Por labor lhe coube dar nomes às coisas. Em tudo a sua palavra pousou como mão em benzida água. E os seres, haventes e nascentes, a seu modo batizou para...
Mia Couto
Mia Couto – Falso luto
Tristeza assim, tão derramada, não tem senão falsa razão. Lágrima assim, tão viva e exposta, só pode salgar mentiras. Desgosto tão à vista só pode ser lembrança de antiga casa...
Mia Couto – Sabedorias
Não me basta ser: eu quero o transbordar de tudo, o desassombro que toda margem desconhece. Não me basta morar: quero ser habitado por quem ao destino desobedece. Não me...
Mia Couto – As ruas
No tempo em que havia ruas, ao fim da tarde minha mãe nos convocava: era a hora do regresso. E a rua entrava connosco em casa. Tanto o Tempo morava...
Mia Couto – A demora
O amor nos condena: demoras mesmo quando chegas antes. Porque não é no tempo que eu te espero. Espero-te antes de haver vida e és tu quem faz nascer os...
Mia Couto – Ignorâncias paternas
Altas horas, já secos cuspos e copos, meu pai dizia: vou reparar o teto. E saía, para além da noite, por interditos caminhos. Minha mãe retorcia a alma nas magras...
Mia Couto – Amei-te sem saberes
No avesso das palavras na contrária face da minha solidão eu te amei e acariciei o teu imperceptível crescer como carne da lua nos nocturnos lábios entreabertos E amei-te sem...
Mia Couto – Desleitos
Recuso o leito. Quero dormir onde não tenha cabimento. O problema da cama é que, tal como no caixão, ganhamos o tamanho da tábua. Para sonhar, prefiro o inteiro chão....
Mia Couto – Beijo
Não quero o primeiro beijo: basta-me o instante antes do beijo. Quero-me corpo ante o abismo, terra no rasgão do sismo. O lábio ardendo entre tremor e temor, o escurecer...
Mia Couto – Amor e alma
Amar, só ama quem amou antes. Felizes os que sabem que, antes deles, se cumpriram amores. Afortunados os que de si sabem no milagre das estações. Venturosos os que escutam ...
Mia Couto – Viagem
No caminho havia um rio. E o rio tinha da navalha o apurado fio. E cortou em dois o mundo. Chamei o peixe. E o peixe bebeu o rio. No...
Mia Couto – Raiz
Não é o viver que me cansa. É o não haver morto que, em mim, não ressuscite. De tal modo que não encontro morte que seja minha. Alheio e distante ...
Mia Couto – O tempo e seus suspiros
Deito-me para desinflamar a angústia. Aos poucos, meu cansaço vai perdendo convicção. A velhice é uma insónia: deitamo-nos e quem dorme é a cama. Mia Couto, Poemas Escolhidos
Mia Couto – Gaiola
A pluma pensa, a ave pesa. Mais leve é o céu que não sabe voar. Hoje, porém, contra plumas e céus, a gaiola se ergueu e voou sobre a cidade,...
Mia Couto – Incertidão de óbito
Quando forem de pedra os teus olhos: uns te darão por falecido. Quando forem de fogo os insetos que te devoram: talvez então te digam defunto. Mas nem pedra nem...

