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Cora Coralina

Cora Coralina

Cora Coralina – Meu Epitáfio

Morta… serei árvore
Serei tronco, serei fronde
E minhas raízes
Enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.

Enfeitei de folhas verdes
A pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

Cora Coralina, Meu livro de cordel

Cora Coralina

Cora Coralina – Meias-impressões de Aninha (Mãe)

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições…
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

Cora Coralina, Vintém de cobre

Cora Coralina

Cora Coralina – Cântico primeiro de Aninha

A estrada está deserta,
vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de há muito se apagou.

A longa noite escura…
A caminhada…
Carreando pedras,
construindo com as mãos sangrando
minha vida.

Deserta a longa estrada…
Mortas as mãos viris que se estendiam às minhas.
Dentro da mata bruta
Leiteando imensos vegetais.
Cavalgando o negro corcel da febre,
Desmontado para sempre.

Passa a falange dos mortos…
Silêncio. Os namorados dormem.
Flutuam véus roxos no espaço.
Na esquina do tempo morto
À sombra dos velhos seresteiros…
A flauta, o violão, o bandolim.
Alertas as vigilantes,
barroando portas e janelas cerradas.
Cantava de amor a mocidade.

A estrada está deserta…
Alguma sombra escassa
buscando o pássaro perdido.
Morro acima. Serra abaixo.
Ninho vazio de pedras.
Eu avante na busca fatigante
de um mundo impreciso,
todo meu.
feito de sonho incorpóreo
e terra crua.

Bandeiras rotas, despedaçadas,
quebrado o mastro na luta desigual.
Sozinha, pisada. Nua. Espoliada, assexuada.
Sempre caminheira, removendo pedras.
Morro acima. Serra abaixo.
Longa procura de uma furna escura,
fugitiva a me esconder.
Escondida no meu mundo.
Longe… Longe…
Indefinido longe, nem sei onde.

O tardio encontro.
Passado o tempo de semear o vale,
de colher o fruto.
O desencontro,
da que veio cedo e do que veio tarde.

A candeia está apagada
e na noite gélida eu me vesti de cinzas.

Meus olhos estão cansados
Meus olhos estão cegos
Os caminhos estão fechados.

Cora Coralina, Vintém de cobre

Cora Coralina

Cora Coralina – Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina, [O poema acima, inédito em livro], foi publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” — caderno “Folha Ilustrada”, edição de 4/7/2001.

Cora Coralina

Cora Coralina – A fala de Aninha (é abril…)

É abril na minha cidade.
É abril no mundo inteiro.
Sobe da terra tranquila um estímulo de vida e paz.
Um docel muito azul e muito alto cobre os reinos de Goiás.
Um sol de ouro novo vai virando e fugindo a longínquas partes do mundo.
Desaguaram em março as últimas chuvadas do verão passado.

É festa alegre das colheitas.
Colhem­-se as lavouras.
Quebra­-se o milho maduro.
Bate­-se o feijão
já se cortou e se empilhou o arroz das roças.
As máquinas beneficiam o novo
e as panelas cozinham depressa o feijão novo e gostoso.
A abundância das lavouras são carreadas para depósitos e mercados.
Encostam­-se nas máquinas os caminhões em carga completa.
Homens fortes, morenos, de dorso nu e reluzente,
descarregam e empilham a sacaria pesada.
Fecham­-se quarteirões de ruas para a secagem de grãos
que secadores já não comportam.
Gira o capital, liquida­-se nos bancos, paga­-se no comércio.
As lojas faturam alto. É um abril de bênçãos e aleluias
e cantam nas madrugadas todos os galos do mundo.
Os pássaros, os bichos se fartam nas sobras do que vai perdido
pelas roças. Respigam aqueles que não plantam nem colhem
e têm direito às sobras dos que plantam e colhem.
Mulheres e crianças estão afoitas dentro das lavouras, brancas,
de algodão aberto, colhendo e ensacando os capulhos de neve.
Sobe dos currais serenados a evaporação acre do esterco e da urina
deixados pelos animais de custeio.

O leite transborda dos latões no rumo das cooperativas,
Borboletas amarelas voam sobre o rio.
E um sobrevivente bem­-te­-vi lança seu desafio
pousado nas palmas dos coqueiros altos.
É abril no mundo inteiro. Os paióis estão acalculados.
As tulhas derramando. Mulheres e crianças de sítio vestem roupa nova.
E a vida se renova na força contagiante do trabalho.
Um sentido de fartura abençoa os reinos da minha cidade.

Cora Coralina, Vintém de cobre

Cora Coralina

Carlos Drummond de Andrade – As identidades do poeta

De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?

Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?

Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,

Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,

Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?

À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.

Carlos Drummond de Andrade, Farewell

Cora Coralina

Cora Coralina – A Fala de Aninha (várias…)

A dureza da vida não são carências
nem pobreza.
Sofrem aqueles que desconhecem a luta
e menosprezam o lutador.

Tanto tempo perdido
sem semear e sem plantar.
No fim a tulha vazia.
Vazio o coração que não soube dar.

Ele era velho e era um mestre.
Eu era jovem e era discípula.
Ele mestreou e ela aprendeu.
E dessa escola ninguém ouviu falar.

Ele se foi sem saber que era um mestre.
Ela ficou, sem saber que foi discípula.
Só muito depois, compreendeu.
E já era tarde.

Minha mocidade, perdida no passado…
Tantos mestres à minha volta…
Tantos serões inaproveitados…
E eu? Sem saber de nada.

Ninguém me esclareceu:
Ouve e aprende.
É a vida que está ensinando.
Quando veio o entendimento,
os túmulos estavam calados.

Cora Coralina, Vintém do cobre

Cora Coralina

Cora Coralina – Recados de Aninha – II

A vida é boa e nós podemos fazê­-la sempre melhor.
E o melhor da vida é o trabalho.

Você é um jovem universitário.
Sinta a grandeza de o ser.
As universidades são feitas para ultrapassar milênios.
A sua universidade, UnB, é mais nova que você.
Isto tem sequência e consequência.

Você é um jovem superdotado.
Seu ambiente mental é dimensionado em grandeza maior.
Saiba que estudos e valores dos acasos do nascimento,
em alturas sociais, correm parelhas com o homem ignorante,
de braços musculosos, que, na terra agarrado ao cabo de uma enxada,
à relha de um arado, sulca e semeia o grão,
e colhe a espiga que, através de mãos calosas e processos vários,
vem à sua mesa no pão da manhã, nos pratos de todos os dias.

Saiba mais, e saiba com humildade,
que o lixeiro que remove o lixo de sua casa
é tão necessário e útil à coletividade,
como um estudante carregado de livros.
Enquanto este sonha com o brilho das estrelas,
aquele faz serviço presente indispensável.
Remove toneladas de lixo e sabe, com humildade do homem que trabalha,
que será sempre um lixeiro da cidade.

Jovem, você fuma. Acredita ser um massificado dentro da coletividade
urbana ou ainda é dono de reservas de personalidade? Faça esse teste.
Na sua rua, em qualquer lugar, aproxime­-se do lixeiro, ofereça a ele
o seu maço de cigarro de boa marca e mais a caixa de fósforo.
Acrescente: amigo você precisa mais disso do que eu. Aceite.
Daí, vai comprar outro. Outro maço, outro fósforo.
De tempos em tempos faça o mesmo.
No fim você desistiu do cigarro e afirmou a sua personalidade,
num gesto de fraternidade humana.

Cora Coralina, Vintém de cobre

Cora Coralina

Cora Coralina – Pedras

Os morros cantam para meus sentidos
a música dos vegetais
que se movem ao vento.

As pedras imóveis me enviam
uma bênção ancestral.
Debaixo da minha janela
se estende a pedra-mãe.

Que mãos calejadas
e imensas mãos sofridas de escravos
a teriam posto ali,
para sempre?

Pedras sagradas da minha cidade,
nossa íntima comunicação.
Lavada pelas chuvas,
queimada pelo sol,
bela laje velhíssima e morena.

Eu a desejaria sobre meu túmulo
e no silêncio da morte,
você, uma pedra viva, e eu,
teríamos uma fala
do começo das eras.

Cora Coralina, Villa Boa de Goiaz

Cora Coralina

Cora Coralina – O poeta e a poesia

Não é o poeta que cria a poesia.
E sim, a poesia que condiciona o poeta.

Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o artífice da palavra.
E com ela compõe a ourivesaria de um verso.

Poeta, não somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia,
se extasia sensível ao achado
de uma rima, à autenticidade de um verso.

Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo das palavras,
no imprevisto texto, atingir a perfeição inalcançável.

O autêntico sabe que jamais
chegará ao prêmio Nobel.
O medíocre se acredita sempre perto dele.

Alguns vêm a mim.
Querem a palavra, o incentivo, à apreciação.
Que dizer a um jovem ansioso na sede precoce de lançar um livro…
Tão pobre ainda a sua bagagem cultural,
tão restrito seu vocabulário,
enxugando lágrimas que não chorou,
dores que não sentiu,
sofrimentos imaginários que não experimentou.

Falam exaltados de fome e saudades, tão desgastadas
de tantos já passados.
Primário nos rudimentos de sua escrita
e aquela pressa moça de subir.
Alcançar estatura de poeta, publicar um livro,

Oriento para a leitura, reescrever,
processar seus dados concretos.
Não fechar o caminho, não negar possibilidades.
É a linguagem deles, seus sonhos.
A escola não os ajudou, inculpados, eles.

Todos nós temos a dupla personalidade.
O id e o ego.
Um representa a sua vida física, material completa
Pode ser brilhante, enriquecida de valores que ajudam a ser feliz,
pode ser angustiada e vacilante, incerta, insatisfeita.
Mesmo possuindo o que deseja, nada satisfazendo.
O id representa sua vida interior paralela, ambivalente,
exercendo seu comando em descargas nervosas,
no eterno conflito entre a razão e o impulso incontrolado.
Dupla vida inter e extra, personalidade se contrapondo.
Pode ser trivial e dependente, podemos fazê-la rica e cheia de nobreza,
nos valendo da força incomensurável do pensamento positivo
emanado da vida interior que é o nosso mundo,
invisível a todos, sensível ao nosso ego.

Há sempre uma hora maldita na vida de um homem.
Pode levá-lo ao crime e às paredes sombrias de uma cela escura.
Um curto circuito nas suas baterias carregadas,
uma descarga nas linhas de transmissão potencial.
Daí, fatos aberrantes que surpreendem.

Conclusões demolidoras de um passado brilhante.

Cora Coralina, Vintém de cobre: meias confissões de Aninha

Cora Coralina

Cora Coralina – Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Cora Coralina

Cora Coralina – O Cântico de Aninha

Vintém de Cobre…
Antigos vinténs escuros.
(De cobre preto foi batizado).
Azinhavrados.

Ainda o vejo,
Ainda o sinto,
Ainda o tenho,
na mão fechada.

Moeda triste, escura, pesada,
da minha casa,
da minha terra,
da minha infância,
da gente pobre, daquele tempo.

Tudo velho, gasto, conservado,
empoeirado, pelos cantos.
Levados para o depósito do velho sobradão.

Colchas de retalhos desiguais e desbotados.
Panos grosseiros encardidos, remendados.
Potes e gamelas, pratos desbeiçados,
velhos sapatos,
furados, acalcanhados
eram disputados,
tinha sempre alguém que os quisesse.

Pilões lavrados a machado,
cavados em cepos de aroeira.
Mão de pilão, aleijada, redonda, sem dedos.
Mão pesada de bater, socar, esmoer, quebrar, pulverizar.
Mãos antigas, de menina­-moça, agarradas, em movimentos ritmados,
alternados, batidas contínuas, compassadas.
Engenho doméstico de pilar.

“Quarenta vintém derréis…”
Dinheiro curto, escasso.
Parco. Parcimonioso.
De se guardar.
De um tempo velho.
De gente pobre.
Da minha terra.
Da minha infância.
Vintém de Cobre!…
Economia. Poupança.

A casa pobre.
Mandrião de saias velhas
da minha bisavó.

Recortadas, costuradas para mim.
Timão de restos de baeta.
Vida sedentária.
Orgulho e grandeza do passado.

Nesse tempo me criei.
Daí, este livro – Vintém de Cobre,
numa longa gestação,
inconsciente ou não,
que vem da infância longínqua
à ancianidade presente.

 

Cora Coralina, Vintém de cobre

Cora Coralina

Cora Coralina – A catedral de Goiás

Levantam­-se, postas
duas mãos pequenas de mulher…
É só o que se vê.
O mais, a face, o nome
A modéstia esconde.

Levantam­-se juntas
em postura humilde
essas mãos pequenas
que vão movendo
pedras e tijolos,
cal, areia e cimento
e homens sobre andaime.

E o velho paredão de pedras,
enegrecido pelos sóis e pelas chuvas,
desmantelado, há tanto tempo,
sem esperança e sem conforto
no olhar indiferente dos homens
rejuvenescido se levanta.
Apruma e se alteia para o espaço
afirmando a Fé no coração dos simples.

Duas mãos pequenas
de mulher
se estenderam de porta em porta
dos filhos de Goiás,
pedindo a sobra das mesas fartas.

Juntando aparas,
catando migalhas,
batendo na porta
dos corações,
essas mãos pequenas
no milagre da Fé,
multiplicam a esmola
que levanta a Catedral.

No silêncio da noite,
quando as luzes racionadas
se apagam na cidade,
da velha Matriz vejo sair
uma solene procissão de bispos,
de velhos cônegos
e de antigos clérigos
e monsenhores
do tempo da Matriz de pé,
do tempo da Matriz caída.
Políticos e governantes,
desembargadores e brigadeiros,
ricos e indigentes
passam lentamente,
olhando irreverentes,
a Catedral que se levanta
do montão de ruínas.

E avistam duas mãos
pequenas de mulher,
batendo na porta dos corações,
multiplicando pela Fé,
a esmola que levanta
a Catedral.

 

Cora Coralina, Villa boa Goyaz

Cora Coralina

Cora Coralina – Ressalva

Este livro foi escrito
por uma mulher
que no tarde da Vida
recria e poetiza sua própria
Vida.

Este livro
foi escrito por uma mulher
que fez a escalada da
Montanha da Vida
removendo pedras
e plantando flores.

Este livro:
Versos… Não.
Poesia… Não.
Um modo diferente de contar velhas estórias.

 

Cora Coralina, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Cora Coralina

Cora Coralina – Recados de Aninha – I

Meu jovem, a vida é boa, e você cantando o cântico
da mocidade pode fazê­-la melhor. E o melhor da vida é o trabalho.
No trabalho está a poesia e o ideal, assim possa sentir o poeta.
Só o trabalhador sabe do mistério de uma semente germinando na terra.
Só o cavador pode ver a cor verde se tornar azul.

Ele, na flor, já viu o fruto e no fruto prevê a semente.
E sabe que uma cana de milho, uma braçada de folhas e palhas
na terra é vida que se renova.
Que sabe você, jovem poeta, da fala das sementes?
Um poeta parnasiano do passado, conversava com as estrelas,
foi coisa linda no tempo.

Converse, você, poeta destes novos tempos,
converse com as sementes e as folhas caídas
que pisa distraído.
Você vai sobre rodas e caminha sobre vidas que o asfalto recobriu.
Quem fala essa mensagem é uma mulher muito antiga
que entende a fala e a vida de um monte de lixo
que vê da janela da Casa Velha da Ponte, lá do outro lado do rio,
nos reinos da minha cidade.

A vida é boa. Saber viver é a grande sabedoria.
Saber viver é dar maior dignidade ao trabalho.
Fazer bem feito tudo que houver de ser feito.
Seja bordar um painel em fios de seda ou lavar
uma panela coscorenta. Todo trabalho é digno de ser bem-feito.

Coisa sagrada o trabalho do homem.
A dignidade de um profissional.
A seriedade de um operário, sua competência.
Respeito maior o trabalho obscuro do braçal,
identificado com a terra, com a semente, com a chuva,
com o paiol, com o rego­-d’água.
Coisa mais nobre a porteira do sítio,
o batente da casa, o banco rústico, a mesa coberta
com uma toalha de tear. A taipa doméstica, rebrilhante
e acesa. Coisa mais urgente? A presença do homem na casa.
Homem culto da cidade,
num encontro com o da roça com sua enxada ao ombro,
ceda a ele sua preferência. Ele tem obrigação que você desconhece.
Você veste e se alimenta da semente que ele aninha na terra.
Você é um cidadão, ele é um lavrador.

 

Cora Coralina, Vintém de cobre