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Anna Akhmátova

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Sonho mais raramente com ele, graças a Deus

Sonho mais raramente com ele, graças a Deus,
já não imagino que o vejo em toda parte.
A névoa encobre a estrada embranquecida,
as sombras leves já fogem sobre a água.

O dia inteiro os sinos não pararam
de tocar sobre os campos bem arados.
Ainda mais altos são os do mosteiro
de São João que eu vejo lá longe.

No campo, vou colhendo as violetas
que ainda outro dia floresceram
e fico olhando aqueles dois monges
que passeiam pela antiga muralha.

Diante de meus olhos, que eram cegos,
ressurge concreto um mundo inteligível e familiar.
O Deus dos Céus cicatrizou minha alma
com a gélida calma da ausência do amor.

Anna Akhmátova, Antologia poética

Anna Akhmátova

Anna Akhmatova – Raramente penso em ti

Anna Akhmátova

Raramente penso em ti.
Teu destino pouco me interessa.
Mas de minha alma ainda não se apagou
o brevíssimo encontro que tivemos.

Evito, de propósito, tua casinha vermelha,
tua casinha vermelha junto ao rio lamacento;
mas bem sei com que amargura
perturbo a tua ensolarada quietude.

Embora não te tenhas inclinado sobre mim
suplicando-me que te amasse,
embora não tenhas imortalizado
o meu desejo em versos dourados,

secretamente lanço encantamentos para o futuro,
sempre que as noites são de um azul profundo,
e tenho a premonição de um segundo encontro,
um inevitável segundo encontro contigo.

Anna Akhmatova, Poemas Russos

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Canção do último encontro

Anna Akhmátova

Eu me sentia fria e sem forças
mas eram ligeiros meus passos.
Cheguei a pôr na mão direita
a luva da mão esquerda.

Pareciam tantos os degraus;
mas eu sabia que eram apenas três.
Em meio aos plátanos, o outono
murmurava: “Vem morrer comigo!

Fui enganado pelo meu destino
frágil, volúvel, maligno.”
E respondi: “Oh, meu querido,
eu também… morro contigo.”

Esta é a canção do último encontro.
De novo olhei a casa sombria.
No quarto apenas, brilhavam velas
com um fogo amarelado e indiferente.

Anna Akhmátova, Poemas Russos