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Almeida Garrett

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Bela D’Amor

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular,
Como se baloiça a flor
Na primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai! vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Rosa pálida

Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim… quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos…
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!… de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê?… porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois quando eras tão vermelha
Não vinha zangão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.

Ai! deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh! quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.

Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Rosa sem espinhos

Para todos tens carinhos,
A ninguém mostras rigor!
Que rosa és tu sem espinhos?
Ai, que não te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa
A desdém te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
É sorrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,
Tão modesta em seu zumbir,
Te diz: — «Ó rosa vermelha,
«Bem me podes acudir:

«Deixa do cálix divino
«Uma gota só libar…
«Deixa, é néctar peregrino,
«Mel que eu não sei fabricar…»

Tu de lástima rendida,
De maldita compaixão,
Tu à súplica atrevida
Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
És rosa e não tens espinhos!
Ai! que não te entendo, flor.

Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Gozo e dor

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
— Não. Ai! não; falta-me a vida,
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou,
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida — ou a razão.


Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – O álbum

Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

 

Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – A um amigo

Fiel ao costume antigo, 
Trago ao meu jovem amigo 
Versos próprios deste dia. 
E que de os ver tão singelos, 
Tão simples como eu, não ria: 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 

Que sobre a flor de seus anos 
Soprem tarde os desenganos; 
Que em torno os bafeje amor, 
Amor da esposa querida, 
Prolongando a doce vida 
Fruto que suceda à flor. 

Recebe este voto, amigo, 
Que eu, fiel ao uso antigo, 
Quis trazer-te neste dia 
Em poucos versos singelos. 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 

 

Almeida Garrett, Folhas Caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – O anjo caído

Era um anjo de Deus 
Que se perdera dos céus 
E terra a terra voava. 
A seta que lhe acertava 
Partira de arco traidor, 
Porque as penas que levava 
Não eram penas de amor.

O anjo caiu ferido 
E se viu aos pés rendido 
Do tirano caçador. 
De asa morta e sem esplendor 
O triste, peregrinando 
Por estes vales de dor, 
Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, n anjo dos céus, 
O abandonado de Deus, 
Vi-o, nessa tropelia 
Que o mundo chama alegria, 
Vi-o a taça do prazer 
Pôr ao lábio que tremia 
E só lágrimas beber.

Ninguém mais na terra o via, 
Era eu só que o conhecia 
Eu que já não posso amar! 
Quem no havia de salvar? 
Eu, que numa sepultura 
Me fora vivo enterrar? 
Loucura! Ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos céus 
Cantava um anjo ao seu Deus; 
E remi-lo e resgatá-lo, 
Daquela infâmia salvá-lo 
Só força de amor podia. 
Quem desse amor há-de amá-lo, 
Se ninguém o conhecia?

Eu só, – e eu morto, eu descrido, 
Eu tive o arrojo atrevido 
De amar um anjo sem luz. 
Cravei-a eu nessa cruz 
Minha alma que renascia, 
Que toda em sua alma pus, 
E o meu ser se dividia,

Porque ela outra alma não tinha, 
Outra alma senão a minha… 
Tarde, ai! tarde o conheci, 
Porque eu o meu ser perdi, 
E ele à vida não volveu… 
Mas da morte que eu morri 
Também o infeliz morreu.

 

Almeida Garrett, Folhas caídas 

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

 

Almeida Garrett, Folhas caídas 

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Aquela noite!

Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes… e ai!, são tantos…
Eu, por tantos os contava!
Eu, que o sinal de meus prantos
Do aflito rosto lavava –
Os felizes presunçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
Donde em torrentes saía
A clamorosa harmonia
Que à festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruído
Como o confuso bramar
De um mar ao longe movido
Que à praia vem rebentar:
E disse comigo: «Vamos,
Os lutos d’alma dispamos,
À festa hei-de ir também eu!»

E fui: e a noite era bela,
Mas não vi a minha estrela
Que eu sempre via no céu:
Cobriu-a de espesso véu
Alguma nuvem a ela,
Ou era que já vendado
Me levava o negro fado
Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,
A funda melancolia
Que todo o meu ser revia,
Qual o ataúde levado
A egípcio festim, dizia:
«Como vós fui eu também;
Folgai, que a morte aí vem!»
Dizia-o, sim, meu semblante,
Que, onde eu chegava, o prazer
Cessava no mesmo instante;
E o lábio, que ia a dizer
Doçuras de amor, gelava;
E o riso, que ia a nascer
Na face linda, expirava.
Era eu – e a morte em mim,
Que só ela espanta assim!

Quantas mulheres tão belas
Ébrias de amor e desejos,
Quantas vi saltar-lhe os beijos
Da boca ardente e lasciva!
E eu, que ia chegar-me a elas…
Para logo a fronte esquiva
De recatos se envolvia
E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anelante,
Nu, ardente e palpitante
Andavam como entregando
À cobiça mal desperta,
Gasta já e desdenhosa,
Dos que as estavam mirando
Com vaga luneta incerta
Que diz: «Aquela é formosa,
Não se me dava de a ter.
E esta? É só baronesa,
Vale menos que a duquesa:
Não sei a qual atender.»

E a isto chamam prazer!
A grande ventura é esta?
Vale a pena vir à festa
E vale a pena viver.
Como então quis à tristura
Do meu viver isolado!
Fique-se embora a ventura,
Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça,
Senti-me crescer – e a frente
Desanuviar-se contente
Do feio negrume espesso
Que assustava aquela gente.
Logo os sorrisos caíram
Para o meu lado também;
Já como um dos seus me viam,
Que em mim não viam ninguém.
Eu, de olhos desencantados,
A elas, como as eu via!
Meus entusiasmos passados,
Oh!, como deles me ria!

Frio o sarcasmo saía
De meus lábios descorados,
E sem dó e sem pudor
A todas falei de amor…
Do amor bruto, degradante,
Que no seio palpitante,
Na espádua nua se acende…
Amor lascivo que ofende,
Que faz corar… elas riam
E oh, que não, não se ofendiam!

Mas o orquestra bradou alta:
«Festa, festa!, e salta, salta!»
os seus guizos delirantes
Sacode louca a Folia…
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem nos ouvia?
As palavras meias ditas,
Meias nos olhos escritas,
Voavam todas perdidas
Dispersas, rotas no ar;
Que se foram almas, vidas,
Tudo se foi a valsar.

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira sem cessar?
Como as roupas leves, soltas,
Aéreas leva a ondular
Em torno à forma graciosa,
Tão flexível, tão airosa,
Tão fina! – Agora parou,
E tranquila se assentou.
Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o profil;
E a cabeça, tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha dessa gente,
Como a levanta insolente!

Vive Deus!, que é ela… aquela,
A que eu vi na tal janela,
E que triste me sorria
Quando passando me via
Tão pasmado a olhar para ela.
A mesma melancolia
Nos olhos tristes – de luz
Oblíqua, viva mas fria;
A mesma alta inteligência
Que da face lhe transluz;
E a mesma altiva impaciência
Que de tudo, tudo cansa,
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga esp’rança.

«Pois isto sim, que é mulher»,
Disse eu – «e aqui há que ver».
Já vinha a pálida aurora
Anunciando a manhã fria,
E eu falava e eu ouvia
O que até àquela hora
Nunca disse, nunca ouvi…
Toda a memória perdi
Das palavras proferidas…
Não eram destas sabidas,
Nem quais eram não no sei …
Sei que a vida era outra em mim,
Que era outro ser o meu ser,
Que uma alma nova me achei
Que eu bem sabia não ter.

E daí? – Daí, a história
Não deixou outra memória
Dessa noite de loucura,
De sedução, de prazer…
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.

 

Almeida Garret, Folhas caídas 

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Olhos negros

Por teus olhos negros, negros
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores…
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp’rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.

 

Almeida Garrett, Cinco séculos de sonetos Portugueses

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta: — «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai! não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

 

Almeida Garrett, Folhas caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Flor de ventura

A flor de ventura
Que amor me entregou,
Tão bela e tão pura
Jamais a criou:

Não brota na selva
De inculto vigor,
Não cresce entre a relva
De virgem frescor;

Jardins de cultura
Não pode habitar
A flor de ventura
Que amor me quis dar.

Semente é divina
Que veio dos céus;
Só n’alma germina
Ao sopro de Deus.

Tão alva e mimosa
Não há outra flor;
Uns longes de rosa
Lhe avivam a cor;

E o aroma… Ai! delírio
Suave e sem fim!
É a rosa, é o lírio,
É o nardo, o jasmim;

É um filtro que apura,
Que exalta o viver,
E em doce tortura
Faz de ânsias morrer.

Ai! morrer… que sorte
Bendita de amor!
Que me leve a morte
Beijando-te, flor.

Almeida Garrett, Folhas Caídas 

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Perfume da rosa

Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

— Ninguém? — Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?

E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?

Não a vi aflita, ansiada…
— Era de prazer ou dor? —
Mentiste, rosa, és amada,
E tu também tu amas, flor.

Mas ai! se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.

Almeida Garrett, Folhas Caídas 

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Saudades

Leva este ramo, Pepita,
De saudades portuguesas;
É flor nossa, e tão bonita
Não na há noutras devesas.

Seu perfume não seduz,
Não tem variado matiz,
Vive à sombra, foge à luz,
As glórias d’amor não diz;

Mas na modesta beleza
De sua melancolia
É tão suave a tristeza,
Inspira tal simpatia!…

E tem um dote esta flor
Que de outra igual se não diz:
Não perde viço ou frescor
Quando a tiram da raiz.

Antes mais e mais floresce
Com tudo o que as outras mata;
Até às vezes mais cresce
Na terra que é mais ingrata.

Só tem um cruel senão,
Que te não devo esconder:
Plantada no coração,
Toda outra flor faz morrer.

E, se o quebra e despedaça
Com as raízes mofinas,
Mais ela tem brilho e graça,
É como a flor das ruínas.

Não, Pepita, não ta dou…
Fiz mal em dar-te essa flor,
Que eu sei o que me custou
Tratá-la com tanto amor.

Almeida Garrett, Folhas Caídas

Almeida Garrett

Almeida Garrett – Ignoto Deo

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: — o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz… e treva,
Em que — indistintas! — se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor — o prazer
Que não fatiga e não gasta…
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prosto e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro — confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.

Almeida Garrett, Folhas Caídas