Com que doçura esta brisa penteia a verde seda fina do arrozal – Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida lua, nem o suspiro do cristal. Com que doçura...
Cecília Meireles
Cecília Meireles – Pássaro
Aquilo que ontem cantava já não canta. Morreu de uma flor na boca: não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede, e, em verdade, tendo asas, fitava...
Fiz uma canção para dar-te; porém tu já estavas morrendo. A Morte é um poderoso vento. E é um suspiro tão tímido, a Arte… É um suspiro tímido e breve...
Cecilia Meireles – Cantar
Cantar de beira de rio: água que bate na pedra, pedra que não dá resposta. Noite que vem por acaso, trazendo nos lábios negros o sonho de que se gosta....
Alta noite, lua quieta, muros frios, praia rasa. Andar, andar, que um poeta não necessita de casa. Acaba-se a última porta. O resto é o chão do abandono. Um poeta,...
Cecilia Meireles – Descrição
Amanheceu pela terra um vento de estranha sombra, que a tudo declarou guerra. Paredes ficaram tortas, animais enlouqueceram e as plantas caíram mortas. O pálido mar tão branco levantava e...
Como se morre de velhice ou de acidente ou de doença, morro, Senhor, de indiferença. Da indiferença deste mundo onde o que se sente e se pensa não tem eco,...
Onde estão as violetas? Na mão de etéreos meninos Que enterram flores na areia, Na areia consecutiva. Túmulos de beija-flores São essas vagas colinas Sem consistência nenhuma Sob as mãos...
Os peixes de prata ficaram perdidos, com as velas e os remos, no meio do mar. A areia chamava, de longe, de longe, ouvia-se a areia chamar e chorar! A...
Início » Não me peças que cante, pois ando longe, pois ando agora muito esquecida. Vou mirando no bosque o arroio claro e a provisória flor escondida. E procuro minha alma...
Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Em números me embaraço e perco sempre a medida. Se penso encontrar saída, em vez de abrir um compasso, protejo-me...
Cecília Meireles – O rei do mar
Muitas velas. Muitos remos. Âncora é outro falar… Tempo que navegaremos não se pode calcular. Vimos as Plêiades. Vemos agora a Estrela Polar. Muitas velas. Muitos remos. Curta vida. Longo...
Não te fies do tempo nem da eternidade que as nuvens me puxam pelos vestidos, que os ventos me arrastam contra o meu desejo. Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,...
De um lado, a eterna estrela, e do outro a vaga incerta, meu pé dançando pela extremidade da espuma, e meu cabelo por uma planície de luz deserta. Sempre assim:...
Neste longo exercício de alma… Ciência, amor, sabedoria, – tudo jaz muito longe, sempre… (Imensamente fora do nosso alcance!) Desmancha-se o átomo, domina-se a lágrima, vence-se o abismo: – cai-se,...

