Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo. Como dói um pesar em cada pensamento! Ah, que penosa lassidão em cada músculo… O silêncio é tão largo, é tão longo,...
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira – Estrada
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho, Interessa mais que uma avenida urbana. Nas cidades todas as pessoas se parecem. Todo o mundo é igual, todo o mundo...
Manuel Bandeira – Carinho triste
A tua boca ingênua e triste E voluptuosa, que eu saberia fazer Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias, A tua boca ingênua e triste É...
Manuel Bandeira – Testamento
O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros — perdi-os… Tive amores — esqueci-os. Mas no maior desespero Rezei: ganhei essa prece. Vi terras...
Manuel Bandeira – Felicidade
A doce tarde morre. E tão mansa Ela esmorece, Tão lentamente no céu de prece, Que assim parece, toda repouso, Como um suspiro de extinto gozo De uma profunda, longa...
Manuel Bandeira – Volta
Enfim te vejo. Enfim no teu Repousa o meu olhar cansado. Quanto o turvou e escureceu O pranto amargo que correu Sem apagar teu vulto amado! Porém já tudo se...
Os poucos versos que aí vão, Em lugar de outros é que os ponho. Tu que me lês, deixo ao teu sonho Imaginar como serão. Neles porás tua tristeza Ou...
O crepúsculo cai, manso como uma bênção. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito… As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu...
Manuel Bandeira – Inscrição
Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja, Repousa, embalsamado em óleos vegetais, O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja, Dançava descuidosa, e hoje não dança mais…...
Manuel Bandeira – Mal sem mudança
Da América infeliz porção mais doente, Brasil, ao te deixar, entre a alvadia Crepuscular espuma, eu não sabia Dizer se ia contente ou descontente. Já não me entendo mais. Meu...
Manuel Bandeira – Tema e voltas
Mas para quê Tanto sofrimento Se nos céus há o lento Deslizar da noite? Mas para quê tanto sofrimento Se lá fora o vento É um canto na noite? Mas...
Manuel Bandeira – Oceano
Olho a praia. A treva é densa. Ulula o mar, que não vejo, Naquela voz sem consolo, Naquela tristeza imensa Que há na voz do meu desejo. E nesse tom...
A sombra imensa, a noite infinita enche o vale… E lá do fundo vem a voz Humilde e lamentosa Dos pássaros da treva. Em nós, – Em noss’alma criminosa, O...
Manuel Bandeira – Mulheres
Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval Paixão Ciúme Dor daquilo que não se pode dizer Felizmente existe o álcool na vida E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume...
Manuel Bandeira – A Antônio Nobre
Tu que penaste tanto e em cujo canto Há a ingenuidade santa do menino; Que amaste os choupos, o dobrar do sino, E cujo pranto faz correr o pranto: Com...

