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Lya Luft

Lya Luft

Lya Luft – Segunda Canção dos filhos

André:

Dorme filho meu, que eu te contemplo.
Dorme fragilidade que assusta,
espelho onde me revejo,
corpo feito da minha carne obscura
com os olhos azuis da minha infância,
caminho dos teus próprios passos
para longe dos meus.

Dorme filho meu,
vaso onde tantas vidas convergiram,
centro da minha ternura, assombro
de pressentir a tua liberdade
num círculo tão maior do que os meus braços.
Dorme e inventa o teu futuro
enquanto eu vou me transformando
em teu passado.

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Canção do amor sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Primeira canção dos filhos

Susana:

Pareces tão minha,
pérola destas carnes secretas
agora emersa, agora rosto
que vai adquirindo seus traços,
pequena magnólia brotando
no galho do meu amor.
Vens tão entregue, e sei que não és minha:
és do teu futuro que eu não alcançarei inteiro.
Presa no meu abraço eu te sinto voar,
voar com esses pássaros de maio,
num céu de luz e de incertezas sobre nós.

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Canção do enfermo

Um gelo o envolveu, e ele,
antes tranquilo e bom, agora
é mais um filho que apela
para cuidados essenciais.
Sei que se foi, que paira
num limbo entre a vida e a noite:
mas às vezes o seu verde olhar
— que me iluminava tanto —
repousa em mim, e é como
se me desse recados do seu mundo.

Mesmo se beijo a sua boca inerte,
pego a sua mão tão magra,
digo seu nome pronunciado
em tantos anos,
ele apenas me olha, por um lapso
de segundo devolvido
a mim, outra vez me vendo,
quem sabe ainda uma vez
comigo.

Mas o anjo da morte,
que já encosta
nele a sua asa bela e fria,
novamente o recolhe nesse espaço
onde se afasta de mim sem viajar direito,
onde se vai sem se afastar de todo,
vacilando entre o nosso indagar
e as respostas que ele já percebe
do outro lado.

 

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Canção do recomeço

A casa aonde voltei
depois de muitos anos,
boia como uma ilha de aguapés na noite,
presa por uma raiz doce e dolorosa
que me define.

Na madrugada caminho pelos quartos
como no fundo do mar
onde essa raiz se finca.
Pelas vidraças, o jardim são algas;
meus filhos dormem como quando
eram meninos,
e suas respirações, como sentimentos,
fundem-se neste bojo.

Este é o meu lugar
aonde voltei depois de tanto tempo,
como quem, misturando peças
dos enigmas mais arcaicos,
montasse laboriosamente o seu quebra-cabeça.

 

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Canção de um longo amor

Tão sutilmente em tantos longos anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.

Presença e solidão foram tecendo a vida:
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado,
o tédio que ronda e não se instala.
Vontade de partir e de ficar,
beleza reinventada a cada hora para não baixar
o pó do cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se almas destes corpos,
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

 

Lya Luft, Secreta mirada

Lya Luft

Lya Luft – Canção da mulher que escreve

Não perguntem pelo meu poema:
nada sei do coração do pássaro
que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
não me dissequem, não segurem entre vidros
essas canções, essas asas, essa névoa.
Não queiram me prender como a um inseto
no alfinete da interpretação:
se não podem amar o meu poema, deixem
que seja somente um poema.

(Nem eu ouso erguê-lo entre meus dedos
e perturbar a sua liberdade.)

 

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Lya Luft

Lya Luft – Canção da voz em mim

O poema abre suas câmaras de sombra:
é o tempo secreto,
vai brotar agora mesmo a palavra exata,
a chave da minha ideia,
a moldura de minha alma desencontrada.
Não sei a forma das palavras
nem o ritmo dos sons, mas o que tenho a dizer
quer nascer de mim e se retorce.

Sento-me diante do silêncio
como junto de meus mais belos sonhos:
meus pés, minhas mãos, os meus cabelos
estão enredados nessa teia.
Quero sair, escapar e esquecer.

Mas o poema insiste
com a mesma sedução da minha infância:
com formas, cores e rumores
da trama de viver e de morrer.

 

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