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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Supremo enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
a sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
folhas murchas de rojo à tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
nesse corpo vibrante de mulher
será o meu que hás de encontrar ainda…

Florbela Espanca, Livro dos sonetos

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Alentejano

Deu agora meio-dia; o sol é quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros,
Na faina, alegres, desde o sol nascente.

Cantam as raparigas meigamente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros.
E há perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d’oiro ardente.

A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bênção dulcíssima dos céus.

Há gritos arrastados de cantigas…
E eu sou uma daquelas raparigas…
E tu passas e dizes: «Salve-os Deus!»

Florbela Espanca, Livro de soror saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – De joelhos

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer…
Bendita seja a lua que inundou
De luz, a terra, só para te ver…

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem,
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Florbela Espanca, Poesia

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir…
Que se sonhasse a chorar…

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca… um lamento…

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte

Despedaçar esses laços!…
… É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!

Florbela Espanca, Poesia de Florbela Espanca

Florbela Espanca

Florbela Espanca – A flor do sonho

A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

Ó Flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca, Poesia de Florbela Espanca

Florbela Espanca

Florbela Espanca – O que tu és…

És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera…
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!…

Florbela Espanca, O livro de sóror saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Torre de névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!…”

Calaram-se os poetas, tristemente…
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!…

Florbela Espanca, Sonetos completos

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Passeio ao campo

Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!…

Florbela Espanca, Charneca em Flor

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Soror saudade

Irmã, Soror Saudade me chamaste…
E na minh’alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,
Jamais me hão-de chamar outro mais doce.
Com ele bem mais triste me tornaste…

E baixinho, na alma da minh’alma,
Como benção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: «Irmã, Soror Saudade…»

Florbela Espanca, Livro de soror saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! …

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento …

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

 

Florbela Espanca, Livro de mágoas 

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Horas rubras

Horas profundas, lentas e caladas 
Feitas de beijos rubros e ardentes, 
De noites de volúpia, noites quentes 
Onde há risos de virgens desmaiadas… 

Oiço olaias em flor às gargalhadas… 
Tombam astros em fogo, astros dementes, 
E do luar os beijos languescentes 
São pedaços de prata p’las estradas… 

Os meus lábios são brancos como lagos… 
Os meus braços são leves como afagos, 
Vestiu-os o luar de sedas puras… 

Sou chama e neve e branca e mist’riosa… 
E sou, talvez, na noite voluptuosa, 
Ó meu Poeta, o beijo que procuras! 

 

Florbela Espanca, Livro de sóror de saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – A vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento… 
Lançar um grande amor aos pés d’alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 

Todos somos no mundo “Pedro Sem”, 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo donde vem! 

A mais nobre ilusão morre… desfaz-se… 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida… 

Amar-te a vida inteira eu não podia… 
A gente esquece sempre o bem dum dia. 
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!… 

 

Florbela Espanca, Livro de sóror saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Castelã da tristeza

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?… A quem?…
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
Chora o silêncio… nada… ninguém vem…

Castelã da Tristeza, por que choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?…

À noite, debruçada pelas ameias,
Por que rezas baixinho?… Por que anseias?…
Que sonho afagam tuas mãos reais?…

 

Florbela Espanca, Sonetos completos

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?… 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

 

Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Pequenina

És pequenina e ris … A boca breve 
É um pequeno idílio cor-de-rosa … 
Haste de lírio frágil e mimosa! 
Cofre de beijos feito sonho e neve! 

Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 
Te fez nascer como um perfume leve! 

O ver o teu olhar faz bem à gente … 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 
Quando o teu nome diz, suavemente … 

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou, 
Que ela afaste de ti aquelas dores 
Que fizeram de mim isto que sou! 

 

Florbela Espanca, Livros de mágoas