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Fernanda Young

Fernanda Young

Fernanda Young – Sou uma casa completa

Sou uma casa completa.
Tenho recantos em minhas
Dobras, lareira e um belo
Jardim de tulipas negras.

Também sou uma caravela
Que corre ruidosa e
Escorregadia sobre os oceanos
Que conduzem a novos
Continentes.

E uma caneta macia de um
Garçom orgulhoso; ele gosta
De ouvir: – Que caneta boa!
Quando assinam a conta.

Posso ser os elásticos de
Pompom nas chiquinhas de
Uma menina que chora,
Chata, no pátio ao lado.

Ou um simples copo de água
Oferecido a alguém que
Trouxe uma pesada
Encomenda.

Quiçá sou eu, sim, eu.
Eu mesma. Sofisticada e
Demencial. Essa que fala
Demais e diz que te ama,
Que não quer ir, e não quer
Ficar aqui.

Esse aqui que vaga e
Ressente.

Fernando Young, A mão esquerda de vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Às vezes sinto vontade de faltar com a verdade

Às vezes sinto vontade de faltar com a verdade,
Ser cínica, mas nunca vil,
nem mesmo mentirosa.

Omissa?
Não, omitir é para os fracos!
Talvez irônica,
Dúbia.
Charmosa, claro.

Eu contaria um pouco aqui,
Um pouco ali.
Com o tom certo, bem calmo
Ou não – dependendo para quem
Conto.

Os amantes – homens ou mulheres – não me cobrariam tanto,
E eu poderia ter quantos eu quisesse.

Mas é que a verdade é excitante, máscula,
Como uma espada.

Aqueles que gostam da lâmina, os poucos, irão lambê-la.
E eu gosto de ser lambida pela coragem.
A língua que lambe pode se ferir,
Assim como quem diz a verdade.

Por isso decidi contá-la.

Fernanda Young, A mão esquerda de vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Queria dormir

Queria dormir.
Vivo na conjugação do
Eu queria dormir,
Eu queria descansar,
Eu queria dormir
Com você,
Eu queria viajar
Com você.
Eu sou o sujeito da
Conjugação do queria.
E é claro que não devia.
Mas devia também.
É uma conjugação minha.
Eu-queria-e-não-devia.
Eu queria, e como não posso,
Fiz algo que não devia.
Então devia desistir,
Queria.

Fernanda Young, A mão esquerda de vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Só há uma ideia do que a minha natureza

Só há uma ideia do que a minha natureza
entende como paixão.
O corpo reage assim: taquicardíaco,
etílico, esfomeado.
Na ansiedade torno-me aquela que
não suporto,
a mesma que esperava na escada,
querendo ser levada
para algum lugar, longe dali.
O que aguardo é ficar longe
dessa menina que está sentada nos
degraus frios da escada.
E nas horas em que o mármore branco,
dessas horas, horas de uma tabela tonal
cinza-rato, gelam meu sexo, minha pele,
fico em dúvida se quero,
realmente, que o outro chegue.
Duvidar do que desejo angustia tanto,
a ponto de me fazer fugir.
E quando decido ir, ameaço,
testando aquele de quem espero ter atenção.
Deixando tudo mais tenso,
nervoso,
excitante.
Então, molhada eu fico, ainda ali
nos tais degraus de ansiedade,
lisos e frios,
de mármore-medo.

 

Fernanda Young, A mão esquerda de Vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Nada é bom para mim, aprenda

Nada é bom para mim, aprenda.
Eu pareço razoável, até mesmo
Bela, mas sou essa, bem estranha.
E muitas vezes doente.
Não se deixe levar por minha
Tradução de My Funny Valentine,
Eu sou a mais escrota do bairro
De qualquer cidade.
Mas eu irei mudar meu cabelo,
E não será por você.
Vou te contar minha história,
E você irá achar que é mentira.
Tudo que posso te dizer é:
Fique.
Hoje não é o nosso dia,
Mas fique.

 

Fernanda Young, A mão esquerda de Vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Fazer carinho em si mesmo

Fazer carinho em si mesmo
É insatisfatório,
Pois não sabemos o que sentir:
O ser tocado ou o tocar.
Já no erógeno
Onde é mexido há mais do
Que uma pessoa,
Não apenas o eu
Que manipula a mão.
Vencemos a inescrutável
Solidão,
Eu sou você, você é ora
Você, ora outro, ora ela
Entre as minhas pernas,
Na boca,
Nos seios,
E aonde mais houver
Fissuras.

 

Fernanda Young, A mão esquerda de Vênus

Fernanda Young

Fernanda Young – Queria ser simples. De tudo que já quis

Queria ser simples. De tudo que já quis,
juro, esse me parece o mais disparatado
dos desejos. De todas as ideias de
merda que tive, essa é a que mais fere.
Queria não me importar se o Noturno número dois
que escuto é mal interpretado. Porque
afinal não entendo de piano e não posso
dizer que essa é uma merda de uma
interpretação. Mas eu sei que é uma
merda e isso me fere os nervos mais que
os ouvidos. Fere tanto quanto a ideia de
ser simples. Queria ser simples a ponto
de ser querida. Querida por ser querida e
não por ser especial. O especial é
complexo. Raro. Intratável em sua
ausência de singeleza. Porque eu poderia
anunciar que sou delicada, e implorar sem
implorar, por cuidados. Queria ser simples
e ser cuidada com esmero. Porque a minha
delicada simplicidade iria sugerir atenção.
A leveza da simplicidade me traria sopas,
bombons, margaridas. Mas eu ganhei fama
e minha criada acaba de trazer um petisco
que só vende em uma padaria bem longe.

 

Fernanda Young, A mão esquerda de Vênus 

Fernanda Young

Fernanda Young – Há um poema acima de mim

Há um poema acima de mim,
Um que paira na camada sutil e
Iluminada, onde meus braços
– mesmo quando pulo – não alcançam.
Ontem, subi numa cadeira.
A cadeira era manca e temi ficar na ponta dos pés.
O medo, mesmo que me faltasse bem pouco,
Para puxar o fio desse balão,
Não deixou que eu o pegasse.
E quase que por pirraça,
O poema ficou mais longe de mim.
Estou sentada na beira da cama.
A garganta dói pois tenho preso,
Entre paredes de carne vermelho-inflamação,
Um coração que entalei como um sapo.
O sapo das palavras que queremos dizer,
E calamos.
Meu coração-sapo pulsa nervoso e
Quase resignado.
Estou sentada na beira da cama,
Temendo chorar
Com o poema indo embora.
Pois, se eu chorar, terei o rosto – que dizem belo –
Desfigurado.
Não, não posso chorar!
Tem Paris pela janela e bons óculos para encobrir
A cegueira que a tristeza me causa.
Vou vestir um elegante traje,
Chutar a cadeira que me deixou mais manca e delicada,
E comprar um batom.

Fernanda Young, A Mão esquerda de vênus