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Flora Figueiredo

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Vento novo

flora figueiredo

Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,

com perfume novo no cangote.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Epiderme

flora figueiredo

Você não precisa ser tão doce
nem me azeitar tanto,
nem me embebedar dos cantos das
sereias.
Você não precisa fazer coisas
adoravelmente feias
para me subjugar.
Deixe apenas a pele falar com veemência,
que dela me alimento,
com devoção e dependência,
que nela me visto
e arrisco viver subcutânea.
Núcleo,
barro,
cerne,
massa.
Colada ao plasma,
a cada célula que se destaque e se desfaça,
assim como uma liga,
feito visgo,
feito viga.
Você não precisa se empenhar
para me fazer render subordinada,
se sua pele me mantém amalgamada
como se nascera talvez do seu olhar.
Você não precisa mesmo fazer nada.
Basta estar.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Para machucar um pouco

flora figueiredo

Vou buscar a poesia onde ela estiver,
fazê-la deitar subjugada,
tênue,
passiva,
mansa,
mulher.
Quero-a solta e lassiva,
aberta e deflorada,
para fazer dela o que eu quiser.
Hei de dominá-la totalmente,
levá-la a gozar até a embriaguez.
Feita minha serva e dependente,
vou ofertá-la ao seu deleite.
Por favor, aceite.
Quero que ela o faça chorar outra vez.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Catavento

flora figueiredo

A cada esquina,
há um cheiro de verão
que me entontece,
afaga,
contamina.
já não sei mais a direção.
Que sorte a minha perder o Norte!
Se os meus pontos cardeais
fossem definidos,
não caberia esse amor tão proibido,
que sofre, goza muito e pede mais.

Flora Figueiredo, O trem que traz a noite

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – A fila

flora figueiredo

O primeiro chegou cedo
porque tinha medo
de perder a frente;
o segundo resmunga furibundo
por encontrar alguém
mais eficiente;
o terceiro acha injusto
não ter tomado a ponta
pleiteada a tanto custo;
o quarto,
o quinto,
o sexto
encontram um pretexto
para discutir;
a fila se estica,
vira a esquina,
urina no poste,
chupa tangerina.
Há quem reclame,
há quem goste:
às vezes dá para beliscar
a moça que enfrenta
um décimo sexto lugar.
Se não for assim,
quem é que aguenta?
Depois de tanta demora,
a porta não abre,
a linha se desfaz e vai embora.
Atrás da porta
tem um sonho remoendo,
um plano insistindo,
um sorriso esboçando.
Do lado de fora,
a vida competindo,
o corpo envelhecendo,
a alma duvidando.
A fila amanhã chega sabendo
que a esperança, por prudência, está dormindo,
pois a porta, antes de abrir, já está fechando.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Chuva poética

flora figueiredo

O céu rasgou-se espada afora
e verteu lágrimas,
muitas lágrimas,
Não sei se eram de tristeza ou indignação.
Também, não adianta perguntar,
que ninguém responde.
Pus minha canequinha do lado de fora da janela,
ela quase transbordou.
Estou rica: tenho uma caneca com lágrimas do céu.
Os vizinhos caçoam:
quem é que compra um punhado de chuva?

Flora Figueiredo, Chão de vento

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Caleidoscópio

flora figueiredo

Pela fresta observo a dança das cores
nos vidros recortados.
Separam-se, aglutinam-se,
desenham maravilhas
Como se bailassem calçando sapatilhas.
A cada movimento, uma surpresa,
a mesma flor concebida com destreza,
em seguida se espalha e se desfaz.
Por trás de seu processo giratório,
o caleidoscópio avisa:
a forma é fugaz e imprecisa
e o colorido de hoje é provisório.

Flora Figueiredo, O trem que traz a noite

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Royal flush

flora figueiredo

Reverências à Dama de Copas,
que ousa andar de coração a mostra,
leva flores nas mãos em vez de espadas,
em vez de paus e pedras enfeitadas,
que ostenta rubra uma paixão exposta.
Transita arfante pelos naipes
à procura de seu rei vermelho;
ao encontrá-lo, se queda de joelhos
férvida, túrgida, convulsa,
invade o castelo, tomba a pilastra,
pinta os quatro ases de amarelo.
Rainha absoluta das cartas da canastra.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Regência

flora figueiredo

Rabisco aqui
de próprio punho
o rascunho
de tuas horas que são minhas.
Entreguei à lua
a regência de minhas horas que são tuas.
Pediu-se ao vento
para enganar o tempo com seus assobios
e aos trinados vadios das aves errantes,
que convocassem os passantes
para escutar a nova sinfonia.
Sobre a terra quente e latejante,
despejei bemóis e sustenidos
para germinar no solo a melodia
que rege a vida com a fúria dos sentidos.

Flora Figueiredo, Limão rosa

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Regulamento

flora figueiredo

Eu não juro nada
por coisa alguma,
pois que todo caminho e de incerteza.
A ordem se desarruma,
a história se desajeita,
o arranjo troca de lado e vira a mesa.
tampouco prometo.
Nesse jogo de regras e tratos,
rolam os dados,
mudam os fatos,
num ciclone célere, inclemente.
Só o que posso é me entregar completamente
a toda causa que eu me dedicar,
a cada tempo que eu puder viver,
a cada amor que me fizer amar.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Despedida

flora figueiredo

Se tiver que ir,
vai.
O que fica para trás,
não sendo mentira,
não racha,
nem rompe,
não cai.
Ninguém tira.
Já que vai,
segue se depurando pelo trajeto,
para desembarcar passado a limpo,
sem máscara,
sem nada,
sem nenhum desafeto.
Quando chegar,
sobe ao ponto mais alto do lugar,
onde a encosta do mundo
faz a curva mais pendente.
Então acena.
De onde eu estiver, quero enxergar
esse momento em que você vai constatar
que a vida vale grandemente a pena.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Caixa de costura

flora figueiredo

Venho costurando minha vida 
com linhas de saudade. 
Procuro equilibrar-lhes a cor 
para que o resultado final não seja triste. 
Por vezes, é o cinza que insiste; 
por vezes, impera o marrom. 
Ainda bem que tem saudade bonita; 
mudo o tom, amarro fitas, 
busco a outra ponta do novelo; 
intercalo a trama em amarelo. 
A saudade é assim mesmo, 
tecelã do tempo. 
Quando menos se espera, 
arremata o momento,leva embora, 
deixa a porta encostada, o cadarço de fora, 
e nunca avisa a hora de voltar. 
Ainda hei de costurar com verde florescente 
e, se a saudade chegar autoritariamente, 
vai se sentir enfraquecida. 
Enquanto procuro a cor, 
vou costurando a vida, 
sem saber qual vai ser o resultado. 
Caso ele não fique combinado, 
dou um nó, encosto agulha, guardo a linha, 
que essa culpa roxa não é minha. 

É uma artimanha branca do passado.

Flora Figueiredo, O trem que traz a noite

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Brancos

flora figueiredo

Perdoa coração este momento
de introspecção.
Sinto teu aperto,
teu descompasso,
tua pressão.
Peço-te perdão
por mais este instante oprimido,
por todo impulso contido,
cada decepção que te causei:

as grandes cenas que não fotografei,
os beijos que retive,
as risadas que contive,
as brigas que não briguei,
os poemas que não escrevi,
os falsos que respeitei,
as auroras que não vi,
os porres que não permiti,
o amigo que não percebi,
o amante que não amei.

Perdoa coração por este abuso,
mas me recuso a recuar novamente.
É que sempre se morre um pouquinho
a cada emoção que não se sente.
Não vale entrar na vida de mansinho;
tem-se que vibrar intensamente,

ainda que te custe uma palpitação.

Flora Figueiredo, Florescência

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Arquitetura

flora figueiredo

Solidão é quando se sente o próprio hálito,
se se descobre pálido olhando o vão do dedo.
Estar só é morrer de medo do silêncio,
amassar o lenço na palma da mão.
É quando a noção da vida se desloca,
sai do meio da rua, quer a toca,
onde o espaço menor não deixa sobra.
Solidão é o canteiro de obras da emoção:
nele se guardam materiais preciosos,
os pontiagudos, os tortos, os porosos,
que, se devidamente combinados,
serão perfeitamente aproveitados
como estrutura de uma nova construção.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Amanhecência

flora figueiredo

Quero ficar só,
para respirar a estrela.
Deixar a noite escorrer a mágoa,
dissolvê-la em enxurrada.
Não deixar nada a comprimir o peito.
Quero a madrugada de tal jeito,
que a alma possa flanar sem pouso certo
e sugar o primeiro brilho esperto
de uma gota.
Beijar a pétala rota
pelo mau jeito de um espinho,
degludir devagarinho
o mel do espasmo nascente.
Quero o orgasmo
do pólen, da semente;
eu quero o sumo.
Para recompor a vida,
pra renascer o afeto,
pra retomar o rumo.

Flora Figueiredo, Florescência