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Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Soneto da Conciliação

Que o amor não me iluda, como a bruma
que esconde uma imprevista segurança.
Antes, sustente o chão em que descansa
o que se irá, perdido como a espuma.
Veja que eu me elegi, mas sem nenhuma
razão de assim fazer, e sem lembrança
de aproveitar apenas a esquivança
de que o amor não prescinde em parte alguma.
Que também não se alheie ao que esclarece
o motivo real, de uma oferta,
reunir o acessório e o imprescindível.
Antes, atente a tudo o que se tece
distante do seu dia inconsumível
que dá certeza à noite mais incerta.

Lêdo Ivo, Acontecimento do soneto

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Soneto cor-de-rosa

O meu amor é apenas um dorso
que se deixa dourar pelo cair da tarde.
Só o ar que respiro conhece o tesouro
que guardo, em sigilo, num mundo de alardes.

Quando a alvura da tarde se transmuda
num negror de pentelhos, e a caliça
das estrelas me cega, um delta de betume
numa mulher deitada me enfeitiça.

E a noite, que suprime a forma dos gasômetros
e corrói a carcaça dos navios,
nas galáxias de asfalto finca as paliçadas

que escondem os amantes num horizonte
onde os fogos escorrem como rios
entre a rósea bainha e a ardida espada.

 

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – O Viajante

Saio de Paris para entrar na Itália
Sei agora afinal que a vida não é sonho
e o mundo é um só.
Cavalo bravo, o dia inclina-se e bebe a água
das represas que doam as luzes da terra.
Viajo: tudo é eterno e fabuloso.
Entre Florença e Roma, na linha do universo,
limoeiros florescem.
E a beleza do mundo cai sobre mim e unge-me.
E o céu azul desaba, construção de pássaros.

 

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – O olhar de Deus

A escada do bordel range sob nossos pés,
Na poeira do tapete esfiapado
oculta-se o olhar de Deus.
Não somos dignos de ter a altíssima testemunha
na hora em que pecamos.
Melhor fora que nenhum deus nos observasse
quando fornicamos
ou quando, após o coito, acendemos
um cigarro.

Não somos dignos de piedade.
Melhor fora que Deus não existisse
e vivêssemos todos fora de Seu olhar incômodo.

 

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Hora de falar

Cala-te, boca!
Mas como posso calar
se até as pedras da rua
falam e gritam sem parar?

Que falem até os mudos
e os próprios cegos digam
o que viram sem ver.
E mesmo os surdos contem
os gritos que subiram
da treva à luz do dia.

Se agora os mortos falam
com suas vozes de sangue
e seus corpos sumidos,
que, no coro dos vivos,
ninguém silencie.

 

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Nossa senhora da corrente

Só Deus e os morcegos habitam
a Igreja de Nossa Senhora da Corrente.
O espírito invisível paira entre os altares
roídos e o vento de Penedo
cega lentamente os olhos dos santos
que os turistas e antiquários não conseguiram roubar.
Deus é barroco. Deus é como os morcegos:
voando à noite entre os espaços estrelados
procura chupar o sangue dos homens
que enegrecem o dia com os seus pecados.
Na abóbada da igreja que o rio às vezes invade
os morcegos escondem o céu alegórico
eternamente sonegado aos pecadores.
O céu negro dos homens! Sob o soalho avariado
os ratos se inclinam à Presença eucarística.
E Nossa Senhora da Corrente, padroeira dos ratos
e morcegos,
entre flores de papel e velas fedorentas
compartilha da solidão divina.
Ó Mãe dos homens, que sorri radiosa em seu abandono
como a minha própria mãe, rogai por mim!

 

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – O Alvo

Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não
irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e admiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las
de outro planeta.

Não me comove o irretornável nem o tempo caído.
Em jogo descoberto, crio minha emoção
e à janela contemplo a noite formal
e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros.
O que se perdeu, vai-se embora, como os anéis
separados das mãos, como a ventania
se afasta das bandeiras no momento das bonanças.
Sono perdido; zonas de transição que serão eternamente
minhas; luz oculta em covil
não me volto para achar-vos. E sempre adiante busco
minha paisagem impor-se nas paliçadas alheias

 

Lêdo Ivo, Os Melhores Poemas

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Os morcegos

Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteira no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
“Estes filhos chupam o nosso sangue”, suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito
irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre as nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

 

Lêdo Ivo, Os Melhores Poemas