O primeiro chegou cedo porque tinha medo de perder a frente; o segundo resmunga furibundo por encontrar alguém mais eficiente; o terceiro acha injusto não ter tomado a ponta pleiteada...
Flora Figueiredo
Flora Figueiredo – Chuva poética
O céu rasgou-se espada afora e verteu lágrimas, muitas lágrimas, Não sei se eram de tristeza ou indignação. Também, não adianta perguntar, que ninguém responde. Pus minha canequinha do lado...
Flora Figueiredo – Caleidoscópio
Pela fresta observo a dança das cores nos vidros recortados. Separam-se, aglutinam-se, desenham maravilhas Como se bailassem calçando sapatilhas. A cada movimento, uma surpresa, a mesma flor concebida com destreza,...
Flora Figueiredo – Royal flush
Reverências à Dama de Copas, que ousa andar de coração a mostra, leva flores nas mãos em vez de espadas, em vez de paus e pedras enfeitadas, que ostenta rubra...
Flora Figueiredo – Regência
Rabisco aqui de próprio punho o rascunho de tuas horas que são minhas. Entreguei à lua a regência de minhas horas que são tuas. Pediu-se ao vento para enganar o...
Flora Figueiredo – Regulamento
Eu não juro nada por coisa alguma, pois que todo caminho e de incerteza. A ordem se desarruma, a história se desajeita, o arranjo troca de lado e vira a...
Flora Figueiredo – Despedida
Se tiver que ir, vai. O que fica para trás, não sendo mentira, não racha, nem rompe, não cai. Ninguém tira. Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, para...
Venho costurando minha vida com linhas de saudade. Procuro equilibrar-lhes a cor para que o resultado final não seja triste. Por vezes, é o cinza que insiste; por vezes, impera...
Flora Figueiredo – Brancos
Perdoa coração este momento de introspecção. Sinto teu aperto, teu descompasso, tua pressão. Peço-te perdão por mais este instante oprimido, por todo impulso contido, cada decepção que te causei: as...
Flora Figueiredo – Arquitetura
Solidão é quando se sente o próprio hálito, se se descobre pálido olhando o vão do dedo. Estar só é morrer de medo do silêncio, amassar o lenço na palma...
Flora Figueiredo – Amanhecência
Quero ficar só, para respirar a estrela. Deixar a noite escorrer a mágoa, dissolvê-la em enxurrada. Não deixar nada a comprimir o peito. Quero a madrugada de tal jeito, que...
Flora Figueiredo – Alma
Acho que os sentimentos têm células, pois as sinto remexer, intensas libélulas a se fundir e a se desprender. Alimentam-se de lágrimas e risos, sempre crescem. A cada instante que...
Flora Figueiredo – Sombras
Meio-dia no alfabeto. A luz incide, direto. Uma letra se projeta e fica colada no teto. O alfabeto se inquieta. Ao perceber-se incompleto, propõe de pronto um acerto: troca-se a...
Flora Figueiredo – Desvio
Podemos marcar um desencontro. Eu mando a carta, fico sem resposta, você sai do jogo, eu faço a aposta, tentamos a canção, mas desafina; rezamos a oração, mas descombina, o...
Flora Figueiredo – Curativo
Quanto dura uma crise de amor? Ela tem cura? Como se estanca o sangue da fissura? Colam-se os cacos? Cospem-se os sapos? Rasgam-se os trapos? Se houver receita que atenue...

