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Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – Descobertas

Descobre-se que a paixão,
a paixão e a primavera,
se são paralelas são
dois termos da mesma espera.

Espera encantada ou não,
ambas não passam de mera,
febril aproximação
da jaula aberta da fera,

tremor contínuo da mão
que agarra o gradil e enterra
as unhas na solidão
que força mas não descerra.

Mordida de comunhão,
no tronco o dente da serra,
no dente o grito do grão,
e a boca aberta da terra

recebe e fecunda o chão
com os pedaços que a pantera
desmembrou na confusão
com o corpo que já não era

sequer a gazela e em vão
se debate e dilacera
de tanta sofreguidão.
A véspera desespera.

Bruno Tolentino, A Balada do cárcere

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – Ímpar

“E eu, que odeio tudo o que recordo
em meu penoso, sórdido exercício,
a harmonia mais frágil que difícil,
mais passível de encanto que de acordo;

eu, que hoje escuto o rouxinol e o tordo
entre grades e névoas, desde o início
sabia que a beleza é um precipício
e que o mesmo Verão consume a cor

do efêmero que acende… Eu, que aceitando
a imperfeição de tudo iria dar
com a perfeição moral de vez em quando,

agora, aqui, na luz crepuscular
deste lugar vazio, tenho um bando
de visões, só não posso ter um par.”

Bruno Tolentino, A balada do cárcere

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – O que eu por fim lhe disse:

– As voragens da carne
conheço-as muito bem
e as confusões do coração também,
mas não posso enganar-me:
se me ficaram os meios
já não tenho os motivos.

Tens dois olhos altivos,
mas duros, muito duros porque cheios
de coisas mortas, dessa inútil carga
que te legou aquela noite amarga
em que uma vida jovem foi perdida.

Admito que existe
esse instante suspenso
entre o nada e o que foi aquela vida,
mas olha-o: é a escuridão que o traz, que insiste
em não soltar as folhas
que o vento sacudiu e não levou
aquele dia,
mas uma tarde qualquer afinal levaria.

No entanto, quando olhas
agora uma vez mais a luz pintar
os muros desta cela, esta luz fria,
rápida como o voo
de uma gaivota branca como o lenço
que um dia fez Desdêmona chorar,
em teu olhar
há como um fim de pesadelo, intenso,
eu sei, mas de que um dia,
um dia, quase manso
como o falcão viúvo e o último ganso,
tu também, meu irmão, vais acordar.

Bruno Tolentino, A balada do cárcere

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – A gralha

É então que aquele pária das próprias ilusões,
o encarcerado que ninguém visita,
gruda-se às grades como a parasita
ao fim das estações
e, a sós com os nevoeiros, se limita
a desfolhar visões.

Não tendo a quem contar que necessita,
Senhor, do que lhe pões
fora de mão segundo Tua estrita
e amarga disciplina, aos encontrões
contra si mesmo desenlaça a fita
mais puída da névoa e espalha as confissões.

Pobre infeliz! Nunca tem mais que a bruma e, aflita,
só entre assombrações,
sua alma pavoneia-se, torna-se a gralha, imita
os gritos do pavão ciscando entre os pinhões.
Se um som assim te irrita,
leitor, fecha este livro e vai ouvir canções…

Bruno Tolentino, A balada do cárcere

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – O pavão

Por lá o Outono chega anunciado
pelos gritos agudos do pavão
dilacerando o ar; é só então
que se percebe o dardo
vindo da sombra, o arpão
da última luz nas folhas de um para o outro lado.

O outro lado das sombras que se estiram no chão
como mais um bordado
da Penélope* fria que tece a escuridão.
Pobre animal! Começa o baile temporão
e ele o anuncia aos gritos, seu leque depenado
pluma por pluma na penúltima estação…

Quando acabar de se fechar a mão
que a luz cadente estende ao povoado
das sombras que não vão
a parte alguma, o último emblema do Verão
irá ciscar sozinho, como que envergonhado,
nas agulhas caídas do pinheiral gelado.

É por isso, por causa da desaparição
de um Estio tão breve num bailado
tão rápido, é por isso que o pavão
trespassa o ar, grito por grito apaixonado,
e a reverberação
da luz nas folhas se parece tanto a um dardo.

 

Bruno Tolentino, A balada do carcere

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino – Um prelúdio

Amadureci aos poucos,
cresci muito devagar
como os álamos e os loucos
e acabei indo morar

na Casa dos Homens Ocos,
um charco pardo ao luar
entre o tempo morto, os roucos
rugidos do vento e o mar.

Lá se vive sem querer;
lá ouvi uma elegia;
dou-a aqui tal qual ouvi-a

ao cair do entardecer
sobre a charneca vazia,
os pântanos que há no ser.

 

Bruno Tolentino, A balada do cárcere