Fui Essa que nas ruas esmolou, E fui a que habitou Paços Reais; No mármore de curvas ogivais Fui Essa que as mãos pálidas pousou… Tanto poeta em versos me...
Florbela Espanca
Florbela Espanca – Desejos Vãos
Eu q’ria ser o mar d’altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu q’ria ser a pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte! Eu...
Florbela Espanca – Angústia
Tortura do pensar! Triste lamento! Quem nos dera calar a tua voz! Quem nos dera cá dentro, muito a sós, Estrangular a hidra num momento! E não se quer pensar!…...
Florbela Espanca – Doce Certeza
Por essa vida fora hás-de adorar Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca, Em infinito anseio hás de beijar Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca! Hás de guardar em cofre perfumado...
Florbela Espanca – Suavidade
Poisa a tua cabeça dolorida Tão cheia de quimeras, de ideal Sobre o regaço brando e maternal Da tua doce Irmã compadecida. Hás de contar-me nessa voz tão q’rida Tua...
Florbela Espanca – Neurastena
Sinto hoje a alma cheia de tristeza! Um sino dobra em mim, Ave Marias! Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias, Faz na vidraça rendas de Veneza… O vento desgrenhado,...
Florbela Espanca – Mulher I
Um ente de paixão e sacrifício, De sofrimentos cheio, eis a mulher! Esmaga o coração dentro do peito, E nem te doas coração, sequer! Sê forte, corajoso, não fraquejes Na...
Florbela Espanca – Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor; A tua amiga só, já que não queres Que pelo teu amor seja a melhor A mais triste de todas as mulheres. Que só,...
Hora sagrada dum entardecer De Outono, à beira mar, cor de safira. Soa no ar uma invisível lira… O sol é um doente a enlanguescer… A vaga estende os braços...
A Noite vem poisando devagar Sobre a terra que inunda de amargura… E nem sequer a bênção do luar A quis tornar divinamente pura… Ninguém vem atrás dela a acompanhar...
Florbela Espanca – A minha dor
A minha Dor é um convento ideal Cheio de claustros, sombras, arcarias, Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas dum requinte escultural. Os sinos têm dobres de agonias Ao...
Florbela Espanca – O fado
Corre a noite, de manso num murmúrio, Abre a rosa bendita do luar… Soluçam ais estranhos de guitarra… Oiço, ao longe, não sei que voz chorar… Há um repoiso imenso...
Florbela Espanca – Os teus olhos
O céu azul, não era Dessa cor, antigamente; Era branco como um lírio, Ou como estrela cadente. Um dia, fez Deus uns olhos Tão azuis como esses teus, Que olharam...
Florbela Espanca – Dantes…
Quando ia passear contigo ao campo, Tu ias sempre a rir e a cantar; E lembra-me até uma cotovia Que um dia se calou pra te escutar, Enquanto eu apanhava...
O nosso amor morreu… Quem o diria! Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta, Ceguinha de te ver, sem ver a conta Do tempo que passava, que fugia! Bem estava...

