Mia Couto

Mia Couto – Lições

Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros. Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios. Careço da habilidade da onda, hei de aprender a carícia da brisa. Trémula, a haste me pede o adiar da …

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Mia Couto – O degrau da lágrima

Nasci numa casa com escada.  Aquela escada,  dizem,  nasceu antes da casa.  O seu motivo  era o de todas as escadas:  medo de sermos terra,  temor de lavas e monstros.  Alteada sobre os céus  a casa era mais que um ventre.  Era um farol.  Nesse farol sem mar,  me lembro chorando  sobre o primeiro degrau.  …

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Mia Couto – Falas de uns

O caçador fala,  o marinheiro cala.  Um vive de morte emboscada,  outro se amarra em cais de partida.  O homem faz amor  para se sentir bem.  A mulher faz amor  quando se sente bem.  Uns falam.  Outros apenas fogem do silêncio.  Uns amam.  Outros de si mesmos escapam.    Mia Couto, Tradutor de chuvas

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Mia Couto – Desilusão

Desiludido com o mundo, Afrânio concluiu: “uns são filhos da puta, outros só não o são porque a mãe é estéril” Decidido ao suicídio, no alto da falésia hesitou: “no mar não me lanço que é demasiada sepultura. Como receberei flores entre tanto peixe faminto?” Ante a fogueira, Afrânio desfez as contas: “Na labareda, não. …

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Mia Couto – Estátua

Da abandonada estátua partilho o mineral destino: encherei de vazio a pedra, e manterei os olhos polidos pelos dejetos dos pássaros. Da poesia fiel discípulo serei: abrirei a boca apenas para morrer. Mas se houver que proclamar a justa lembrança, direi: – a primeira pedra não foi para castigar mulher. Foi para esculpir uma deusa …

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Mia Couto – Prematuros olhos

Muito antes de mim,  os meus olhos  andaram a despir o mundo.  O que era roupa  tombou num escuro abismo,  desolada ave sob a chuva.  E não era roupa,  era alma de gente,  sonhos à procura do tempo.  Debruçada na margem,  a lavadeira sabe:  não é da roupa que cuida.  É o próprio rio que …

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Mia Couto – Árvore

Onde os frutos maduram: sal e sol em minhas veias, luz e mel em boca alheia. Onde plantei a alta acácia das febres eu mesmo me deitei, para ser a raiz da semente, e de madeira e seiva se fez o meu corpo. Agora, chove dentro de mim, em minhas folhas se demoram gotas, suspensas …

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