Miguel Torga

Miguel Torga – Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida  Mo consente.  Mas a minha aguerrida  Teimosia  É quebrar dia a dia  Um grilhão da corrente.  Livre não sou, mas quero a liberdade.  Trago-a dentro de mim como um destino.  E vão lá desdizer o sonho do menino  Que se afogou e flutua  Entre nenúfares de serenidade  …

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Miguel Torga

Miguel Torga – Natal divino

Natal divino ao rés-do-chão humano,  Sem um anjo a cantar a cada ouvido.  Encolhido  À lareira,  Ao que pergunto  Respondo  Com as achas que vou pondo  Na fogueira.  O mito apenas velado  Como um cadáver  Familiar…  E neve, neve, a caiar  De triste melancolia  Os caminhos onde um dia  Vi os Magos galopar…    Miguel …

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Miguel Torga

Miguel Torga – Mãe

Mãe:  Que desgraça na vida aconteceu,  Que ficaste insensível e gelada?  Que todo o teu perfil se endureceu  Numa linha severa e desenhada?  Como as estátuas, que são gente nossa  Cansada de palavras e ternura,  Assim tu me pareces no teu leito.  Presença cinzelada em pedra dura,  Que não tem coração dentro do peito.  Chamo …

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Miguel Torga

Miguel Torga – A Baco

Vou-te cantando, Baco! Não pela colheita de hoje, que é pequena, Mas pela de amanhã, muito maior! Vou-te pondo nos cornos estas flores, Que não querem ser líricas nem puras, Mas humanas, sinceras e maduras. Vou-te cantando, e vou cantando o sol, A terra, a água, o lume e o suor. Vou erguendo o meu …

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Miguel Torga

Miguel Torga – Ressurreição

Porque a forma das coisas lhe fugia, O poeta deitou-se e teve sono. Mais nenhuma ilusão lhe apetecia, Mais nenhum coração era seu dono. Cada fruto maduro apodrecia; Cada ninho morria de abandono; Nada lutava e nada resistia, Porque na cor de tudo havia Outono. Só a razão da vida via mais: Terra, sementes, caules, …

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Miguel Torga

Miguel Torga – Nasce mais uma vez

Nasce mais uma vez,  Menino Deus!  Não faltes, que me faltas  Neste inverno gelado.  Nasce nu e sagrado  No meu poema,  Se não tens um presépio  Mais agasalhado.  Nasce e fica comigo  Secretamente,  Até que eu, infiel, te denuncie  Aos Herodes do mundo.  Até que eu, incapaz  De me calar,  Devasse os versos e destrua …

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Miguel Torga

Miguel Torga – Lezíria

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa Que se debruça e já não mostra o rosto. Cantam, plantadas n’ água, Ao sol e à monda neste mês de Agosto. Cantam o Norte e o Sul duma só vez. Cantam baixo, e parece Que na raiz humana dos seus pés Qualquer coisa apodrece. Miguel Torga, …

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