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Mario Quintana

Mario Quintana

Mario Quintana – O límpido cristal

mario quintana

Que límpido o cristal de abril!… Um grito
não vai como os da noite — para os extramundos…
Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas
dentro do globo azul — vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um…
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra
nas solidões do mundo!

Mario Quintana, Antologia poética

Mario Quintana

Mario Quintana – Dentro da noite alguém cantou

mario quintana

Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna… E as minhas mãos, pelas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!

Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
Surge… dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou…

Não foi nenhuma voz amada
Que, preludiando a canção sonâmbula,
No meu silêncio me procurou…

Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.

Mario Quintana, Melhores poemas

Mario Quintana

Mario Quintana – Canção de outono

mario quintana

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma.
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mario Quintana, A rua dos cataventos

Mario Quintana

Mario Quintana – Nos salões do sonho

mario quintana

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos…
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
– e aqui começa um arrepio –
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber… Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

Mario Quintana, Velório sem defunto

Mario Quintana

Mario Quintana – As Falsas recordações

mario quintana

Se a gente pudesse escolher a infância
que teria vivido, com enternecimento eu não
recordaria agora aquele velho tio de perna de pau,
que nunca existiu na família, e aquele arroio que
nunca passou aos fundos do quintal,
e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão,
sob o zumbido inquietante dos besouros

Mario Quintana, O sapato florido

Mario Quintana

Mario Quintana – Aula inaugural

mario quintana

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis
como na guerra do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança.
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança;
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante da tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)

Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta,
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível
ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…

Mario Quintana, Melhores poemas

Mario Quintana

Mario Quintana – Os parceiros

mario quintana

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração — exausto, ainda insiste.

Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

Mario Quintana, Apontamentos de história sobrenatural

Mario Quintana

Mario Quintana – Estranhas aventuras da infância

mario quintana

Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas…

Enquanto a tarde, lenta, caía,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia…

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas más…
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada…

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra…

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!

Mario Quintana, Baú de Espantos

Mario Quintana

Mario Quintana – Canção para depois

mario quintana

Quando esta pura voz que ouviste
Serenamente calar-se,
Como é que descobririas
O seu disfarce?

Não digas palavras loucas
Em meus ouvidos de pedra!
Não busques na voz do vento
Minha resposta…

Silêncio! E, depois, afasta
O passo que se avizinha…
Que ninguém veja esta face
Que não é minha!

Mario Quintana, Apontamentos de história sobrenatural

Mario Quintana

Mario Quintana – Dorme, ruazinha… É tudo escuro…

mario quintana

Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos…
Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…
O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…
Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

Mario Quintana, Poemas para ler na escola

Mario Quintana

Mario Quintana – Escrevo diante da janela aberta.

mario quintana

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mario Quintana, Poemas para ler na escola

Mario Quintana

Mario Quintana – Deixa-me seguir para o mar

mario quintana

Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma… Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
toda a tristeza dos rios
É não poderem parar!


Mario Quintana, Poema para ler na escola

Mario Quintana

Mario Quintana – O silêncio

mario quintana

Há um grande silêncio que está sempre à escuta…

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta…
e cala.

Mario Quintana, Esconderijos do tempo

Mario Quintana

Mario Quintana – Os poemas

mario quintana

Poemas nas pontas dos pés.
que nem os sente o papel…

Poemas de assombração
sumindo
pelos desvãos da alma…

Poemas que dançam,
rindo
que nem crianças…

Poemas de pé de pilão,
um baque
no coração.

E aqueles que desmoronam
– lentamente –
sobre um caixão!

 

Mario Quintana – Baú de espantos

Mario Quintana

Mario Quintana – Poema transitório

mario quintana

Eu que nasci na Era da Fumaça: – trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
pastéis
pés-de-moleque
sonhos
principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre… Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar… Ah, como esta vida é
urgente!
no entanto
eu gostava era mesmo de partir…
e – até hoje – quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma…
viajar indefinidamente…
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

 

Mario Quintana, Baú de espantos