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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Charles Bukowski – O amor é uma folha de papel rasgada em pedaços

toda a cerveja estava envenenada e o cap. soçobrou

e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nós arfávamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bêbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato não parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.

Charles Bukowski, Sobre o amor

Charles Bukowski

Charles Bukowski – Escala

Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal

num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este…

podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.

Charles Bukowski, Sobre o amor

Charles Bukowski

Charles Bukowski – Confissões

esperando pela morte

como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela

minha esposa
ela vai ver este

corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então

talvez
de novo:
“Hank!”

Hank não vai

responder
não é a minha morte que

me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte

de nada.
eu quero que

ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo

a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras

duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te

amo.

Charles Bukowski, Sobre amor

Charles Bukowski

Charles Bukowski – Minha

Ela jaz ali embolada.
Posso sentir a grande montanha vazia
de sua cabeça
mas ela está viva. Boceja e
coça o nariz e
puxa para si as cobertas.
Logo lhe darei o beijo de boa-noite
e nós vamos dormir.
E longínqua é a Escócia
e embaixo da terra
correm os roedores.
Ouço motores na noite
e pelo céu rodopia uma
branca mão:
boa noite, querida, boa noite.

Charles Bukowski, Sobre o amor

Charles Bukowski

Charles Bukowski – Eu

mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.

hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado

com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.

falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.

ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.

Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos