Você é mais bonita que uma bola prateada de papel de cigarro Você é mais bonita que uma poça d’água límpida num lugar escondido Você é mais bonita que uma...
Ferreira Gullar
Ferreira Gullar – Os vivos
Os vivos são vorazes são glutões ferozes: até dos mortos comem carnes ossos vozes Se devoram os mortos devoram os outros vivos: pelos olhos e sexo elogios, sorrisos Os vivos...
Ferreira Gullar – Madrugada
Do fundo de meu quarto, do fundo de meu corpo clandestino ouço (não vejo) ouço crescer no osso e no músculo da noite a noite a noite ocidental obscenamente acesa...
Ferreira Gullar – Verão
Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo...
É carnaval, a terra treme: um casal de poetas conversa na praia do Leme! Falam os dois de poesia e dos banhistas que nunca lerão Drummond nem Mallarmé. – E...
Ferreira Gullar – Redundâncias
Ter medo da morte é coisa dos vivos o morto está livre de tudo o que é vida Ter apego ao mundo é coisa dos vivos para o morto não...
Ferreira Gullar – Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e...
Neste leito de ausência em que me esqueço desperta o longo rio solitário: se ele cresce de mim, se dele cresço, mal sabe o coração desnecessário. O rio corre e...
Ferreira Gullar – Poema obsceno
Façam a festa cantem dancem que eu faço o poema duro o poema-murro sujo como a miséria brasileira Não se detenham: façam a festa Bethânia Martinho Clementina Estação Primeira de...
Ferreira Gullar – Visita
no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu...
Ferreira Gullar – O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como...
Ferreira Gullar – Subversiva
A poesia quando chega não respeita nada. Nem pai nem mãe. Quando ela chega de qualquer de seus abismos desconhece o Estado e a Sociedade Civil infringe o Código de...
Esta varanda fica à margem da tarde. Onde nuvens trabalham. A cadeira não é tão seca e lúcida, como o coração. Só à margem da tarde é que se conhece...
Ferreira Gullar – A alegria
O sofrimento não tem nenhum valor Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança...
Ferreira Gullar – Arte poética
Não quero morrer não quero apodrecer no poema que o cadáver de minhas tardes não venha feder em tua manhã feliz e o lume que tua boca acenda acaso das...

