Amar-te assim desvelado entre barro fresco e ardor. Sorver entre lábios fendidos o ardor da luz orvalhada. Deslizar pela vertente da garganta, ser música onde o silêncio flui e se...
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade – Abril
Brinca a manhã feliz e descuidada, como só a manhã pode brincar, nas curvas longas desta estrada onde os ciganos passam a cantar. Abril anda à solta nos pinhais coroado...
Tinham o rosto aberto a quem passava. Tinham lendas e mitos e frio no coração. Tinham jardins onde a lua passeava de mãos dadas com a água e um anjo...
Eugénio de Andrade – Litania
O teu rosto inclinado pelo vento; a feroz brancura dos teus dentes; as mãos, de certo modo, irresponsáveis, e contudo sombrias, e contudo transparentes; o triunfo cruel das tuas pernas,...
Eu amei esses lugares onde o sol secretamente se deixava acariciar. Onde passaram lábios, onde as mãos correram inocentes, o silêncio queima. Amei como quem rompe a pedra, ou se...
Não sei quem, nem em que lugar, mas alguém me deve ter morrido. Senti essa morte num arrepio da tarde. Qualquer amigo, um dos vários que não conheço e só...
Respira. Um corpo horizontal, tangível, respira. Um corpo nu, divino, respira, ondula, infatigável. Amorosamente toco o que resta dos deuses. As mãos seguem a inclinação do peito e tremem, pesadas...
Os navios existem, e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios. Na areia branca, onde o...
Eis como o verão Chega de súbito, Com seus potros fulvos, Seus dentes miúdos, Seus múltiplos, longos Corredores de cal, As paredes nuas, A luz de metal, Seu dardo mais...
A pequena pátria; a do pão; a da água; a da ternura, tanta vez envergonhada; a de nenhum orgulho nem humildade; a que não cercava de muros o jardim nem...
Eugénio de Andrade – O amor
Estou a amar-te como o frio corta os lábios. A arrancar a raiz ao mais diminuto dos rios. A inundar-te de facas, de saliva esperma lume. Estou a rodear de...
Este poema começa no verão, os ramos da figueira a rasar a terra convidam a estender-me à sua sombra. Nela me refugiava como num rio. A mãe ralhava: A sombra...
No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos. Tudo porque tu ignoras que há leitos...
Eugénio de Andrade – Green God
Trazia consigo a graça Das fontes quando anoitece. Era um corpo como um rio Em sereno desafio Com as margem quando desce. Andava como quem passa Sem ter tempo de...
São como um cristal As palavras. Algumas, um punhal, Um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: Barcos ou beijos, As águas estremecem. Desamparadas, inocentes, Leves....

