Os antigos invocavam as Musas. Nós invocamo-nos a nós mesmos. Não sei se as Musas apareciam — Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. — Mas sei que...
Fernando Pessoa
Os teus olhos são negros e macios Cristo na cruz os teus seios esguios E o teu perfil princesas no degredo… Entre buxos e ao pé de bancos frios Nas...
Fernando Pessoa – Visão
Há um país imenso mais real Do que a vida que o mundo mostra ter Mais do que a Natureza natural À verdade tremendo de viver. Sob um céu uno...
Fernando Pessoa – Não Digas Nada!
Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver… Não digas nada Deixa...
Fernando Pessoa – A noite
O silêncio é teu gêmeo no Infinito. Quem te conhece, sabe não buscar. Morte visível, vens dessedentar O vago mundo, o mundo estreito e aflito. Se os teus abismos constelados...
Nesta vida, em que sou meu sono, Não sou meu dono. Quem sou é quem me ignoro e vive Através desta névoa que sou eu Todas as vidas que eu...
Fernando Pessoa – A antiga canção
A antiga canção, Amor, renova agora. Na noite, olhos fechados, tua voz Dói-me no coração Por tudo quanto chora. Cantas ao pé de mim, e eu ‘stou a sós. Não,...
Quando eu não te tinha Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo… Agora amo a Natureza Como um monge calmo à Virgem Maria, Religiosamente, a meu modo, como...
Há em tudo que fazemos Uma razão (?) singular: É que não é o que qu’remos. Faz-se porque nós vivemos, E viver é não pensar. Se alguém pensasse na vida,...
Cansa ser, sentir dói, pensar destrui. Alheia a nós, em nós e fora, Rui a hora, e tudo nela rui. Inutilmente a alma o chora. De que serve? O que...
Dá a surpresa de ser. É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro. Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois...
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente...
Quando as crianças brincam E eu as oiço brincar, Qualquer coisa em minha alma Começa a se alegrar. E toda aquela infância Que não tive me vem, Numa onda de...
Quando eu me sento à janela P’los vidros qu’a neve embaça Vejo a doce imagem d’ela Quando passa… passa.… passa… N’esta escuridão tristonha Duma travessa sombria Quando aparece risonha Brilha...
Álvaro de Campos – Todas as cartas de amor são ridículas…
Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas...

