Mia Couto

Mia Couto – O Habitante

Se partiste, não sei. Porque estás, tanto quanto sempre estiveste. Essa tua, tão nossa, presença enche de sombra a casa como se criasse, dentro de nós, uma outra casa. No silêncio distraído de uma varanda que foi o teu único castelo, ecoam ainda os teus passos feitos não para caminhar mas para acariciar o chão. …

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Mia Couto

Mia Couto – Lições

Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros. Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios. Careço da habilidade da onda, hei de aprender a carícia da brisa. Trémula, a haste me pede o adiar da …

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Mia Couto – O degrau da lágrima

Nasci numa casa com escada.  Aquela escada,  dizem,  nasceu antes da casa.  O seu motivo  era o de todas as escadas:  medo de sermos terra,  temor de lavas e monstros.  Alteada sobre os céus  a casa era mais que um ventre.  Era um farol.  Nesse farol sem mar,  me lembro chorando  sobre o primeiro degrau.  …

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Mia Couto – Falas de uns

O caçador fala,  o marinheiro cala.  Um vive de morte emboscada,  outro se amarra em cais de partida.  O homem faz amor  para se sentir bem.  A mulher faz amor  quando se sente bem.  Uns falam.  Outros apenas fogem do silêncio.  Uns amam.  Outros de si mesmos escapam.    Mia Couto, Tradutor de chuvas

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