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Noémia de Sousa

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Abri a porta, companheiros

Ai abri-nos a porta,
abri-a depressa, companheiros,
que cá fora andam o medo, o frio, a fome,
e há cacimba, há escuridão e nevoeiro…
Somos um exército inteiro,
todo um exército numeroso,
a pedir-vos compreensão, companheiros!

E continua fechada a porta…

Nossas mãos negras inteiriçadas,
de talhe grosseiro
– nossas mãos de desenho rude e ansioso –
já cansam de tanto bater em vão..

Aí companheiros,
abandonai por momentos a mansidão
estagnada do vosso comodismo ordeiro
e vinde!
Ou então,
podeis atirar-nos também,
mesmo sem vos moverdes,
a chave mágica, que tanto cobiçamos…
Até com a humilhação do vosso desdém,
nós a aceitaremos.

O que importa
é não nos deixarem morrer
miseráveis e gelados,
aqui fora, no noite fria povoada de xipocués…

“O que importa
é que se abra a porta”.

Noémia de Sousa, Sangue negro

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Este poema fosse

Se este poema fosse mais do que simples
sonho de criança…
Se nada lhe faltasse para ser total realidade
em vez de apenas esperança…
Se este poema fosse a imagem crua da verdade,
eu nada mais pediria à vida
e passaria a cantar a beleza garrida
das aves e das flores
e esqueceria os homens e as suas dores…
— Se este poema fosse mais do que mero
sonho de criança.

Ai o meu sonho…
Ai a minha terra moçambicana erguida
com uma nova consciência, digna e amadurecida…
A minha terra cortada em toda a sua extensão
por todas essas realizações que a civilização
inventa para tornar a vida humana mais feliz…
Luz e progresso para cada povoação perdida
no sertão imenso, escolas para as crianças,
para cada doente, a assistência da ciência consoladora,
para cada braço de homem, uma lida
honrada e compensadora,
para cada dúvida uma explicação,
e para os Homens, Paz e Fraternidade!

Ah, se este poema fosse realidade
e não apenas esperança!
Ah, se fosse o destino da nova humanidade
não mais me inquietaria e eu passaria
a cantar então a beleza das flores,
das aves, do céu, de tudo o que é futilidade
porque então a dor humana não existiria,
nem a infelicidade, nem a insatisfação,
na nova vida plena de harmonia!

 

Noémia de Sousa, Sangue negro

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedaste-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE.

 

Noémia de Sousa, Sangue Negro

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Poema para um amor futuro

Um dia
— não sei quando nem onde —
das névoas cinzentas do futuro,
ele surgirá, envolto em mistério e magia
— o homem que eu amarei.
Não será herói de livro de fantasia,
príncipe russo
actor de cinema
ou milionário com saldo no Banco.
Não.
O homem que eu amarei
será tal qual eu, no fundo.
Suas mãos, como as minhas,
estarão calejadas do dia a dia
e seus olhos terão reflexos de aço
como os meus.
Sua alma será irmã minha
com a mesma angústia e o mesmo amor,
com o mesmo frio ódio e a mesma esperança.
E do seu pescoço estará suspenso, como do meu,
o marfim do mesmo amuleto.
Ah, ele será humano, como eu,
e da mesma seiva generosa.
Completamente humano e verdadeiro
— que só assim eu o poderei amar.
E só será perfeito quanto a nossa condição o permitir,
para que sejamos na vida o que ela nos pedir:
companheiros,
juntos na mesma barricada,
lutando num mesmo ideal.
Ah, sim,
quando a paz descer sobre o campo de luta,
poderei enfim
dar-me completamente.
Minha alma, finalmente,
poderá encher-se como um búzio, da música do luar
e do murmúrio do mar.
E meu corpo adubado de ânsias,
abrir-se-á à charrua do seu desejo,
à semente do seu amor.
Serei então irmã gêmea da Terra,
carregando em mim o mistério da vida,
machamba aberta à chuva benéfica
e ao sol fecundo do seu amor.
E quando em mim se fizer o milagre,
quando do meu grito de morte
surgir a vitória máxima da vida,
ah, então eu estarei completa.
Mas só depois da paz descer sobre o meu campo da luta,
antes disso, não.
Antes, seremos companheiros da mesma obra,
operários construindo o nosso mundo.
Por isso, amor que não conheço,
nada mais me peças enquanto não for terminada a obra.
Enquanto ela durar,
não poderei ser tua completamente,
porque me dei, inteira,
a este sonho que tudo apouca.
Para ti irão apenas os breves momentos de tréguas,
o calor que me sobrar da fogueira de todos.
Mas quando da noite desumana
surgir a manhã que construímos, lado a lado,
quando nossa Mãe África nos estender seus pulsos libertos
quando a calma descer sobre a casa que edificámos,
então seguiremos, na luz clara desse Sol maravilhoso,
nosso destino natural de Homem e Mulher
e dos seus gritos de morte
nossos filhos poderão nascer então,
num mundo de justiça.
………………………………..
Para meu amor futuro, que me completará,
para esse amor distante
escrevi este poema.
Que tu o leias um dia, amor que não conheço,
quando me surgires, embrulhado em mistério,
e minha alma e meu corpo
palpitarem de reconhecimento — és tu!
Que aquele que amarei o leia
e me leia, neste poema que lhe escrevi.

Noémia de Sousa , Sangue Negro

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Poema da infância distante

Quando eu nasci na grande casa à beira-mar,
era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico.
Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul.
Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda
arrastando as redes pejadas.
Na ponte, os gritos dos negros dos botes
chamando as mamanas amolecidas de calor,
de trouxas à cabeça e garotos ranhosos às costas
soavam com um ar longínquo,
longínquo e suspenso na neblina do silêncio.
E nos degraus escaldantes,
mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas.

Quando eu nasci…
— Eu sei que o ar estava calmo, repousado (disseram-me)
e o sol brilhava sobre o mar.
No meio desta calma fui lançada ao mundo,
já com meu estigma.
E chorei e gritei — nem sei porquê.
Ah, mas pela vida fora,
minhas lágrimas secaram ao lume da revolta.
E o Sol nunca mais me brilhou como nos dias primeiros
da minha existência,
embora o cenário brilhante e marítimo da minha infância,
constantemente calmo como um pântano,
tenha sido quem guiou meus passos adolescentes,
— meu estigma também.
Mais, mais ainda: meus heterogêneos companheiros
de infância.
Meus companheiros de pescarias
por debaixo da ponte,
com anzol de alfinete e linha de guita,
meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças,
companheiros nas brincadeiras e correrias
pelos matos e praias da Catembe
unidos todos na maravilhosa descoberta dum ninho de tutas,
na construção duma armadilha com nembo,
na caça às gala-galas e beija-flores,
nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão…
— Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada,
solta e feliz:

meninos negros e mulatos, brancos e indianos,
filhos da mainata, do padeiro,
do negro do bote, do carpinteiro,
vindos da miséria do Guachene
ou das casas de madeira dos pescadores,
Meninos mimados do posto,
meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha
— irmanados todos na aventura sempre nova
dos assaltos aos cajueiros das machambas,
no segredo das maçalas mais doces,
companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos”
— onde nenhum brado fica sem eco.

Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada
e boquiaberta de “Karingana wa karingana”
das histórias da cocuana do Maputo,
em crepúsculos negros e terríveis de tempestades
(o vento uivando no telhado de zinco,
o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda
e casuarinas, gemendo, gemendo,
oh inconsolavelmente gemendo,
acordando medos estranhos, inexplicáveis
nas nossas almas cheias de xituculumucumbas desdentadas
e reis Massingas virados jibóias…] Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação
dia a dia mais insatisfeita.
Eles me encheram a infância do sol que brilhou
no dia em que nasci.
Com a sua camaradagem luminosa, impensada,
sua alegria radiante,
seu entusiasmo explosivo diante
de qualquer papagaio de papel feito asa
no céu dum azul tecnicolor,
sua lealdade sem código, sempre pronta,
— eles encheram minha infância arrapazada
de felicidade e aventuras inesquecíveis.

Se hoje o sol não brilha como no dia
em que nasci, na grande casa,
à beira do Índico,
não me deixo adormecer na escuridão.
Meus companheiros me são seguros guias
na minha rota através da vida.
Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita
escrita a negro no dicionário da estante:
ensinaram-me que “fraternidade” é um sentimento belo, e possível,
mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante
são tão diferentes.
Por isso eu CREIO que um dia
o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico.
Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul
e os pescadores voltarão cantando,
navegando sobre a tarde ténue.
E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias
em noite de tambor e batuque
deixará para sempre de me inquietar.

Um dia,
o sol iluminará a vida.
E será como uma nova infância raiando para todos…

Noémia de Sousa, Sangue Negro