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Flora Figueiredo

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Chuva poética

O céu rasgou-se espada afora
e verteu lágrimas,
muitas lágrimas,
Não sei se eram de tristeza ou indignação.
Também, não adianta perguntar,
que ninguém responde.
Pus minha canequinha do lado de fora da janela,
ela quase transbordou.
Estou rica: tenho uma caneca com lágrimas do céu.
Os vizinhos caçoam:
quem é que compra um punhado de chuva?

Flora Figueiredo, Chão de vento

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Caleidoscópio

Pela fresta observo a dança das cores
nos vidros recortados.
Separam-se, aglutinam-se,
desenham maravilhas
Como se bailassem calçando sapatilhas.
A cada movimento, uma surpresa,
a mesma flor concebida com destreza,
em seguida se espalha e se desfaz.
Por trás de seu processo giratório,
o caleidoscópio avisa:
a forma é fugaz e imprecisa
e o colorido de hoje é provisório.

Flora Figueiredo, O trem que traz a noite

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Royal flush

Reverências à Dama de Copas,
que ousa andar de coração a mostra,
leva flores nas mãos em vez de espadas,
em vez de paus e pedras enfeitadas,
que ostenta rubra uma paixão exposta.
Transita arfante pelos naipes
à procura de seu rei vermelho;
ao encontrá-lo, se queda de joelhos
férvida, túrgida, convulsa,
invade o castelo, tomba a pilastra,
pinta os quatro ases de amarelo.
Rainha absoluta das cartas da canastra.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Regência

Rabisco aqui
de próprio punho
o rascunho
de tuas horas que são minhas.
Entreguei à lua
a regência de minhas horas que são tuas.
Pediu-se ao vento
para enganar o tempo com seus assobios
e aos trinados vadios das aves errantes,
que convocassem os passantes
para escutar a nova sinfonia.
Sobre a terra quente e latejante,
despejei bemóis e sustenidos
para germinar no solo a melodia
que rege a vida com a fúria dos sentidos.

Flora Figueiredo, Limão rosa

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Regulamento

Eu não juro nada
por coisa alguma,
pois que todo caminho e de incerteza.
A ordem se desarruma,
a história se desajeita,
o arranjo troca de lado e vira a mesa.
tampouco prometo.
Nesse jogo de regras e tratos,
rolam os dados,
mudam os fatos,
num ciclone célere, inclemente.
Só o que posso é me entregar completamente
a toda causa que eu me dedicar,
a cada tempo que eu puder viver,
a cada amor que me fizer amar.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Despedida

Se tiver que ir,
vai.
O que fica para trás,
não sendo mentira,
não racha,
nem rompe,
não cai.
Ninguém tira.
Já que vai,
segue se depurando pelo trajeto,
para desembarcar passado a limpo,
sem máscara,
sem nada,
sem nenhum desafeto.
Quando chegar,
sobe ao ponto mais alto do lugar,
onde a encosta do mundo
faz a curva mais pendente.
Então acena.
De onde eu estiver, quero enxergar
esse momento em que você vai constatar
que a vida vale grandemente a pena.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Caixa de costura

Venho costurando minha vida 
com linhas de saudade. 
Procuro equilibrar-lhes a cor 
para que o resultado final não seja triste. 
Por vezes, é o cinza que insiste; 
por vezes, impera o marrom. 
Ainda bem que tem saudade bonita; 
mudo o tom, amarro fitas, 
busco a outra ponta do novelo; 
intercalo a trama em amarelo. 
A saudade é assim mesmo, 
tecelã do tempo. 
Quando menos se espera, 
arremata o momento,leva embora, 
deixa a porta encostada, o cadarço de fora, 
e nunca avisa a hora de voltar. 
Ainda hei de costurar com verde florescente 
e, se a saudade chegar autoritariamente, 
vai se sentir enfraquecida. 
Enquanto procuro a cor, 
vou costurando a vida, 
sem saber qual vai ser o resultado. 
Caso ele não fique combinado, 
dou um nó, encosto agulha, guardo a linha, 
que essa culpa roxa não é minha. 

É uma artimanha branca do passado.

Flora Figueiredo, O trem que traz a noite

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Brancos

Perdoa coração este momento
de introspecção.
Sinto teu aperto,
teu descompasso,
tua pressão.
Peço-te perdão
por mais este instante oprimido,
por todo impulso contido,
cada decepção que te causei:

as grandes cenas que não fotografei,
os beijos que retive,
as risadas que contive,
as brigas que não briguei,
os poemas que não escrevi,
os falsos que respeitei,
as auroras que não vi,
os porres que não permiti,
o amigo que não percebi,
o amante que não amei.

Perdoa coração por este abuso,
mas me recuso a recuar novamente.
É que sempre se morre um pouquinho
a cada emoção que não se sente.
Não vale entrar na vida de mansinho;
tem-se que vibrar intensamente,

ainda que te custe uma palpitação.

Flora Figueiredo, Florescência

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Arquitetura

Solidão é quando se sente o próprio hálito,
se se descobre pálido olhando o vão do dedo.
Estar só é morrer de medo do silêncio,
amassar o lenço na palma da mão.
É quando a noção da vida se desloca,
sai do meio da rua, quer a toca,
onde o espaço menor não deixa sobra.
Solidão é o canteiro de obras da emoção:
nele se guardam materiais preciosos,
os pontiagudos, os tortos, os porosos,
que, se devidamente combinados,
serão perfeitamente aproveitados
como estrutura de uma nova construção.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Amanhecência

Quero ficar só,
para respirar a estrela.
Deixar a noite escorrer a mágoa,
dissolvê-la em enxurrada.
Não deixar nada a comprimir o peito.
Quero a madrugada de tal jeito,
que a alma possa flanar sem pouso certo
e sugar o primeiro brilho esperto
de uma gota.
Beijar a pétala rota
pelo mau jeito de um espinho,
degludir devagarinho
o mel do espasmo nascente.
Quero o orgasmo
do pólen, da semente;
eu quero o sumo.
Para recompor a vida,
pra renascer o afeto,
pra retomar o rumo.

Flora Figueiredo, Florescência

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Alma

Acho que os sentimentos têm células,
pois as sinto remexer,
intensas libélulas
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos,
sempre crescem.
A cada instante que vivo,
mais então se expandem,
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações
e quando me perco pelas emoções,
ele se avoluma e me maltrata.
Chega a ser tão grande seu efeito,
que rompe o peito,sangra
e se dilata.

Ah minhas células emotivas!
Quero-as em mim
coladas e cativas
fazendo-me viver intensamente.
Eu as batizo com o nome de “alma”
e as responsabilizo a viver eternamente
ainda quando o coração se acalma
e põe-se a dormir
irreversivelmente.

Flora Figueiredo, Florescência

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Desvio

Podemos marcar um desencontro.
Eu mando a carta,
fico sem resposta,
você sai do jogo,
eu faço a aposta,
tentamos a canção, mas desafina;
rezamos a oração, mas descombina,
o beijo desvia e escorrega,
a palavra tropeça e foge à regra,
eu escolho o sol − você a bruma,
voltamos sempre ao lugar-comum.
Eu desajeito, você desarruma,
nós dois: motivo algum.

 

Flora Figueiredo, Limão rosa

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Curativo

Quanto dura uma crise de amor?
Ela tem cura?
Como se estanca o sangue da fissura?
Colam-se os cacos?
Cospem-se os sapos?
Rasgam-se os trapos?
Se houver receita que atenue o machucado,
quem sabe um dia ainda se veja restaurado
este pobre coração de esparadrapo.

 

Flora Figueiredo, Limão rosa

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Renascimento

Queria
poder romper hoje o dia
com um grito
que ultrapassasse a névoa amanhecente
e contasse sonoro a toda gente
que te encontrei às bordas do infinito.
Que te colhi cadente
e te alimentei;
e descobri a seiva pra te fazer contente.
Renovei-te a estrada
pra que nada atrapalhasse
teu cenário,
e num gesto ardente e humanitário
te revigorei.
Das sementes que espalhei,
quero as floradas
em tons de amarelo
e as encarnadas
pra polvilhar de cor nosso caminho;
e quando a noite cair com seu jeitinho
de cumplicidade,
quero-te frondoso e reluzente
a compor intenso, incandescente
meu soneto da total felicidade.

Flora Figueiredo, Calçada de Verão