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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – A pequena pátria

A pequena pátria; a do pão;
a da água;
a da ternura, tanta vez
envergonhada;
a de nenhum orgulho nem humildade;
a que não cercava de muros
o jardim nem roubava
aos olhos o desajeitado voo
das cegonhas; a do cheiro quente
e acidulado da urina
dos cavalos; a dos amieiros
à sombra onde aprendi
que o sexo se compartilhava;
a pequena pátria da alma e do estrume
suculento morno mole;
a da flor múltipla e tão amada
do girassol.

Eugénio de Andrade, Os lugares do lume

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – O amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade, Obscuro domínio

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – A figueira

Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
-me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de Agosto
apenas me roçava, e partia.

Eugénio de Andrade, Poesia

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Poema à Mãe

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal…
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

 

Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Green God

Trazia consigo a graça
Das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
Em sereno desafio
Com as margem quando desce.
Andava como quem passa
Sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
Cresciam troncos dos braços
Quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
O corpo que lhe tremia
Num ritmo que ele sabia
Que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
Porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
Enleado na melodia
De uma flauta que tocava.

 

Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – As palavras

São como um cristal
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.

Outras, orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
As águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são de luz
E são noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
As recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

 

Eugénio de Andrade, Coração do dia

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
Em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro,
Era como se todas as coisas fossem minhas:
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
Porque ao teu lado
Todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
Era no tempo em que meus olhos
Eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
Uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
Tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

 

Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Último poema

É Natal, nunca estive tão só. 
Nem sequer neva como nos versos 
do Pessoa ou nos bosques 
da Nova Inglaterra. 
Deixo os olhos correr 
entre o fulgor dos cravos 
e os dióspiros ardendo na sombra. 
Quem assim tem o verão 
dentro de casa 
não devia queixar-se de estar só, 
não devia. 

 

Eugénio de Andrade, Rente ao dizer

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – As mãos e os frutos

Shelley sem anjos e sem pureza,
Aqui estou à tua espera nesta praça,
Onde não há pombos mansos mas tristeza
E uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
Das casas não vale a pena porque estão
Gastas pelo relógio e pelas luas
E pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
Que dizer-te desta história de maneira
Que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
Tecendo estes versos e a noite
Que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.

 

Eugénio de Andrade, Cincos séculos de sonetos Portugueses

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Soneto

Amor desta tarde que arrefeceu
As mãos e os olhos que te dei;
Amor exato, vivo, desenhado
A fogo, onde eu próprio me queimei;

Amor que me destrói e destruiu
A fria arquitetura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
Outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
Para que o frio que me queima os olhos
Me trespasse e me suba ao coração;

Só a ti canto, que não há desastre
De onde não possa ainda erguer-me
Para encontrar de novo a tua face.

 

Eugénio de Andrade, Cinco séculos de sonetos Portugueses