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Anna Akhmátova

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Aprendi a viver com simplicidade

Anna Akhmátova

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.


Anna Akhmátova, Antologia poética

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Sob o ícone, o tapetinho gasto

Anna Akhmátova

Sob o ícone, o tapetinho gasto.
Está o quarto fresco na penumbra
e, espessa, a hera verde-escura
faz ondular a larga janela.

Das rosas se desprende o perfume,
crepita a lâmpada com um fraco brilho.
Salpicadas de cores, há caixinhas
que pintou a amorosa mão do artesão.

A cortina branqueia a janela…
Teu perfil é afilado e cruel.
Os dedos cobertos de beijos
escondes, esquivo, em teu lenço.

E o coração, mal começando a pulsar,
já está cheio agora de tristeza.
Em minhas tranças desarrumadas, ficou
um leve cheiro de fumaça de charuto.

Anna Akhmátova, Antologia poética

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Foi na lua nova que ele me abandonou

Anna Akhmátova

Foi na lua nova que ele me abandonou,
o meu amigo querido. E daí?
Ele brincava: “Equilibrista,
como hás de viver até o mês de maio?”.

Respondi como a um irmão,
sem ciúmes, sem zangas;
mas, para mim, quatro casacos novos
não compensam pela sua perda.

Assustador é o meu caminho, e arriscado;
mais terrível ainda é a estrada da saudade…
Como é rubra a minha sombrinha chinesa,
e são branquinhas as solas de minhas chinelas.

A orquestra toca uma música bem alegre
e os meus lábios formam um sorriso.
Mas meu coração sabe, ah! o coração sabe
que o quinto camarote está vazio.

Anna Akhmátova, Antologia poética

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Sonho mais raramente com ele, graças a Deus

Anna Akhmátova

Sonho mais raramente com ele, graças a Deus,
já não imagino que o vejo em toda parte.
A névoa encobre a estrada embranquecida,
as sombras leves já fogem sobre a água.

O dia inteiro os sinos não pararam
de tocar sobre os campos bem arados.
Ainda mais altos são os do mosteiro
de São João que eu vejo lá longe.

No campo, vou colhendo as violetas
que ainda outro dia floresceram
e fico olhando aqueles dois monges
que passeiam pela antiga muralha.

Diante de meus olhos, que eram cegos,
ressurge concreto um mundo inteligível e familiar.
O Deus dos Céus cicatrizou minha alma
com a gélida calma da ausência do amor.

Anna Akhmátova, Antologia poética

Anna Akhmátova

Anna Akhmatova – Raramente penso em ti

Anna Akhmátova

Raramente penso em ti.
Teu destino pouco me interessa.
Mas de minha alma ainda não se apagou
o brevíssimo encontro que tivemos.

Evito, de propósito, tua casinha vermelha,
tua casinha vermelha junto ao rio lamacento;
mas bem sei com que amargura
perturbo a tua ensolarada quietude.

Embora não te tenhas inclinado sobre mim
suplicando-me que te amasse,
embora não tenhas imortalizado
o meu desejo em versos dourados,

secretamente lanço encantamentos para o futuro,
sempre que as noites são de um azul profundo,
e tenho a premonição de um segundo encontro,
um inevitável segundo encontro contigo.

Anna Akhmatova, Poemas Russos

Anna Akhmátova

Anna Akhmátova – Canção do último encontro

Anna Akhmátova

Eu me sentia fria e sem forças
mas eram ligeiros meus passos.
Cheguei a pôr na mão direita
a luva da mão esquerda.

Pareciam tantos os degraus;
mas eu sabia que eram apenas três.
Em meio aos plátanos, o outono
murmurava: “Vem morrer comigo!

Fui enganado pelo meu destino
frágil, volúvel, maligno.”
E respondi: “Oh, meu querido,
eu também… morro contigo.”

Esta é a canção do último encontro.
De novo olhei a casa sombria.
No quarto apenas, brilhavam velas
com um fogo amarelado e indiferente.

Anna Akhmátova, Poemas Russos