Ai as almas dos poetas Não as entende ninguém; São almas de violetas Que são poetas também. Andam perdidas na vida, Como as estrelas no ar; Sentem o vento gemer...
Florbela Espanca
Florbela Espanca – Inconstância
Procurei o amor, que me mentiu. Pedi à vida mais do que ela dava; Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu! Tanto clarão nas trevas refulgiu, E...
Quanta mulher no teu passado, quanta! Tanta sombra em redor! Mas que me importa? Se delas veio o sonho que conforta, a sua vinda foi três vezes santa! Erva do...
Florbela Espanca – Alentejano
Deu agora meio-dia; o sol é quente Beijando a urze triste dos outeiros. Nas ravinas do monte andam ceifeiros, Na faina, alegres, desde o sol nascente. Cantam as raparigas meigamente....
Florbela Espanca – De joelhos
“Bendita seja a Mãe que te gerou.” Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer! Bendita essa canção que...
Florbela Espanca – Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir… Que se sonhasse a chorar… Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz,...
A Flor do Sonho alvíssima, divina Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína. Pende em meu seio a haste branda...
Florbela Espanca – O que tu és…
És Aquela que tudo te entristece Irrita e amargura, tudo humilha; Aquela a quem a Mágoa chamou filha; A que aos homens e a Deus nada merece. Aquela que o...
Subi ao alto, à minha Torre esguia, Feita de fumo, névoas e luar, E pus-me, comovida, a conversar Com os poetas mortos, todo o dia. Contei-lhes os meus sonhos, a...
Meu Amor! meu Amante! Meu amigo! Colhe a hora que passa, hora divina, Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo! Sinto-me alegre e forte! Sou menina! Eu tenho, Amor, a cinta...
Florbela Espanca – Soror saudade
Irmã, Soror Saudade me chamaste… E na minh’alma o nome iluminou-se Como um vitral ao sol, como se fosse A luz do próprio sonho que sonhaste. Numa tarde de Outono...
Florbela Espanca – Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida Verdade, o Sentimento! – E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento! … Sonhar um verso...
Florbela Espanca – Horas rubras
Horas profundas, lentas e caladas Feitas de beijos rubros e ardentes, De noites de volúpia, noites quentes Onde há risos de virgens desmaiadas… Oiço olaias em flor às gargalhadas… Tombam...
Florbela Espanca – A vida
É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento… Lançar um grande amor aos pés d’alguém O mesmo é que lançar flores ao vento! ...
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor… E nunca em meu castelo entrou alguém! Castelã da...

