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Alice Sant ́Anna

Alice Sant ́Anna

Alice Sant’Anna – Os primos

Alice Sant ́Anna

era número 48 a casa amarela
uma escadinha e uma árvore
bem pequena na varanda
que de vez em quando dava jabuticaba
tão mirrada que nem em faz de conta a gente
sentia gosto de fruta
todo dia era dezembro na rua
miguel pereira mesmo quando chovia mesmo
naquele dia do tombo
de patinete o meu grito ecoando
e o seu espanto até quando a gente
discordava da cor de certas tardes ou quando
aprendeu junto a deslizar nas bicicletas
alguma coisa sempre escurecia
de noite uma vontade de ficar um pouco mais
os carros dos pais que chegavam
como besouros lentos e gordos
os carros que não deviam
não podiam

Alice Sant’Anna, Rabo de baleia

Alice Sant ́Anna

Alice Sant ́Anna – O postal que Clara me alcançou

Alice Sant ́Anna

quando os helicópteros rondavam o prédio
duas da manhã e todos dormiam
apenas o zumbir das hélices
festejava a chegada
do céu iluminado de hong kong
que numa foto noturna se coloriu
de arranha-céus ansiosos pela vinda do ferry boat
que abarcaria depois de uma passagem
lenta, tranquila
diferentemente da sirene que embala
o sono dos moradores do meu bairro
clara não conseguiria entender
o rumor das hélices, seriam abelhas
de um país tropical?
ou outro inseto, talvez mais robusto?
como explicar o voo para clara?

Alice Sant ́Anna, Rabo de baleia

Alice Sant ́Anna

Alice Sant´anna – O postal de clara me alcançou

Alice Sant ́Anna

quando os helicópteros rondavam o prédio
duas da manhã e todos dormiam
apenas o zumbir das hélices
festejava a chegada
do céu iluminado de hong kong
que numa foto noturna se coloriu
de arranha-céus ansiosos pela vinda do ferry boat
que abarcaria depois de uma passagem
lenta, tranquila
diferentemente da sirene que embala
o sono dos moradores do meu bairro
clara não conseguiria entender
o rumor das hélices, seriam abelhas
de um país tropical?
ou outro inseto, talvez mais robusto?
como explicar o voo para clara?

 

Alice Sant´anna – Rabo de baleia

Alice Sant ́Anna

Alice Sant ́Anna – Um enorme rabo de baleia

Alice Sant ́Anna

cruzaria a sala neste momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
era abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia, e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

 

Alice Sant´anna, Rabo de baleia

Alice Sant ́Anna

Alice Sant ́Anna – A Noite um Bloco

Alice Sant ́Anna

de madeira pintado de preto
fecha os olhos e tenta se aproximar
perceber seu tamanho, profundidade
se tem cheiro se é maciço
sem porta para entrar ou sair
o modo como a luz bate
suave, meia-luz, a mínima
necessária para se ver o bloco
se não fosse por ela o bloco
mal existiria, seria tudo um mesmo escuro
sem contorno entre montanha
seus pés e meio-fio, o bloco
cabe no seu quarto em cima da cama
ainda sobra algum espaço nas laterais
uma nesga de lençol, mas não
o suficiente para caber
ela também

Alice Sant ́Anna, Rabo de Baleia

Alice Sant ́Anna

Alice Sant ́anna – Rabo de Baleia

Alice Sant ́Anna

cruzaria a sala neste momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
era abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia, e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

Alice Sant´anna, Rabo de Baleia