Ao escrever a fome com as palmas das mãos vazias quando o buraco-estômago expele famélicos desejos há neste demente movimento o sonho-esperança de alguma migalha alimento. Ao escrever o frio...
Conceição Evaristo
Da cabeceira do rio, as águas viajantes não desistem do percurso. Sonham. A seca explode no leito vazio e a pele enrugada da terra seca e sonha. O barco espera....
Conceição Evaristo – Os sonhos
Os sonhos foram banhados nas águas das misérias e derreteram-se todos. Os sonhos foram moldados a ferro e a fogo e tomaram a forma do nada. Os sonhos foram e...
O banzo renasce em mim. Do negror de meus oceanos a dor submerge revisitada esfolando-me a pele que se alevanta em sóis e luas marcantes de um tempo que aqui...
Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das...
Conceição Evaristo – De mãe
O cuidado de minha poesia aprendi foi de mãe, mulher de pôr reparo nas coisas, e de assuntar a vida. A brandura de minha fala na violência de meus ditos...
Conceição Evaristo – Eu-Mulher
Uma gota de leite me escorre entre os seios. Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas. Meia palavra mordida me foge da boca. Vagos desejos insinuam esperanças. Eu-mulher...
O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos A memória bravia lança o leme: Recordar é preciso. O movimento vaivém nas águas-lembranças dos meus marejados olhos transborda-me a vida, salgando-me...

