias brancos.

 

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Na cidade do Porto

Numa dessas tardes vazias,
em que só se está, não se vive,
da janela que dá para a rua,
comercial, consular e triste,

vi passar, entre as que passavam,
uma mulher de andar sevilha:
o esbelto pisar decidido
que carrega a cabeça erguida,

cabeça que é, soberana,
de quando a espiga mais se espiga,
que carrega como uma chama
negra, e apesar disso acendida,

que a mulher dali não conhece:
que é a da mulher da calle Feria,
que é onde as mulheres da plebe
passam com porte de duquesas.

 

João Cabral de Melo Neto, A Literatura como turista

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Janelas

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

 

João Cabral de Melo Neto, Poemas para ler na escola

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Dois estudos

I

Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam reservatórios sobre os quais ganhaste um
domínio de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.

II

Tu não representas as 24 horas de um dia, os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és completamente revolucionária e criminosa, porque sob teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.

 

João Cabral de Melo Neto, Poemas para ler na Escola

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – A literatura como turismo

Certos autores são capazes
de criar o espaço onde se pode
habitar muitas horas boas:
um espaço-tempo, como o bosque.

Onde se ir nos fins de semana,
de férias, até de aposentar-se:
de tudo há nas casas de campo
de Camilo, Zé Lins, Proust, Hardy.

A linha entre ler conviver
se dissolve como em milagre;
não nos dão seus municípios,
mas outra nacionalidade,

até o ponto em que ler ser lido
é já impossível de mapear-se:
se lê ou se habita Alberti?
se habita ou soletra Cádis?

João Cabral de Melo Neto, A literatura como turismo

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Autobiografia de um só dia

No Engenho Poço não nasci: 
minha mãe, na véspera de mim, 

veio de lá para a Jaqueira, 
que era onde, queiram ou não queiram, 

os netos tinham de nascer, 
no quarto-avós, frente à maré. 

Ou porque chegássemos tarde 
(não porque quisesse apressar-me, 

e se soubesse o que teria 
de tédio à frente, abortaria) 

ou porque o doutor deu-me quandos, 
minha mãe no quarto-dos-santos, 

misto de santuário e capela, 
lá dormiria, até que para ela, 

fizessem cedo no outro dia 
o quarto onde os netos nasciam. 

Porém em pleno Céu de gesso, 
naquela madrugada mesmo, 

nascemos eu e minha morte, 
contra o ritual daquela Corte 

que nada de um homem sabia: 
que ao nascer esperneia, grita. 

Parido no quarto-dos-santos, 
sem querer, nasci blasfemando, 

pois são blasfêmias sangue e grito 
em meio à freirice de lírios, 

mesmo se explodem (gritos, sangue), 
de chácara entre marés, mangues. 

João Cabral de Melo Neto, A Literatura como Turismo

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

João Cabral de Melo Neto, A Educação pela pedra