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José Paulo Paes

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Momento

Visto assim do alto
no cair da tarde
o automóvel imóvel
sob os galhos da árvore
parece estar rumo
a algum outro lugar
onde abolida a própria
idéia de viagem
as coisas pudessem
livremente se entregar
ao gosto inato
da dissolução — e é noite.

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba
não o encontrei.
Numa tinha viajado para o Rio
na outra tinha viajado para a morte.

E nem havia mais onde encontrá-lo:
o Belas Artes fechara
a redação de O Dia sumira-se no ar
as pensões eram terrenos baldios.

Desarvorado me sentei à mesa
de uma confeitaria na esperança — vã —
de que algum sobrevivente de outros tempos
viesse dar notícias dele.

Só a caminho do aeroporto tive
um relance dos seus óculos kavafianos
mas sem os olhos risonhos
por detrás das lentes:

livres embora da miopia do corpo
seus olhos continuavam no encalço
da eterna
fugaz
inatingível
Beleza Adolescente.

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Atenção, detetive

Se você for detetive,
descubra por mim
que ladrão roubou o cofre
do banco do jardim
e que padre disse amém
para o amendoim,

Se você for detetive,
faça um bom trabalho:
me encontre o dentista
que arrancou o dente do alho
e a vassoura sabida
que deixou a louca varrida.

Se você for detetive,
um último lembrete:
onde foi que esconderam
as mangas do colete
e quem matou os piolhos
da cabeça do alfinete?

 

José Paulo Paes, Poemas para brincar

José Paulo Paes

José Paulo Paes – A braços com um problema

Acordei quando senti meu braço esquerdo soltar-se do ombro a que sempre
estivera preso.

Que transtorno!

No dia seguinte eu precisava comparecer ao meu baile de formatura.
Como explicar a repentina desaparição do braço?

Embrulhei-o numa folha de jornal e saí à procura do médico
da cidade. Não estava em casa, tinha ido para o clube.

Lá não me deixaram entrar com o pacote. Poderia ser uma
bomba e estava-se às vésperas da eleição da nova diretoria.

Voltei desolado para casa. Deitei-me e tentei soldar o braço
com um pouco do sangue que ainda não secara de todo.

Pelo jeito deu certo. Quando tornei a acordar, surpreendi-me
abafando com a mão esquerda um bocejo de astuta satisfação.

 

José Paulo Paes, Socráticas 

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Cigarra, Formiga & Cia

Cansadas dos seus papéis fabulares, a cigarra e a formiga
resolveram associar-se para reagir contra a estereotipia a que
haviam sido condenadas.

Deixando de parte atividades mais lucrativas, a formiga empresou
a cigarra. Gravou-lhe o canto em discos e saiu a vendê-los de
porta em porta. A aura de mecenas a redimiu para sempre do
antigo labéu de utilitarista sem entranhas.

Graças ao mecenato da formiga, a cigarra passou a ter comida e
moradia no inverno. Já ninguém a poderia acusar de imprevidência
boêmia.

O desfecho desta refábula não é róseo. A formiga foi expulsa do
formigueiro por lhe haver traído as tradições de pragmatismo à
outrance e a cigarra teve de suportar os olhares de desprezo com
que o comum das cigarras costuma fulminar a comercialização da
arte.

 

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Opção

Seja para uma platéia de muitos
ou de um só espectador
aos atores incumbe representar
seus respectivos papéis
até o fim da peça.

Nisso diferem dos suicidas
que sem a menor cerimônia
voltam as costas ao respeitável público
e saem de cena
quando bem entendem.

 

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Salomé

Mas o que é que se agita
nas roscas do teu ventre
e faz dele um ninho
vivo de serpentes?

Mas o que é que desliza
por teus braços acima
e lhes põe uns coleios
de corda assassina?

Mas o que é que te morde
feroz os calcanhares
e se assanha mais
e mais ao girares?

À espada que
sobre os seios sustentas,
que João não quereria
curvar a cabeça

para a ver decepada
num prato, mas sempre
com os olhos cegos fitos
na dança do teu ventre?

 

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Perguntas

Por que três reis magos
guiados por uma estrela
vão até o lugar
onde está esse menino
que supõem divino?

E os pastores, por que
deixam nas cabanas
seus filhos pequeninos
para juntar-se aos magos
e cantar hosanas?

Será que esse menino
já não tem o que precisa?
Um berço de palha,
vaca, burro, mãe
e seu próprio destino?

— Uma cruz de madeira,
uma esponja de fel,
três cravos, cinco chagas
e mais uma mortalha
como qualquer mortal?

Mas serão cruz, fel e cravos
a palavra final?
Então por que estrela,
magos e pastores
em sempre outro Natal?

 

José Paulo Paes, Socráticas 

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Promissória ao bom Deus

NÃO TE AMAREI sobre todas as coisas, mas em cada uma delas,
por mínima que seja. É o que compete aos poetas fazer.

NÃO TOMAREI teu nome em vão, mesmo porque nome é coisa séria. Inclusive os feios, que, ditos por dá cá aquela palha, perdem muito da sua eficácia.

GUARDAREI os domingos e quantos dias de festa houver, que ninguém é de ferro, como descobriste no sexto dia da Criação.

SEMPRE HONREI pai pela paciência e mãe pela ternura com que
me aguentaram, a não ser por dois ou três cascudos tão a contragosto
que mais pareciam carícias disfarçadas.

SÓ MATAREI no sentido figurado da palavra — matar o bicho, matar o
tempo — por mais forte que seja a tentação do sentido próprio durante
o horário eleitoral gratuito.

NÃO PECAREI contra a casta idade assim que lá chegar. Por enquanto
estou só a caminho, Senhor!

NÃO FURTAREI, salvo se se tratar de uma boa ideia ou de um adjetivo
feliz que possa trazer um pouco de brilho à minha fosca literatura.

NÃO LEVANTAREI falso testemunho de ninguém, muito menos de ti, que hás por certo de preferir um agnóstico fora do teu templo a um vendilhão dentro dele.

NÃO COBIÇAREI coisas alheias. Deixo-as todas para os filisteus do meu
país, fascinados pelas quinquilharias do que, enchendo a boca, eles chamam de primeiro mundo.

NÃO DESEJAREI a mulher do próximo nem a do remoto. Como sabes, jamais tive paciência de esperar na fila.

EM SUMA, Senhor, vou fazer o humanamente possível para seguir teus
mandamentos. Mas desculpa, agora e na hora de nossa morte, qualquer
eventual escorregão nas cascas que o Diabo espalhou a mancheias pelo
nosso caminho depois de ter comido todas as frutas do teu, para sempre
perdido, Paraíso.

 

José Paulo Paes, Socráticas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Gato da China

Era uma vez
um gato chinês

que morava em Xangai
sem mãe e sem pai,

que sorria amarelo
para o Rio Amarelo,

com seu olhos puxados,
um pra cada lado.

Era um gato mais preto
que tinha nanquim,

de bigodes compridos
feito mandarim,

que quando espirrava
só fazia “chin!”

Era um gato esquisito:
comia com palitos

e quando tinha fome
miava “ming-au!”

mas lambia o mingau
com sua língua de pau.

Não era um bicho mau
esse gato chinês,

era até legal.
Quer que eu conte outra vez?

 

José Paulo Paes, Poemas

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Cadê

Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!

José Paulo Paes, Lé com Cré

José Paulo Paes

José Paulo Paes – Pescaria

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.

José Paulo Paes, Poema para Brincar