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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Prelúdio de natal

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

David Mourão-Ferreira, Antologia Poética

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Voto de natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

 

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Poesia de amor

Vieram as aves negras em teu nome,
Secas folhas de plátano e de tília…
Amargamente, a fonte segredou-me
Tudo quanto eu sabia
Da sorte de Marília;
E que Dirceu
Poderei ser eu
– Tão infeliz! – nesta prisão sombria.

Ausente embora, continuo
A endereçar-te mil endechas.
Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,
Pela canção doentia
Coloração das minhas queixas.
Bárbara escrava?
Que me importava?
Além do amor, o meu amor quer melodia.

Cantei às flores do pinho, verde e vivo;
Cantei nas margens verdes das ribeiras.
– Quando hás-de ver que foste só motivo
Para falsas canções tão verdadeiras?

 

David Mourão-Ferreira, Tempestade de verão

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!

 

David Mourão-Ferreira, Cincos séculos de sonetos Portugueses

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Última face

A Noite já não é aquela estrada,
Com uma inquietação em cada muro.
Rosto lunar, vulgar fruto maduro,
A tua face branca e transtornada,

De tão distante e fria, não é nada…
(Mas ilumina as faces que eu procuro…)
Contudo, sei que há-de tombar do escuro
A face apetecida e desejada!

É de mulher? Será… E traz um véu
Que vela, em sonho, tudo que perdeu
A minha adolescência já perdida…

Ah! não lhe peças nada, carne ansiosa!
Que ao menos seja essa velada rosa
Casta! – como não foi a tua vida.

 

David Mourão-Ferreira, Cinco séculos de sonetos Portugueses

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Ladainha dos póstumos natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira – Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal