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Adalcinda Camarão

Adalcinda Camarão

Adalcinda Camarão – Anseio

adalcinda camarão

Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de vôo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!


Adalcinda Camarão, Poesia do Grão-Pará

Adalcinda Camarão

Adalcinda Camarão – Amor

adalcinda camarão

Teus olhos se espreguiçam no meu peito
e dormem o riso morno das abelhas
tontas de mel rolando
amor – amado…
Teus lábios escrevem poemas sós, secretos,
nos meus lábios lacrados desta sede
que só tu sabes a paixão imensa…
Tuas mãos debulham rimas
em todo o meu dorso dourado
da tua presença
à sombra da tarde que escoa…
Tentar ficar longe de ti é fiasco, é legenda.
Fica rente a ti blasfêmia que Deus abençoa.

Adalcinda Camarão, Vidência

Adalcinda Camarão

Adalcinda Camarão – Origem

adalcinda camarão

Eu queria mesmo, ó grande mar azul
que conhecesses o meu cabelo solto ao vento,
tão parecido com o teu pensamento
livre, crescendo sempre…
Eu fazia questão que ouvisses o meu soluço abafado
como de tuas ondas,
que mal põem à tona a cabeça o vento esmaga.
Eu queria, afinal, que me visses despida
com a tua correnteza que passa
sem pudor ou malícia – transparente.
Tu reconhecerias
no contorno transluzente do meu corpo
a desordem ritmada da tua carícia que minha mãe bebeu
no dia em que se banhou nas tuas espumas,
quase ao me dar à luz,
e mergulhou, afinal, sondando-te a profundidade,
onde encontrou minhalma!

 

Adalcinda Camarão, Antologia Poética

Adalcinda Camarão

Adalcinda Camarão – Espaço-tempo

adalcinda camarão

Quero-te mesmo, amor, na ausência ou na presença,
com rumores de sombra, alarde ou desafios.
―Dormir num chão de luar à sombra de roseiras
ou sob os pirisais na baixada dos rios…

Assim te amo e te sei amando dia-a-dia,
acordada ou dormindo o germinal segredo.
E te abraço sem ter teu corpo ao meu, beijando
a saudade sem ser de quem se tem sem medo.

Amo-te mesmo, amor, no madrigal do tempo,
derrubando androceus e gineceus se amando
nas pálpebras do estio que o sono não acorda.

No teu dorso eu descanso a caminhada enorme
que fiz pra te encontrar ― lábios ardendo em busca
da tua noite azul onde minh’alma dorme.

Amo-te mesmo, amor. Se me vens ou te vais.
Sinto-te à flor da pele e à superfície da água
que dessedenta o bem que nos lava o mal.

Amo-te e não sei quem és ― teu nome nem origem.
Só sei que és homem são e me sabes mulher.
Que beleza este amor sem pranto nem vertigem,
sem princípio nem fim, nem dimensão sequer!

Adalcinda Camarão, Antologia Poética