Navegando pela Categoria

Cacaso

Cacaso

Cacaco – Em tempo de notícia

Deitado ao frio espero
a transição que já vem:
Galo rompendo luas
galopando entre marcas
que não ousam assentar.
Onde a noite me recolhe
em silente nostalgia
mando notícia dos meus:
A família se dissolve
e transborda mansamente,
dispersante além do frasco:
Insônia ramo partido
medo, tortura, asco.
A cada passo uma pena
a cada traço uma cena
desafia os meus olhos
nem duo de contrição.
E vou de mim despedindo,
aceno ao largo, na volta,
em mim mesmo que prescrevo
sinuosa afeição.
Sou mapa e não me desvendo,
sou ilha e não me abraço.
Sou chama na saliência
deste incontido amor.
Peixe parindo rios,
cristal de minha ambição
que se recua a si mesmo
entre vísceras latentes
retidas no alçapão.
Terra de peixe: magia.
Sangue de peixe: noção.
Não era sangue nem terra
adubo de fina hera
e alga também não era
convergindo na feição.
Não era sangue e tingia
não era amor e doía
pungia no coração.
Que sombra já me pressente
e me nomeia até mesmo
onde não mando cartão?
Indago apontamentos
e me censuro e cerco
o que de mim esvoaça
sem formas de contenção.
Estou partindo: para onde?
Viajo pelo deserto
e sinto que vou morrer.
E sinto voar a pena
ao longo de meus cabelos.
Agora estou livre e deito
numa planície minada.
Entre rios cresce a chama
buscando uniformidade,
uma orquídea entre as ramas.
Em meus olhos cravejados
constroí o peixe o retiro:
Fluir além das escamas.

Cacaso, A Palavra Cerzida

Cacaso

Cacaso – A fonte

Fonte da saudade
toda essa água tão limpinha
toda canção que ninguém fez
coisa sem porquê e sem destino
não avisa quando vem
quando vai…
passou a vida inteira
a fonte não secou
pra que lugar, me diga
foi o meu amor, ah!
passou a noite inteira
essa noite serenou
o meu bem dormiu comigo
e a gente acordou
fonte da saudade
onde deságua tão limpinha
toda canção
que ninguém fez
coisa sem porquê e sem destino
não avisa quando vem
quando vai
deságua…

Cacaso, Beijo na boca e outros poemas

Cacaso

Cacaso – Surdina

Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora a Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina…
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina…

Cacaso, Lero-lero

Cacaso

Cacaso – Refém

Eu sempre quis requebrar
só me faltou poesia
eu nunca soube rimar
mas sempre tive ousadia
nunca joguei o destino
e nem matei a família
a minha sorte na vida
se escreve com C cedilha
Eu nunca tive ideal
nunca avancei o sinal
nem profanei minha filha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Eu sempre quis acertar
só me faltou pontaria
eu nunca soube cantar
mas sempre tive mania
nunca brinquei carnaval
e nem saí da folia
nunca pulei a fogueira
e nem dancei a quadrilha
Eu nunca amei a ninguém
nunca devi um vintém
nem encontrei minha trilha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

 

Cacaso, Poesia marginal

Cacaso

Cacaso – Terceiro amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

 

Cacaso, Poesia marginal – Antologia poética