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Caio Meira

Caio Meira

Caio Meira – II

Cinco da manhã. Subo a escadaria de Montmartre
esmagando, na mão direita, a carta do diretor
do internato que relata a expulsão do meu filho.
Ele terá agora que vir morar comigo em Paris.
O menino saberá então que caí na vida, que
acompanho velhos gordos e bêbados em táxis e
que às vezes danço nua para completar o
mês. Há anos, porém, não beijo ninguém na boca.

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – I

Minha vida, a partir desse ponto, se torna
tão tênue quanto o fio da minha espada.
Essa sentença, apesar de não ser prévia,
não poderá ser postergada: ato derradeiro, do
qual não há retrocesso. Nem avanço. Se minha
casa passa a ser meu passo, se sou um ou se
somos, se tiver de vender minha mulher
para o bordel mais próximo, se não puder mais
cultivar amigos ou desafetos, terei que ter apenas
o cuidado de não dormir duas vezes no mesmo
lugar. Esse código, jamais escrito, que não pode
nem mesmo ser pronunciado, está doravante
gravado nas fibras do meu corpo.

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Uma separação

procuro pelo ípsilons e dáblius que cortaram nossos lábios,
pelos espaços de emes e enes e eles e esses que trançaram
um dia nossa línguas, procuro pelas vogais gravadas
na clareira do seu corpo, procuro pelo poema que se
desprendeu do abraço primeiro, do primeiro sorriso, do
beijo inicial agora perdido entre tantas letras desferidas
ao encontro um do outro. procuro por minha voz ainda
ecoando ou vibrando nos pavilhões dos seus ouvidos.
se minhas cordas vocais vibraram e emitiram palavras
no afã de indicar coisas, pessoas, ações ao
alcance ou distantes de mim, se chegamos até aqui
nos perguntando e nos respondendo,
sendo inquiridos por vozes as mais remotas,
procuro agora pelos limites ao meu redor em que você
possa gravitar, pelas órbitas de todas as coisas
que um dia brilharam ou recenderam à chuva nos
dias que atravessamos. procuro pela voz que materialize
minha respiração na sua boca, que seja o fluxo do
meu sangue batendo forte no seu peito. se estive
tantas vezes diante da sua mudez, se articulei
canhestramente sons que desfalecerem tão logo
pronunciados, procuro por pronúncia possível
para a palavra do nosso amor, o amor, o amor,
que resiste a morrer em minha vida

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Uma Canção

tantas vezes eu me sinto passageiro clandestino
do meu corpo, como embarcado num vagão
que corta a cidade desde o subúrbio, onde moram
ou devem morar poetas, amantes e demais revolucionários,
segundo Platão, embarcado nessa viagem, nessa origem
periférica, longínqua, estrangeira, trazendo sem permissão
sotaques, palavras e vontades que se realizam ocultamente
nas minhas mãos, por intermédio delas, quando acaricio seu corpo
com meu corpo, digitando música no teclado das suas
costelas ou desenhando em sua pele as imagens proibidas,
secretas, bastardas, do poema pelo qual você pergunta
há tanto tempo, cadê meu poema, você disse tantas
vezes, ou talvez você nunca tenha pedido, talvez tenha sido eu a
ter visto um poema saltar ilícito da sua boca para sobrevoá-la, dissimulado, um poema enodado em seus cabelos
há tanto tempo, um poema ainda trêmulo, sondando espaço e
tempo em nosso olhar mútuo, na órbita da nossa
vida e em nosso espaço e tempo, esse tempo que
nos percorre, mas também o tempo que se amontoa
e nos dá as tramas que se amarram entre nós a contrapelo
de todo princípio para infringir vigências e efeitos dessa
viagem em que sou passageiro, como uma folha ao vento,
mas que vigora em mim como um contrato sem promessa, sem
celebração, a não ser o próprio ato que escapa de si mesmo, o
próprio delito de lhe escrever essas palavras com a luz dos meus
olhos

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Uma noite

na webcam a mudez branca do seu corpo
nu, aromas brancos que clareiam um sorriso franco,
a brancura do lençol que recebe seu corpo
sobre a cama, corpo que desnuda a cama,
o espaço em torno dos seus olhos processam, iluminados,
a brandura das paredes que envolvem seu corpo a
cada vez mais branco à medida que preenche
todo o espaço claro do quarto, nu
diante da tela pasma do computador, da câmera
assustada que envia violentamente para o espaço
o clarão de sua nudez que ilumina o mundo,
meu mundo abismado pelas letras
claras desenhadas na alvura de sua pele clara,
branca e clandestina que sorri o sorriso dessa noite

Caio Meira, Uma romance

Caio Meira

Caio Meira – Uma tarde

nossa vida se desentranha de si mesma como quem se pesca
a si mesmo
como se diz lá em goiás de quem sai
pra pescar à tarde e volta pra casa sem um peixe sequer
sem que se cumpra a tarde de pescaria sem
que um peixe, por menor que seja,
morda a isca e seja puxado pra fora
d’água
diz-se desse pescador sem o peixe, da pescaria sem
a captura, diz-se
que voltou pra casa com o dedo enfiado
no cu, assim pensei em todos esses anos
de nossas vidas com o dedo enfiado no cu
sem cumprir nossa viagem
nessa tarde em que ficamos lado a lado ou qualquer outra
voltando pra casa saindo
de casa entrando saindo de casa sem
a captura cotidiana efetiva total dissimulada espontânea
plebeia ilusória
falsa original sofrida inventada artificial postiça parcial
narrada régia
fingida imaginária criadora quimérica fantasiosa elaborada
chorada prosaica por todos esses anos com o dedo enfiado
sem capturar nossa tarde, com seus cheiros e brilhos,
as tardes
que escoam pelos dedos e pelos cabelos e caem
como meus pelos e cabelos que agora entopem os ralos
e canos
dessa tarde em que circulamos agora

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Um beijo

há tanto tempo envolvido comigo mesmo, com o que me navega
sob a pele, patinando pelas paredes que me encerram sem fim nem
começo

há tanto tempo comigo circulando por mim adentro, à beira desse
passo que não se quer dar para fora do vórtice de que provenho

há quanto tempo não me abro ou me descasco ou atravesso as poucas
camadas que contém meu derramamento implacável
há quanto tempo não beijo o beijo que agora beijo, esse movimento
que se desprende de mim e faz da

minha boca

o fim e o começo de mim, o fim e o começo da minha vida se
gravando na sua, ou da sua vida escorrendo pra dentro da minha,

um beijo que se alastra rasgando a geografia do meu corpo
que se abriga no seu corpo da efusão de desenhos que se
tatuam na minha fronte

um beijo que me arremessa contra cada um dos 32 espaços em que
se divide o caminho dos ventos que agora, sinto, terei de percorrer
nesse beijo que me desabriga, solidamente,

de qualquer fim e qualquer começo

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Alento

Quando mais nada houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir

 

Caio Abreu, O essencial da década de 1970

Caio Meira

Caio Meira – Um sorriso

14, 23, 72, quantos músculos nesse sorriso, mais, quantos
dentes, a força, de onde vem a instrução que o
dispara em sua face e o inscreve na extremidade que divide o
dentro e o fora do seu corpo, do quê,

¿ onde sorri seu sorriso, sorri nos meus olhos, sorri no
espaço que nos separa nessa sala, brilha no escuro de que
noite, que nau com todas as velas pandas vem brincar
nas suas flâmulas, onde nasceu,

não como ideia, nem como vontade, a contrapelo
do mundo que o enquadra, ao revés de todas as caras guardadas
e mantidas à sua disposição para serem
lançadas quando a ocasião se apresenta,

não esse sorriso, incontido e inconsútil, ao perfurar as
inúmeras camadas que a compõem, indo e
vindo entre o que você tem de matéria e o
imaterial que infla sua carne,

não esse sorriso que se evadiu de você,
mas que é tão você que se agarra a sua imagem mesmo
depois de ter se ido, não esse sorriso que se
desembaraça do seu corpo e o sobrevoa,

e me assombra, e me assoma, ocorrendo em mim, me
percorrendo sinuoso e curvilíneo, esse sorriso sem ardis
mas que me queima, aceso desde a fonte desatinada
e seus coloridos imprudentes, esse sorriso agora

em minha boca

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Um abraço

quando nos encontramos e nos abraçamos por apenas
alguns segundos, quando coloquei minha cabeça ao lado
da sua e o seu tronco por poucos instantes se colou
ao meu tronco, com minha mão pousada nas suas
costas, sobre sua pele, sobre sua coluna
vertebral, nisso que se define normalmente como um abraço
de cumprimento, de duas pessoas que não se veem há
algum tempo e por algum tempo se abraçam
para celebrar a alegria do encontro, do reconhecimento
do rosto, do corpo, da vida mútua, esse abraço
comemora, numa pequena intimidade, um encontro,
ainda que, de modo furtivo, um pequeno lapso de tempo, dois ou
três segundos, pouca coisa mais ou menos do que
isso, esse abraço que envolve meu tronco no seu tronco, de
onde brota o seu corpo, de onde nascem os seus membros
e por onde circulam fluidos e voltagens elétricas em
rajadas ínfimas regulando o tônus que dá integridade ao
seu corpo, que faz com que seu corpo esteja de pé,
na minha frente, comandando seus braços a se entrelaçarem
nos meus nessa configuração que caracteriza o abraço, esse e
qualquer outro, nesse abraço em que nossos corpos se tocaram e
que por parcos segundos senti sob a minha
mão suas costas, sua espinha dorsal e suas costelas sob meus dedos,
em que senti ou intuí que seu coração batia ali dentro
comandando a maquinaria do seu corpo, impulsionando
sua vida, pensamentos, sonhos, memórias, a prosseguir
no dia, no tempo, sob a minha mão espalmada em
suas costas, sob a pressão delicada (ou dedicada) dos
meus dedos, o arcabouço que protege sua vida,
a vida que circula em seu tronco, por míseros instantes
colados ao meu tronco, quando seus seios se
colaram ao meu peito, quando seu coração
se aproximou do meu pelo tempo que costuma
durar o abraço, na duração dos braços e do tronco,
na duração do corpo, da mão espalmada sobre suas costas,
no tempo nem imenso nem ínfimo que perdurou
nesse abraço em que se abraçaram as vidas, os sonhos,
os pensamentos, os sorrisos entrelaçados, como os braços,
como os troncos aproximados, unos quem sabe, durante
um espaço de tempo incomensurável, eu diria, mas
efetivamente sentido pelo corpo e transmitido pelos meios
elétricos e químicos ao lugar em que se dá a geração
destas palavras, em que brotam as ideias que se
armazenam e perduram no meu corpo, que se abraçam à minha
vida a partir daquele abraço que pouco ou quase
nada durou em matéria de tempo cronológico, mas que
insiste ainda agora, aqui, quando me invade a forma
do seu tronco colado ao meu naquele dia em que nos
encontramos

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Um amor

o tempo de uma hora não é o tempo de uma
hora, uma noite não é uma noite, uma madrugada feita
de vários anos, feita também de milhares de reais, uma
manhã que se aproxima com seus tempos, seus dinheiros,
suas fotos, suas cirurgias, seus cortes de cabelos,
com os filhos que se desprenderam de tardes e noites,
com concursos mal feitos e empregos meia-boca, o fim da
noite que se vai cheia de livros não lidos, suas mãos, as mais
macias, suaves e carinhosas de todo o planeta, o tempo
que se crava em minhas costas ou que acaricia meus cabelos,
o tempo em refluxo no meu esôfago, meu tempo ao lado
do seu tempo, em nossos genitais, em nossa cama,
o tempo em cápsulas ocultas que nos aguardam para
explodir, para disparar como um alarme de carro
dispara na madrugada, ou para embalar nossos
brindes, nossos olhares, o tempo engarrafado que
bebemos como licor antes de dormir, o tempo de vinte anos
em poucos minutos, de mãos dadas, chorando às 3 da
manhã, sorrindo ou se assustando, o tempo do coração
que não disparou como alarme de carro, mas que bate
compassado e assegura a imortalidade do nosso romance
entrelaçado nos segundos e anos que ataram o meu corpo
no seu, um amor

 

Caio Meira, Romance

Caio Meira

Caio Meira – Uma Manhã

um dia que não começa enquanto suas circunstâncias, as das suas
mãos e da sua boca, não definem o peso com que a luz pousa nas
suas curvas, que agora observo

um dia que vem ganhando aos poucos os fenômenos que compõem
sua pele, a gravura que sobe e constrói suas linhas e colunas

um dia que se desembaraça do seu sono entre os pequenos tremores e
barulhos que acendem seu tônus, suas ranhuras e penugens

um dia que virá como uma pancada nesse repouso que ainda paira
sobre a cama, que sobrevoo ainda aquecido pelo motor do seu
braço

um dia que se levanta nos orientes ainda guardados sob o lençol que
contém sua nudez emulada nas sombras que persistem pelo quarto

um dia que só principia quando você por fim me desperta

Caio Meira, Romance