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Mia Couto

Mia Couto

Mia Couto – Fala de mãe e filho

Meu filho:
onde vais
que tens do rio o caminhar?

Não espreites a estrada, mãe,
que eu nasci
onde o tempo se despenhou.

Meu filho:
onde te posso lembrar
se apenas te dei nome para te embalar?

Mãe, minha mãe:
não te pese saudade
que eu voltarei sempre
como quem chega do mar.

Meu filho:
onde te posso nascer
se meu ventre seco
nunca ninguém gerou?

Mãe, nascerás sempre
na pedra em que te escuto:
a tua ausência, meu luto,
teu corpo para sempre insepulto

Mia Couto, Tradutor de chuvas

Mia Couto

Mia Couto – Inundar de infância

Hoje acordei sem dia,
a casa sem lar,
a cama sem leito.

Hoje acordei sem mim.

Saí à rua,
para me deixar possuir
pela simples leveza de existir.

Crianças passaram por mim,
aos bandos de espantar,
com folias e desmandos,
nessa fabricação de milagres
que é o absoluto brincar.

Dentro de mim
o universo se dissolveu
e um respirar de céu
em meu peito se inundou.

Seria a Vida,
seria o Tempo sem nostalgia,
ou seria, apenas, a poesia?

Sei que havia um fluir de rio
lavando antiquíssimas dores.

E do cristal de tristeza
que antes me negava o ar,
desse nó de vazio,
voltou a nascer o mar.

Mia Couto, Vagas e lume

Mia Couto

Mia Couto – O amor, talvez

Este perder-me de mim
até não ser minha
a minha própria vida:
talvez seja isso
o que outros chamam de amor.

Sopro a pétala,
voam os dedos
pelo céu do teu corpo.

E quando te dispo
é para que o mundo emudeça,
num desmaio de ausência.

E talvez seja isso
que os outros chamam de amor.

Mia Couto, Vagas e lumes

Mia Couto

Mia Couto – O Habitante

Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesses ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

Mia Couto, Vagas e Lumes

Mia Couto

Mia Couto – Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o Sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
acendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergonhado,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

Mia Couto, Vagas e lumes

Mia Couto

Mia Couto – O pecado do rio

Na igreja,
Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.

Com gesto de água
arredondou o ventre.

O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.

A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
— Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?

Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamais viu esse rio.
E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz…

Pegou o padre pela mão
e o convidou a descer o vale.

Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.

Mia Couto, Poemas escolhidos

Mia Couto

Mia Couto – Errar

Na escolinha,
a menina,
propícia a equívocos, disse:
— Masculino de noiva é navio.

Repreenderam, riscaram, descontaram.

Mas ela estava certa.

Noivados são mares
de barcos pares.

Mia Couto, Poemas escolhidos

Mia Couto

Mia Couto – A casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto, Tradutor de chuvas

Mia Couto

Mia Couto – Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, Raiz de orvalho e outros poemas

Mia Couto

Mia Couto – Biofagia

Meu vício
é vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

 

Mia Couto, Poemas escolhidos

Mia Couto

Mia Couto – Lições

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

 

Mia Couto, Poemas escolhidos

Mia Couto

Mia Couto – O degrau da lágrima

Nasci numa casa com escada. 

Aquela escada, 
dizem, 
nasceu antes da casa. 

O seu motivo 
era o de todas as escadas: 
medo de sermos terra, 
temor de lavas e monstros. 

Alteada sobre os céus 
a casa era mais que um ventre. 
Era um farol. 

Nesse farol sem mar, 
me lembro chorando 
sobre o primeiro degrau. 

Chorar é lá fora, advertia o pai. 
Lágrimas 
murcham aquém da porta: 
esse era o mando. 

A proibição da lágrima 
se somava ao interdito do chão: 
medo dos rios, 
das indomáveis enchentes. 

Ainda hoje 
uma voz antiga, 
dentro de mim, incita: 
aprende do pranto 
o parto das fontes. 

Sempre que chorares, 
nascerás uma outra vez. 

 

Mia Couto, Tradutor de chuvas

Mia Couto

Mia Couto – Testamento

Tudo o que tenho 
não tem posse: 

o rio e suas ocultas fontes, 
a nuvem grávida de novembro, 
o estilhaçar do riso em tua boca. 

Só me pertence 
o que não abraço. 

Eis como eterno me condeno: 
– amo o que não tem despedida. 

 

Mia Couto, Vagas e lumes

Mia Couto

Mia Couto – Falas de uns

O caçador fala, 
o marinheiro cala. 

Um vive de morte emboscada, 
outro se amarra em cais de partida. 

O homem faz amor 
para se sentir bem. 

A mulher faz amor 
quando se sente bem. 

Uns falam. 
Outros apenas fogem do silêncio. 

Uns amam. 
Outros de si mesmos escapam. 

 

Mia Couto, Tradutor de chuvas