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Aleksandr Blok

Aleksandr Blok

Aleksandr Blok – Cleópatra

O museu triste da rainha
Há um, dois, três anos já se abriu.
Bêbada e louca a turba ainda se apinha…
Ela espera no túmulo sombrio.

Jaz na sinistra caixa
De vidro, nem morta nem viva.
Sobre ela a multidão saliva
Palavras torpes em voz baixa.

Ela se estende preguiçosamente
No sono eterno a que se recolhera…
Lenta e suave, uma serpente
Morde o peito de cera.

Eu mesmo, fútil e perverso,
Com olheiras de anil,
Vim ver o lúgubre perfil
Na cera fria imerso.

Todos te contemplamos neste instante.
Se essa tumba não fosse uma mentira
Eu ouviria, outra vez, arrogante,
Teu lábio putrefato que suspira:

“Dai-me incenso. Esparzi-me flores.
Em eras anteriores
Fui rainha do Egito. Hoje sou só
Cera. Apodrecimento. Pó.”

“Rainha! O que há em ti que me fascina?
No Egito, como escravo, eu te adorei.
Agora a sorte me destina
A ser poeta e rei.

Da tua tumba não vês que já imperas
Na Rússia como em Roma? Não vês, mais,
Que eu e César, em séculos e eras,
Ante o destino seremos iguais?”

Emudeço. Contemplo. Ela não muda.
Só o peito pulsa, quase
Respirando entre a gaze,
E ouço uma fala muda:

“Outrora eu suscitei paixões e lutas.
O que suscito agora?
Um poeta bêbado que chora
E o riso bêbado das prostitutas.”

Aleksandr Blok, Poesia da recusa

Aleksandr Blok

Aleksandr Blok – Do ciclo versos sobre a bela dama

No templo de naves escuras, 
Celebro um rito singelo. 
Aguardo a Dama Formosura 
À luz dos velários vermelhos. 

À sombra das colunas altas, 
Vacilo aos portais que se abrem. 
E me contempla iluminada 
Ela, seu sonho, sua imagem. 

Acostumei-me a esta casula 
Da majestosa Esposa Eterna. 
Pelas cornijas vão em fuga 
Delírios, sorrisos e lendas. 

São meigos os círios, Sagrada! 
Doce o teu rosto resplendente! 
Não ouço nem som, nem palavra, 
Mas sei, Dileta – estás presente.

 

Aleksandr Blok, Poesia russa moderna

Aleksandr Blok

Alexander Blok – Fábrica

No prédio há janelas citrinas
E à noite – quando cai a noite,
Rangem aldravas pensativas,
Homens aproximam-se afoitos.

E os portões fechados, severos;
Do muro – do alto do muro,
Alguém imóvel, alguém negro
Numera os homens sem barulho.

Eu, dos meus cimos, tudo ouço:
Ele os chama, com voz de aço,
Costas curvas, sofrido esforço.
O povo aglomerado em baixo.

Eles hão de entrar à porfia,
Hão de pôr às costas o fardo.
Riso nas janelas citrinas:
Tapearam os pobres-diabos.

 

Alexander Blok, Poemas Russos