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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – A lição de poesia

joao cabral de melo neto
  1. Toda a manhã consumida
    como um sol imóvel
    diante da folha em branco:
    princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

  1. A noite inteira o poeta
    em sua mesa, tentando
    salvar da morte os monstros
    germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

  1. A luta branca sobre o papel
    que o poeta evita,
    luta branca onde corre o sangue
    de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – A fábrica de tabacos

joao cabral de melo neto

Lá trabalharam as cigarreiras,
quase nuas pelo calor,
discutindo, freiras despidas,
teologias de um certo amor.

Enquanto enrolavam cigarros,
se trocavam jaculatórias,
com palavras desse amor cru
omitidos pelas retóricas.

Lá um tempo trabalhou Carmen,
adensando mais a atmosfera
de sexo, de carne mulher,
que isso tudo emanava dela.

Sobre o portal um anjo de pedra:
pronta, na boca, uma trombeta.
Faria soá-la, se dizia,
se um dia entrasse uma donzela.

Hoje, não há mais operárias.
Hoje em dia, é a Universidade.
Tudo mudou, exceto o anjo
que mudo ameaça ainda, debalde.

João Cabral de Melo Neto, A literatura como turismo

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Os rios

joao cabral de melo neto

Os rios que eu encontro
vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios.

João Cabral de Melo Neto, O rio

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – O poema

joao cabral de melo neto

A tinta e a lápis
escrevem-se todos
os versos do mundo.

Que monstros existem
nadando no poço
negro e fecundo?

Que outros deslizam
largando o carvão
de seus ossos?

Como o ser vivo
que é um verso,
um organismo

com sangue e sopro,
pode brotar
de germes mortos?

*

O papel nem sempre
é branco como
a primeira manhã.

É muitas vezes
o triste e pobre
papel de embrulho;

é de outras vezes
de carta aérea,
leve de nuvem.

Mas é no papel,
no branco asséptico,
que o verso rebenta.

Como um ser vivo
pode brotar
de um chão mineral?

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – O engenheiro

joao cabral de melo neto

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

João Cabral de Melo Neto, Melhores Poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Marinha

joao cabral de melo neto

Os homens e as mulheres
adormecidos na praia
que nuvens procuram
agarrar?

No sono das mulheres
cavalos passam correndo
em ruas que soam
como tambores.

Os homens têm espelhos de bolso
onde os gestos das amadas
(as amadas demoradas
se repetem).

Vi apenas que no céu do sonho
a lua morta já não mexia mais.

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Ponto de desintoxicação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Pirandello II

joao cabral de melo neto

Sei que há milhares de homens
se confundindo neste momento.
O diretor apoderou-se de todas as consciências
num saco de víspora.
Fez depois uma multiplicação
que não era bem uma multiplicação de pães
de um por dez por quarenta mil.
Tinha um gesto de quem distribui flores.
A mim me coube um frade
um pianista e um carroceiro.
Eu era um artista fracassado
que correra todos os bastidores
vivia cansado como os cavalos dos que não são heróis
serei um frade
um carroceiro e um pianista
e terei de me enforcar três vezes.

João Cabral de Melo Neto, Selected poetry

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Pirandello I

joao cabral de melo neto

A paisagem parece um cenário de teatro.
É uma paisagem arrumada.
Os homens passam tranquilamente
com a consciência de que estão representando.
Todos passam indiferentes
como se fosse a vida ela mesma.
O cachorro que atravessa a rua
e que deveria ser faminto
tem um ar calmo de sesta.
A vida ela própria não parece representada:
as nuvens correm no céu
mas eu estou certo de que a paisagem é artificial
eu que conheço a ordem do diretor:
—Não olhem para a objetiva!
e sei que os homens são grandes artistas
o cachorro é um grande artista.

João Cabral de Melo Neto, Selected Poetry

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – A bailarina

joao cabral de melo neto

A bailarina feita
de borracha e pássaro
dança no pavimento
anterior do sonho.

A três horas de sono,
mais além dos sonhos,
nas secretas câmaras
que a morte revela.

Entre monstros feitos
a tinta de escrever,
a bailarina feita
de borracha e pássaro.

Da diária e lenta
borracha que mastigo.
Do inseto ou pássaro
que não sei caçar.

 

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Na cidade do Porto

joao cabral de melo neto

Numa dessas tardes vazias,
em que só se está, não se vive,
da janela que dá para a rua,
comercial, consular e triste,

vi passar, entre as que passavam,
uma mulher de andar sevilha:
o esbelto pisar decidido
que carrega a cabeça erguida,

cabeça que é, soberana,
de quando a espiga mais se espiga,
que carrega como uma chama
negra, e apesar disso acendida,

que a mulher dali não conhece:
que é a da mulher da calle Feria,
que é onde as mulheres da plebe
passam com porte de duquesas.

 

João Cabral de Melo Neto, A literatura como turismo

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – As nuvens

joao cabral de melo neto

As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos
da cantora muda;

são estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
e países de vento;

são o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;

são a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados;
a medicina, branca!
nossos dias brancos.

 

João Cabral de Melo Neto, Melhores poemas

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Na cidade do Porto

joao cabral de melo neto

Numa dessas tardes vazias,
em que só se está, não se vive,
da janela que dá para a rua,
comercial, consular e triste,

vi passar, entre as que passavam,
uma mulher de andar sevilha:
o esbelto pisar decidido
que carrega a cabeça erguida,

cabeça que é, soberana,
de quando a espiga mais se espiga,
que carrega como uma chama
negra, e apesar disso acendida,

que a mulher dali não conhece:
que é a da mulher da calle Feria,
que é onde as mulheres da plebe
passam com porte de duquesas.

 

João Cabral de Melo Neto, A Literatura como turista

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto – Janelas

joao cabral de melo neto

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

 

João Cabral de Melo Neto, Poemas para ler na escola