Navegando pela Categoria

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – Correspondências

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas:
Por florestas de símbolos, lá o homem cruza
Observado por olhos ali familiares.
Tal longos ecos longe lá se confundem
Dentro de tenebrosa e profunda unidade
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
– Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Possuindo a expansão de algo inacabado,
Tal como o âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.

Charles Baudelaire, Poetas franceses do século XIX

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – Gênio do mal

Gostavas de tragar o universo inteiro, 
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro, 
Para se exercitar no jogo singular, 
Por dia um coração precisa devorar. 
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras 
Das barracas de feira, e prendem como garras; 
Usam com insolência os filtros infernais, 
Levando a perdição às almas dos mortais. 

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo! 
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo 
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade? 
Nenhum espelho há que te mostre a verdade? 
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto. 
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto 
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado, 
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! — 
Vai recorrer a ti para um gênio formar? 

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par. 

 

Charles Baudelaire, As flores do mal

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – O Albatroz

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem 
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz, 
Que segue pelo azul a embarcação em viagem, 
Num vôo triunfal, numa carreira audaz. 

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido 
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado! 
Que pena que ele faz, humilde e constrangido, 
As asas imperiais caídas para o lado! 

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo! 
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!… 
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo, 
Mutila um outro a pata ao voador inerme. 

O Poeta é semelhante a essa águia marinha 
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais; 
Exilado na terra, entre a plebe escarninha, 
Não o deixam andar as asas colossais! 

 

Charles Baudelaire, As flores do mal

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – Spleen

Quando o cinzento céu, como pesada tampa, 
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, 
E a sua fria cor sobre a terra se estampa, 
O dia transformado em noite pardacenta; 

Quando se muda a terra em húmida enxovia 
D’onde a Esperança, qual morcego espavorido, 
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria, 
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido; 

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece 
D’uma prisão enorme os sinistros varões, 
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece, 
Com paciente labor, fantásticas visões, 

– Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes, 
Lançando para os céus um brado furibundo, 
Como os doridos ais de espíritos errantes 
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo; 

Soturnos funerais deslizam tristemente 
Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança, 
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente, 
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

 

Charles Baudelaire, As flores do mal

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – O homem e o mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séc’ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n’uma luta selvagem,
De tal modo gostais n’uma luta selvagem,
Eternos lutador’s ó irmãos implacáveis!

 

Charles Baudelaire, As Flores do Mal

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire – A Música

A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, As Flores do Mal