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Bruna Beber

Bruna Beber

Bruna Beber – O pecúlio

estou sempre indo ao seu encontro
chego de costas pra você achar que estou indo embora
saio de frente pra você achar que estou chegando
estou sempre perdido indo ao seu encontro

é assim a minha vida e o meu calendário
eu estou sempre indo ao seu encontro
não preciso ir mais longe pra saber
que estou sempre indo ao seu encontro.

Bruna Beber, Rua da Padaria

Bruna Beber

Bruna Beber – A violência

vontade constante
de dizer te quero tanto
dela me distraio
mas você me abraça
e de repente todo
o mundo não tem
membros superiores
e então me beija
eu poderia matar
todas as plantas
tenho muito ar
até que sinto
na ponta dos dedos
a coragem de dizê-la.

Bruna Beber, Rua da padaria

Bruna Beber

Bruna Beber – Dotes

coleciono mas não leio
cartas antigas, anúncios de almanaque
em latas de goiabada nolasco

sei que estou em permanente mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

no entanto aprendi pouco sobre apostas
e temporais, só sei que levam
muito mais do que trazem.

 

Bruna Beber, Balés

Bruna Beber

Bruna Beber – Barragem

deve ser perigoso
esse gosto recorrente
de incêndio na boca

mas não há saliva pra apagar
e não há saliva que apague
por isso falo pouco

não sei o que de fato queima
fecho a boca e o fogo sai
pelo nariz

respiro mal, meu ar é qualquer fumaça
queria um gosto bom, queria pernas
pra sair correndo.

Bruna Beber, Balés

Bruna Beber

Bruna Beber – As avós e as tias

durante toda minha caminhada
pela bola que uns chamam
de terra e outros de água
ou como carinhosamente
já apelidaram um amigo
balofo no colégio
só consegui
tomar posse
de uma certeza
e por isso gostaria
de dividi-la passem
para os seus filhos:
não há
sequer
um ser
humano que caminhe
pela bola – há quem
a diga achatada –
que não tenha
não teve
ou nunca terá
uma
toalha
bordada
é importante
que seus filhos
passem pros deles
essa verdade
mas se não tiverem
filhos netos tudo bem
sempre terão toalhas
bordadas.

Bruna Beber, Rua da padaria

Bruna Beber

Bruna Beber – 2

Plantei uma goiabeira
dentro do banheiro
e a cigarra veio
morar comigo

Desde então tomo banho
de óculos, uma sensação
de melancolia molhada
que aprecio

Mas não amo, amor é o que vejo
semear, romper e brotar
da barriga da cigarra
uma parceria:

O canto
é ancestral, adquirido
às vezes peço uma canção
ela não tem ouvidos

Seu olho esbugalhado
de sapo explosivo
o meu inchado
de chorar sem motivo

Estou satisfeita,
mas não devo esperar
nada, é como criar
uma sereia.

 

Bruna Beber, Ladainha

Bruna Beber

Bruna Beber – 127

Ando cansada.
Ando cansada da perna
Ando cansada da veia
Ando cansada do pé

É a musculatura, a ossatura
e a fascite plantar. Metatarsalgia,
Neuroma de Morton, rígido hálux

Ando muito devagar. É informação,
é inflamação. E o que não é dedo,
é tornozelo ou calcanhar

Ando muito cansada dos cigarros
que eu fumo porque eles se fumam
sozinhos quando venta.
Ando cansada de pólvora.

 

Bruna Beber, Ladainha

Bruna Beber

Bruna Beber – 43

Sei que não é o momento
mas espere um instante
escrevi a resposta
letra sincera, simulada educação
e cheguei ao final
morrendo de sede

Sei que não é o momento
mas espere, estava deserta
a casa, fiz uma ligação
para povoar a casa,
mas não fui atendida
que bom

Sei que não é o momento
mas aqui do lado tem ferrovia
o trem passa dentro de casa
o trem passou
passou como quem desiste
o trem raramente desiste de passar

E amanhã, amanhã
eu juro, amanhã eu vou
sair de casa
com a carta
pra longe
do trem

Sei que não é o momento
mas a carta não diz nada
demais, é como tudo
depois de tudo
a carta sou eu dormindo
a carta é alguém

jantando no escuro
Sei que não é mas eu digo
e vou dizer na ligação
assim que for atendida
e fui e é sua
a opção de deixar

o telefone no mudo
Sei que ele é quem persevera
célere, enérgico, vivaz
ligo, escrevo, canto, rio
para falar do instante
como este que dividimos agora

 

Bruna Beber, Ladainha

Bruna Beber

Bruna Beber – 131

Sempre limpo os pés antes de entrar
no sono e aí um frango inteiro lindo
e cru me tira para dançar

O filme é a revolta dos folclores e o mundo
se carameliza em bosta, toda vaca
é gordona e a terra cinza de papel

Os prédios têm mais nome de mulher
que nome de homem, e o azul é o azul
céu do centro-oeste brasileiro

Uma TV a flores ligada
na cena de um mandacaru
nascendo no dedão do pé

Bate aquela vontade de voar
e de descer a escada de barriga
pelo corrimão, cair de cara e morrer

Mas tomar distância num copo de pinga
beber leite pra brincar, depois pinga
depois distância de novo e cantar

A cabeça suja é boa para as coisas
que fazemos em cima dos castanheiros
por exemplo nada, e também um poema.

 

Bruna Beber, Ladainha

Bruna Beber

Bruna Beber – Romance em doze linhas

quanto tempo falta pra gente se ver hoje
quanto tempo falta pra gente se ver logo
quanto tempo falta pra gente se ver todo dia
quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre
quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto tempo falta pra gente se ver às vezes
quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos
quanto tempo falta pra gente não querer se ver
quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.

Bruna Beber, Amar, Verbo Atemporal

Bruna Beber

Bruna Beber – Molhar as plantas

tudo tem barulho de mar
enceradeira isopor carro
em movimento aerosol
espirro pistola moeda
telha bombardeio cigarro
queimando pia degradê
cãimbra inseto monge
sua vizinha o futuro
tem barulho de mar
na camiseta no quadro
chinelo aeroporto gaiola
panela caverna birita
beijo tem biblioteca
também um curió bola
de chiclete sobretudo
um dinossauro alado
tem mar de todo tipo
de barulho e dentro
de cada mar um ralo
entupido de cabelos.

Bruna Beber, Rua da Padaria

Bruna Beber

Bruna Beber – O que dói primeiro

todo urubu titia gritava
urubu urubu sua casa
tá pegando fogo
todo estrondo na rua
papai dizia eita porra
aposto que bujão de gás
todo avião vovó acenava
é seu tio! desquentrou preronáutica
num tenho mais sossego
temi e ainda temo toda espécie
inflamável lamentei tanto urubu
desabrigado desejei o fim
da força aérea brasileira
só custei a entender mamãe
e o que queria dizer com seu irmão
não vem mais brincar com você
papai do céu levou.

Bruna Beber, Rua da Padaria