Atirei meu coração às areias do circo como se atira ao mar uma âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente, o palhaço zombou de minha...
José Paulo Paes
José Paulo Paes – Pequeno retrato
Nunca vislumbrei No momento exíguo, No dia contigo, O dia contíguo. Sempre desprezei A estrela sinistra, O falso zodíaco, A esfera de cristal E o terceiro aviso Do galo matinal....
José Paulo Paes – Canção sensata
Dora, que importa O juiz que escreve Exemplos na areia, Se livres seguimos O rastro dos faunos, A voz das sereias? Dora, que importa A herança do avô Sob a...
José Paulo Paes – O aluno
São meus todos os versos já cantados: A flor, a rua, as músicas da infância, O líquido momento e os azulados Horizontes perdidos na distância. Intacto me revejo nos mil...
Tiro da sua cartola repleta de astros, mil sobrenaturais paisagens de infância. Sua bengalinha queima os ditadores, destrói as muralhas libertando os anjos. Calço seu sapato e eis que percorro...
José Paulo Paes – Balada
Folha enrugada, poeira nos livros. A pena se arrasta no esforço inútil de libertação. Nenhuma vontade, nem mesmo desejo na tarde cinzenta. A árvore seca esperando seiva não tem paisagem....
Esta corda de ferro me aperta a cabeça, não deixa meus braços se erguerem no ar. E o mar me rodeia, afoga meus olhos. Maninha me salve não posso chorar!...
José Paulo Paes – Still life
Paisagem de fundo geometricamente ordenada pelas barras da porta. As folhas novas do arbusto, a coluna impositiva do relógio de sol, a touceira (via láctea doméstica) dos copos-de-leite. E, encostadas...
José Paulo Paes – Momento
Visto assim do alto no cair da tarde o automóvel imóvel sob os galhos da árvore parece estar rumo a algum outro lugar onde abolida a própria idéia de viagem...
José Paulo Paes – Glauco
Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o...
Você pensa que pensa ou sou eu quem pensa que você pensa? Você pensa o que eu penso ou eu é que penso o que você pensa? Bem, vamos deixar...
José Paulo Paes – Letra mágica
Que pode fazer você pra o elefante tão deselegante ficar elegante? Ora troque o f por g! Mas se trocar, no rato, o r por g, transforma-o você (veja que...
Se você for detetive, descubra por mim que ladrão roubou o cofre do banco do jardim e que padre disse amém para o amendoim, Se você for detetive, faça um...
José Paulo Paes – Desencontros
tão cedo cedo demais sempre tão cedo sempre tão cedo demais tão tarde tarde demais sempre tão tarde sempre tão tarde demais tão sempre sempre demais sempre tão cedo sempre...
Acordei quando senti meu braço esquerdo soltar-se do ombro a que sempre estivera preso. Que transtorno! No dia seguinte eu precisava comparecer ao meu baile de formatura. Como explicar a...

