disputados no cuspe à distância servem para poesia O homem que possui um pente e uma árvore serve para poesia Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os...
Manoel de Barros
a boca na pedra o levara a cacto a praça o relvava de passarinhos cantando ele tinha o dom da árvore ele assumia o peixe em sua solidão seu amor...
Manoel de Barros – Ode vingativa
Ela me encontrará pacífico, desvendável Vendável, venal e de automóvel. Ela me encontrará grave, sem mistérios, duro Sério, claro como o sol sobre o muro. Ela me encontrará bruto, burguês,...
Manoel de Barros – Caminhada
Eu vinha aquela tarde pela terra fria de sapos… O azul das pedras tinha cauda e canto. De um sarã espreitava meu rosto um passarinho. Caracóis passeavam com róseos casacos...
Manoel de Barros – O lápis
É por demais de grande a natureza de Deus. Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular. Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis. Fosse ela, quem me...
Ó passar-se invisível pela alma da alameda de casas espaçosas Imaginando a feição ideal dentro de cada uma! Ir recebendo um pouco de poesia no peito Sem lembranças do mundo,...
Manoel de Barros – O muro
Não possuía mais a pintura de outros tempos. Era um muro ancião e tinha alma de gente. Muito alto e firme, de uma mudez sombria. Certas flores do chão subiam...
Manoel de Barros – O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto: Madrugada a minha aldeia estava morta. Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa....
O mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores. Nossa casa foi feita de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Nos fundos...
Hoje eu vi Soldados cantando por estradas de sangue Frescura de manhãs em olhos de crianças Mulheres mastigando as esperanças mortas Hoje eu vi homens ao crepúsculo Recebendo o amor...
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas. Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci. Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos...
Manoel de Barros – Estreante
Fui morar numa pensão na rua do Catete. A dona era viúva e buliçosa E tinha uma filha Indiana que dava pancas. Me abatia. Ela deixava a porta do banheiro...
Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem...
Manoel de Barros – O Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um homem solitário Que olhava fixo para certa música estranha Que um menino extraía do coração de um sapo. Naquela manhã dominical eu...
Manoel de Barros – Peraltagem
O canto distante da sariema encompridava a tarde. E porque a tarde ficasse mais comprida a gente sumia dentro dela. E quando o grito da mãe nos alcançava a gente...

